Atalhos de Campo


26.7.16

Bread and Roses*

(...)a vontade de ser Nada confunde-se com a vontade de ser Tudo. No fim de O Envelhecimento encontra-se esta auto-exortação: «Precisamos de aceitar ser finitos: estar aqui e não noutro lugar qualquer, fazer isto e não outra coisa, agora e não nunca ou sempre[...] ter esta vida apenas.

André Gorz/Carta a D.




(...)
Acabas agora de fazer oitenta e dois anos. És ainda bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca. Recentemente reenamorei-me de ti uma vez mais e trago de novo em mim um vazio devorador que só o teu corpo apertado contra o meu apazigua. À noite vejo por vezes a silhueta de um homem que segue um carro funerário, numa estrada vazia e numa paisagem deserta. Esse homem sou eu. O enterro é o teu. Não quero assistir à tua cremação; não quero receber um frasco com as tuas cinzas. Ouço a voz de Kathleen Ferrier que canta «Die Welt ist leer; Ich will nicht leben mehr»* e acordo. Vigio a tua respiração, a minha mão aflora-te. Cada um de nós gostaria de não sobreviver à morte do outro. Muitas vezes dissemos um ao outro que, no caso impossível de termos uma segunda vida, quereríamos passá-la juntos. 
21 de Março-6 de Junho de 2006

*«O mundo está vazio, não quero viver mais.» (n.t.).

André Gorz/ Carta a D.

4 comentários:

  1. Que beleza imensa!...

    Obrigada, querida Teresa.

    :-)

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    1. Deixo-te mais um bocadinho da carta:

      "Nunca tínhamos visto tantos «existencialistas», quer dizer, pessoas decididas a «mudar de vida», sem nada esperar do poder político, tentando viver juntas de outra maneira, pondo em pratica os seus fins alternativos. Fomos convidados para um think tank em Washington. Tu foste convidada para diversas reuniões de Bread and Roses e conseguiste que eu pudesse assistir. De regresso a Paris, trouxeste vários livros, entre os quais Our Bodies, Our Selves. Tínhamos um mundo em comum, do qual percebíamos aspectos diferentes. Éramos ricos dessas diferenças."

      Suponho que ela era tão extraordinária quanto ele. :)

      Obrigada também, por partilhares esta beleza comigo.

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  2. Fazem falta mais pessoas assim, que se amam. Não achas?

    Adorei, Teresa, obrigada.

    Um beijinho e desculpa lá mas vai ser um abraço dos horrorosos.

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    1. Pela longa carta, percebe-se que, como todos os amores, teve períodos difíceis. Mas foram superados, sempre. É uma história de amor excepcional, que ele percebeu ser digna de ser contada. Almas gémeas.

      Tens razão que fazem falta mais pessoas que se amem assim, porque amar assim é também amar os outros e o mundo.
      Um dia ela disse-lhe: « Amar um escritor é amar que ele escreva. Portanto, escreve!» E, na verdade, sacrificou-se pela sua escrita.

      Um beijinho, querida Susana. Cada vez gosto mais dos teus abraços horrorosos. :)
      Tem um dia feliz.

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