Atalhos de Campo


15.7.16

Ecce Homo

Imaginemos um observador imparcial de outro planeta, por exemplo Marte, examinando o comportamento social do homem com a ajuda de um telescópio cujo aumento não fosse suficiente para permitir reconhecer os indivíduos e seguir o comportamento de cada um deles, mas chegasse para observar grandes acontecimentos, como batalhas, migrações de povos, etc. Nunca esse observador teria a ideia de que o comportamento humano pudesse ser dirigido pela razão, e ainda menos por uma moral responsável. Se ele fosse, como queremos supô-lo, um ser de pura razão, desprovido de instintos, e ignorando completamente de que modo os instintos em geral, e sobretudo a agressão, podem falhar, seria absolutamente incapaz de encontrar uma explicação para a História. Na verdade, os fenómenos da História, tal como se repetem sempre, não têm causas racionais. Dizer, como geralmente se faz, que são causados pela «natureza humana» equivale a um lugar comum. São a ausência de razão e a natureza humana não-racional que fazem com que duas nações entrem em competição, embora nenhuma necessidade económica a isso as obrigue; são elas que levam dois partidos políticos ou duas religiões de programas espantosamente semelhantes a combaterem-se encarniçadamente, e um Alexandre ou um Napoleão a sacrificarem milhões de vidas humanas ao tentarem unir o mundo sob o seu ceptro. Ensinaram-nos a respeitar certas personagens que agiram de modo tão absurdo, e até a considerá-las «grandes» homens.

Konrad Lorenz/ A Agressão 
               Uma História Natural do Mal
               capítulo Ecce Homo
                

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