Atalhos de Campo


25.7.16

as mulheres que desistem / os homens que d(r)esistem

As mulheres que desistem deixaram aos poucos de ir ao cabeleireiro e usam o cabelo curto e grisalho; do pescoço largo pode pender um fio antigo com uma medalha escondida entre o peito já flácido. A imagem pode ter Nossa Senhora a esmagar ou não a serpente do mal. A consciência desdenhosa do seu corpo fê-las adoptar um uniforme que as conduz com a mesma displicência de velhos anciãos: camisas largas onde se acomode a cintura, calças de anca opulenta suficientemente generosas para acolherem as grossas coxas, sapatos rasos e pretos, fiéis ao formato tortuoso dos pés. Caminham nos passeios sujos de velhas cidades e, quando param, parece ser sem razão aparente, porque o telemóvel raramente toca. Podem também usar um kispo castanho, azul escuro, ou preto. Nesse caso é a carteira suspensa do braço que as distingue dos maridos. No pulso continua aquele Tissot pequenino de mostrador riscado, onde elas sabem que as horas passam de cor. Estranhamente nunca se atrasam. Desistem, até lhes sobreviver muito pouco: uma pele ainda bonita, um gesto elegante numa mão engrossada pelos dias, uns olhos suspeitamente pequenos, e brilhantes. Mas levam sempre uma fotografia da juventude, para o caso de haver oportunidade. As mulheres que desistem fazem-no todos os dias com a mesma resiliência das outras.

os homens que desistem (por Outro Ente) 

Os homens que desistem tornam-se secos e magros. Usam as calças de antigamente presas com cintos apertados, que repuxam na zona da barriga, ficando com o botão acima da cintura e foles abaixo. Tornam-se surdos e recusam usar aparelhos nas orelhas, para não se refletirem velhos no espelho frente ao qual se escanhoam. Recordam, com ares de sabedoria, que dantes os pais diziam aos filhos "não comas o pão todo, que o teu irmão também quer", comparando com os pais de hoje que lhes dizem "come o bolo todo, se faz favor". Os homens que desistem deixam de ouvir as conversas dos que lhes importam e vão-se isolando num silêncio de inquietações e numa quietude sem desejos. Mas carregam sempre, na carteira preta começada a desfiar, as fotografias dos netos homens-para-a-vida e dos bisnetos crianças-desenxovalhadas. E notas para lhes oferecer, para o caso de surgir a visita.

Com os meus agradecimentos a Outro Ente pelo magnífico comentário, aqui transcrito.

8 comentários:

  1. e o que aconselhas às mulheres que desistem?

    (fez-me tanta falta esta janela aberta)

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    1. ana, a maior parte delas é convictamente desistente e não quer conselhos. Há uma altura em que se calhar te perguntas - para quê? Acho que a resposta é pela auto-estima. Eu começaria por não desistir do cabelo, por exemplo. Umas coisas potencializam as outras e o desleixo vai andado até tomar conta de tudo. - Vê como eu era?, perguntam na sua militância auto-destrutiva... é pena.

      Obrigada, querida ana.

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  2. Os homens que desistem tornam-se secos e magros. Usam as calças de antigamente presas com cintos apertados, que repuxam na zona da barriga, ficando com o botão acima da cintura e foles abaixo. Tornam-se surdos e recusam usar aparelhos nas orelhas, para não se refletirem velhos no espelho frente ao qual se escanhoam. Recordam, com ares de sabedoria, que dantes os pais diziam aos filhos "não comas o pão todo, que o teu irmão também quer", comparando com os pais de hoje que que lhes dizem "come o bolo todo, se faz favor". Os homens que desistem deixam de ouvir as conversas dos que lhes importam e vão-se isolando num silêncio de inquietações e numa quietude sem desejos. Mas carregam sempre, na carteira preta começada a desfiar, as fotografias dos netos homens-para-a-vida e dos bisnetos crianças-desenxovalhadas. E notas para lhes oferecer, para o caso de surgir a visita.

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    1. Querido Outro Ente,

      Não resisti a publicar o seu comentário em dueto com o meu post.
      Falava hoje com a minha mãe exactamente sobre isso (antes de ler o que tão bem escreve), e concluíamos que os homens que desistem passam uma imagem de ainda maior solidão do que as mulheres que desistem.

      Muito obrigada, pelo maravilhoso comentário.

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  3. Querida Teresa Borges do Canto,
    Estou sem palavras, surpreendido pela sua amabilidade tamanha.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Não tem que agradecer, muito pelo contrário, assim o post tem outra dimensão; e ficou tão mais bonito.
      Um beijo.

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  4. Arrepiante de tão verdadeiro. Espero nunca desistir também eu, um dia...

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    1. É bom que tenhamos consciência disso, GM, para que contrariemos desde o início. Sinto que é possível que aconteça com qualquer uma de nós. Mas tu vais pedalar até aos noventa, certo?
      Boas férias, underwater. :)

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