Atalhos de Campo


30.7.16

viver no campo # repost 9

E viver no campo é: acordar em sobressalto com o grito dos pavões em vez da sirene das ambulâncias; observar dois estorninhos e três pintassilgos em coexistência pacífica no meio do prado amarelo, em vez de usar os binóculos para espiar os vizinhos da frente; fotografar as flores deitada na relva, em vez de fugir aos olhos reprovadores da cidade sem conseguir tirar fotografia nenhuma; plantar gerânios em vasos, em vez de ter flores de plástico nas varandas; apanhar a fruta(e o bicho) das árvores, em vez de comprar fruta estragada (e sem bicho), no supermercado; chegar a casa com uma carraça na perna, em vez de ter uma carraça à perna; encontrar um sapo no hall de entrada, em vez de publicidade ao SAPO; ter um gafanhoto pela manhã no abat-jour do candeeiro, em vez de ir levando com gafanhotos ao longo do dia; ver uma víbora no alpendre, em vez de ser mordida por uma, sem nunca a ter visto; salvar um ratinho na piscina, em vez de dar um gritinho em casa a pedir que o matem; não ter um vizinho giro a quem pedir um limão, por já não saber o que fazer aos limões; ter o colesterol elevado por comer demasiados ovos biológicos, em vez de ter o colesterol elevado por comer demasiado fora... 


(continua?)




(...)

Publicado em 1/4/2015 

29.7.16

Rolex

Ao entrares em casa é provável que passe por ti uma rola-turca a voar. Se a seguires, com o olhar maravilhado, repararás que ela voa com destreza, passa por portas entreabertas, fechando as asas, descreve curvas no ar para contornar os obstáculos e pousa onde lhe apetecer: numa cadeira, num candeeiro, num móvel, ou anda pelo chão, sobre a tijoleira e os tapetes. Também achará normal pousar na tua cabeça. Se o permitires, sentirás que ela transporta o céu nas asas pois far-te-á uma massagem no cabelo com o bico e as patas. Fecha os olhos e verás como é bom. Mas se usares óculos é melhor tirá-los, porque senão ela saltará para o teu ombro disposta a tirar-tos e poderá ficar irritada, puxando repetidamente pela haste, junto às orelhas. Se te sentares, é possível que voe para o teu joelho e te debique as calças. Quererá festas. Passa-lhe com o indicador ao longo do pescoço e ela deslocará a asa do mesmo lado para que sigas pelas penas que estão debaixo; repete a mesma operação do outro lado. Depois começará a bicar-te de mansinho os dedos para pedir festas na cabeça. Se passares com os dedos no sentido contrário às penas ela irá adorar, sentindo-se recompensada pela massagem que te deu, e fecha os olhos, consolada, imitando-te. Se a seguir experimentares dar-lhe miolo de pão, ficará tua amiga. Faz pequeninas bolas entre os dedos e oferece-lhe; comerá uma a uma até encher o papo. Depois voará para um armário para fazer a toilette. Nessa altura aproveita para te ires pentear.     

viver no campo



28.7.16

brilho



No final de um concerto, num teatro com o mesmo apelido
que ele, tive oportunidade de lhe dizer que a sua performance 
me fizera lembrar Keith Jarrett. Agradeceu com a humildade 
que o caracteriza, mas não tenho a certeza se terá considerado
isso um elogio.  

cadente

até o céu tem estrelas

26.7.16

madrigal



Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade/ Madrigal

ponto de fuga

Bread and Roses*

(...)a vontade de ser Nada confunde-se com a vontade de ser Tudo. No fim de O Envelhecimento encontra-se esta auto-exortação: «Precisamos de aceitar ser finitos: estar aqui e não noutro lugar qualquer, fazer isto e não outra coisa, agora e não nunca ou sempre[...] ter esta vida apenas.

André Gorz/Carta a D.




(...)
Acabas agora de fazer oitenta e dois anos. És ainda bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca. Recentemente reenamorei-me de ti uma vez mais e trago de novo em mim um vazio devorador que só o teu corpo apertado contra o meu apazigua. À noite vejo por vezes a silhueta de um homem que segue um carro funerário, numa estrada vazia e numa paisagem deserta. Esse homem sou eu. O enterro é o teu. Não quero assistir à tua cremação; não quero receber um frasco com as tuas cinzas. Ouço a voz de Kathleen Ferrier que canta «Die Welt ist leer; Ich will nicht leben mehr»* e acordo. Vigio a tua respiração, a minha mão aflora-te. Cada um de nós gostaria de não sobreviver à morte do outro. Muitas vezes dissemos um ao outro que, no caso impossível de termos uma segunda vida, quereríamos passá-la juntos. 
21 de Março-6 de Junho de 2006

*«O mundo está vazio, não quero viver mais.» (n.t.).

André Gorz/ Carta a D.

25.7.16

as mulheres que desistem / os homens que d(r)esistem

As mulheres que desistem deixaram aos poucos de ir ao cabeleireiro e usam o cabelo curto e grisalho; do pescoço largo pode pender um fio antigo com uma medalha escondida entre o peito já flácido. A imagem pode ter Nossa Senhora a esmagar ou não a serpente do mal. A consciência desdenhosa do seu corpo fê-las adoptar um uniforme que as conduz com a mesma displicência de velhos anciãos: camisas largas onde se acomode a cintura, calças de anca opulenta suficientemente generosas para acolherem as grossas coxas, sapatos rasos e pretos, fiéis ao formato tortuoso dos pés. Caminham nos passeios sujos de velhas cidades e, quando param, parece ser sem razão aparente, porque o telemóvel raramente toca. Podem também usar um kispo castanho, azul escuro, ou preto. Nesse caso é a carteira suspensa do braço que as distingue dos maridos. No pulso continua aquele Tissot pequenino de mostrador riscado, onde elas sabem que as horas passam de cor. Estranhamente nunca se atrasam. Desistem, até lhes sobreviver muito pouco: uma pele ainda bonita, um gesto elegante numa mão engrossada pelos dias, uns olhos suspeitamente pequenos, e brilhantes. Mas levam sempre uma fotografia da juventude, para o caso de haver oportunidade. As mulheres que desistem fazem-no todos os dias com a mesma resiliência das outras.

os homens que desistem (por Outro Ente) 

Os homens que desistem tornam-se secos e magros. Usam as calças de antigamente presas com cintos apertados, que repuxam na zona da barriga, ficando com o botão acima da cintura e foles abaixo. Tornam-se surdos e recusam usar aparelhos nas orelhas, para não se refletirem velhos no espelho frente ao qual se escanhoam. Recordam, com ares de sabedoria, que dantes os pais diziam aos filhos "não comas o pão todo, que o teu irmão também quer", comparando com os pais de hoje que lhes dizem "come o bolo todo, se faz favor". Os homens que desistem deixam de ouvir as conversas dos que lhes importam e vão-se isolando num silêncio de inquietações e numa quietude sem desejos. Mas carregam sempre, na carteira preta começada a desfiar, as fotografias dos netos homens-para-a-vida e dos bisnetos crianças-desenxovalhadas. E notas para lhes oferecer, para o caso de surgir a visita.

Com os meus agradecimentos a Outro Ente pelo magnífico comentário, aqui transcrito.

na esplanada


como deixar de ser "o sexo fraco"

«Observai que a mulher se de alguma coisa se queixa, não é de ser adorada: - é, pelo contrário, de deixar de o ser. Se eu fosse mulher, acima de tudo exigiria que ninguém me fizesse a corte, dispensaria muito bem os galanteios; contentar-me-ia com pertencer ao sexo fraco, aceitaria a verdade da minha situação, e teria o brio de repelir as mentiras dos homens. A mulher não pensa assim, pouco se importa com a verdade.»

Kierkegaard/ O Banquete

23.7.16

Onde canta galo não canta galinha # repost 8

Não, não era uma vez um galo... acontece também que não se passou com ela mas comigo, e que nem sequer foi em uma quinta, mas aqui. E se esperarem um bocadinho, tiro-lhe uma fotografia, para terem a certeza. É que eu ando com um problema de há uns tempos para cá, um problema com este galo absurdo, um pedrês de trazer por casa, um galaró que não se enxerga. Aconteceu assim: ele vinha fraco, era pequeno em relação aos outros galos que já brigavam pela liderança, por isso nos afeiçoámos a ele e foi o escolhido para ficar. Literalmente foi a votos e ganhou. Os outros, cada um de sua vez, acabaram como é costume acabarem os galos, e é melhor nem falarmos nisso. Deixou de haver despique nas cantorias, canta daqui, canta dali, ficou este a cantar sozinho e a tranquilidade voltou ao galinheiro. Claro que quinta que é quinta que se preze tem que ter um galo a cantar de madrugada e ele lá foi cumprindo a sua primeira função de despertador de cabeceira. Devo esclarecer que a princípio era bastante esganiçado e que foi após muito treino que a sua voz começou finalmente a troar imperiosa, obrigando toda a gente a acordar com as galinhas, inclusive com as da vizinhança. Temos galo, pensei. Até aqui foi tudo pacífico, ou quase, porque me lembrei agora que por acaso me desagrada acordar muito cedo. No entanto perdoava-lhe a alvorada por gostar de lhe ficar a observar o cavalheirismo - sempre o último a comer, se pudesse abriria a porta da capoeira para deixar as frangas passar à frente - os meneios palacianos quando ia buscar um grão de milho para o oferecer com galanteria ao vasto público feminino enquanto arrastava a casaca de brocado pelo chão; e por último os gorjeios à Rameau a acompanhar piruetas para atrair a atenção entufando ridiculamente as rendas do pescoço - enfim, um Don Juan digno de se ficar a apreciar. Convém sublinhar que elas não lhe ligavam nenhuma, quem se divertia era eu que me ria dos seus truques, sempre os mesmos, o ar emproado, o laranja do olho a controlar, o pescoço empertigado até à ponta da crista que o coroava rei. Das galinhas. Já tinha ouvido dizer que os galos por vezes atacam as pessoas mas não achava possível que isso acontecesse comigo, que o tratava tão bem. O facto é que aconteceu.




A primeira vez foi à hora da última refeição, ao lusco-fusco, quando me preparava para os guardar nesse Taj Mahal que é a casa onde os galináceos dormem em segurança com pavões e perus. Quando ia a sair fui literalmente perseguida por ele, que sem cerimónias se atirou a mim vestido de guerreiro, empunhando os esporões bem afiados. Mal refeita pela surpresa defendi-me como pude, escudando-me miseravelmente com o cesto onde levava os ovos, e saí da capoeira escorraçada e humilhada, com uma gemada a escorregar-me pela perna abaixo. A partir daí fiz várias tentativas infrutíferas para entrar no galinheiro. O tirano parecia já estar à espera preparado para me agredir, até que desisti, abespinhada, e pensei que dali em diante era ele ou eu. Ganhei, ele ficou em prisão preventiva numa casa mais pequena dentro do recinto onde passeiam, a aguardar sentença, para que eu pudesse voltar em segurança à minha visita vesperal. Agora olho para ele com compaixão e já me apeteceu dar-lhe outra oportunidade, mas tenho a certeza de que vai correr mal.      
    
    
Dedico esta história ao meu Pai, que faria hoje 86 anos, e que me diria sabiamente: convida-me para almoçar, gosto muito de fricassé.

Publicado em 27/5/2014




Adenda (póstuma): 
Correu, de facto, mal. Após um mês de reclusão teve ordem de soltura. A primeira coisa que fez foi conduzir todas as galinhas a toque de caixa para dentro da capoeira. A seguir levou uma tal tareia da perua dominante que ficou moribundo, caído do chão a espernear, de crista ensanguentada. Foi assim que recolheu à sua cela de novo, para morrer com alguma dignidade. Porém, contra todas as expectativas, recuperou. Ao segundo dia já se conseguia levantar. Mas ao terceiro, como não aparecesse para comer, entrei devagar, julgando-o morto ao fundo do compartimento, quando ele afinal estava à espera para me atacar de surpresa, o que fez em voo, mais ou menos como acontece muitas vezes na última cena de um thriller, por exemplo no filme Atracção Fatal. Quando penso nisso ainda me tremem as pernas. 

a superioridade social

Deste modo, a superioridade social das fêmeas nos piscos ou canários é apenas aparente, provocada por inibições «cavalheirescas» que impedem os machos de dar sovas em suas mulheres. Comparando os costumes humanos às ritualizações animais, pode verificar-se um comportamento de forma muito análoga no homem das civilizações ocidentais. Mesmo nos Estados Unidos, feudo incontestável das mulheres, um homem realmente submisso não é apreciado. O que se exige do homem ideal é que, a despeito da sua enorme superioridade, tanto no plano físico como no intelectual, se submeta segundo leis ritualmente reguladas ao menor capricho da sua senhora. É característico que exista para designar o homem verdadeiramente submisso, e portanto desprezível, uma expressão tirada do comportamento animal; chama-se-lhe hen-pecked, ou seja, «bicado pela galinha». Este termo ilustra perfeitamente o que há de anormal na submissão masculina, porque um verdadeiro galo nunca se deixa bicar por uma galinha, nem que seja a sua favorita. Os galos não têm de resto qualquer inibição que os impeça de bater em suas esposas.

Konrad Lorenz/ A Agressão

22.7.16

a bela e o monstro


notícias da quinta (13)

Continua o vento. Durante o dia é seco e quente, por isso hoje começei a rega mais cedo. A noite refrescou, mas amanhã estará tudo igualmente ressequido. O jardim continua lindo, cheio de flores impossíveis. A casa aconchega-o, tal como faz connosco. Com estas temperaturas seriam suficientes dois dias sem regar para grande parte das plantas morrer. Há uma jarra na sala com um mix, como lhe chamo - rosas, gladíolos, zínias - juntei-lhe hoje um gladíolo roxo que encontrei quebrado pelo vento. 

Quando a I. saiu avisou-me que havia uma ovelha à solta. Telefonou ao marido para que viesse apanhá-la. O certo é que, em vez de a apanharem, deixaram que fugisse para a estrada. Fico sempre em pânico com essa hipótese, quanto mais com a certeza. Por isso apressei-me a ir ajudar. A ovelha fora reconduzida para dentro da propriedade e a I. seguira para a vila, mas a ovelha fugira novamente para longe. Sob os meus pés apressados esvoaçava a espantosa cabeleira lisa da terra, escovada pelo vento, dourada pelo sol. Mesmo encandeada, penso que a minha presença foi decisiva. Talvez se recordasse também da minha voz. Tranquilamente foi reconduzida ao ovil. 

Vi ontem um insecto que parecia um beija-flor. 

Estavam mais dez grilos mortos no skimmer.

Esta época morreram duas pavoas, atacadas no choco, e há três pavões novos.

Prossigo o estudo do comportamento dos gansos que vieram há um mês, lendo Konrad Lorenz. Vou tentar ilustrá-lo com fotografias.   

19.7.16

tensão superficial

far night



técnicas de fuga

Querer salvar um pássaro desorientado entre os vidros do alpendre pode não ser fácil. O pássaro entende que nós o queremos caçar (e bem), e foge o mais alto que pode a esvoaçar colado aos vidros junto ao tecto. Este parecia um pardal, mas ao aproximar-me dele percebi que era um rouxinol-dos-caniçais ainda jovem - pequeno, fusiforme, com a cauda mais longa, o bico mais comprido e estreito, as patas finas e altas. Para o salvamento foram necessários dois escadotes e quatro mãos. Não resultou tentar apanhá-lo pelas penas porque elas se soltam automaticamente, libertando o pássaro. Com cuidado conseguiu-se segurá-lo envolvendo-lhe todo o corpo com a mão. O passarinho piou aflito, mas a mão dirigiu-se com ele em segurança para a porta do céu e foi só aí que se abriu. Ele voou, incrédulo. Para epílogo reparei que um dos gatos estivera a assistir a toda a cena, bocejando de tédio. A natureza é perfeita. Dá sempre mais do que uma oportunidade.

18.7.16

frau robert bosch und fräulein max braun

O ruído, que era ensurdecedor, fez-me abandonar de mansinho a cozinha e encostar a porta. Qualquer motosserra seria abaixo de serrote confrontada com aquela barulheira rodopiando em esforço sobre natas, gelatina e doce de framboesa numa tigela fortificada, espaço em volta à prova de gafanhotos de chantilly. Passados que foram alguns minutos ouço uma voz irritada, pifou, a máquina pifou, não percebo porquê, sempre trabalhou tão bem, ainda da última vez, tinha trinta e cinco anos e pifou, assim, sem mais nem menos! Emprestas-me a tua? Sim, mas a minha é minha, tens que arranjar outra para essas coisas... uma máquina batedeira é, como se sabe, um objecto muito exclusivo, portanto... disse-lhe peremptória, entregando-lhe a minha (que é nova, brilhante, silenciosa, turbo). Podes deixá-la sobre a bancada que eu depois limpo-a e arrumo. Sabes que marca era?, perguntou-me no fim. Sim, respondi-lhe, ainda se conseguiam distinguir as duas primeiras letras... Pois, era uma BOSCH, tantos anos a bater gelados e vai logo pifar a meio! Como me parecesse bastante inconsolável ainda perguntei admirada, sublinhando, mas não tinha trinta e cinco anos?... Olha que isso, a partir de uma certa idade, nunca se sabe quando vai acontecer. Soube agora do caso de uma prima por afinidade que morreu no dia dos anos do marido. Ao chegarem a casa, de repente, do nada, disse que não se estava a sentir bem e morreu ali mesmo, dentro do carro, com o bolo de aniversário no colo. Ai foi? Que idade tinha? Foi quando? Foi esta semana, soube à tarde, teria os seus oitenta anos. Se relativizarmos, a tua máquina era bem mais velha, e nem sequer estava a misturar a massa para o bolo do meu aniversário. Isso sim, teria sido um grande azar! O melhor é arranjares uma parecida, rematei ao abandonar a cozinha. Acho que ainda lhe ouvi a sair de entredentes a palavra ciosa, mas não liguei. Uma mulher também tem direito a ter os seus objectos pessoais.  

16.7.16

je suis chá(rlie) # repost 7

há quem beba chá e nunca venha a herdar o bule
há quem não beba chá e tenha herdado o bule
há quem deteste chá e parta o bule
há quem goste de chá e preserve o bule
há quem não goste de chá e venere o bule
há quem nunca tenha provado chá
há quem não saiba o que é um bule
há quem faça chá em bules muito antigos
há quem venda o bule
há quem negoceie em bules
há quem coleccione bules
há quem venda chás
há quem coleccione chás
há quem não compre chá mas adquira o bule
há quem furte o bule
há quem roube o chá
há quem ofereça um chazinho
há quem receba uma chazada
há quem diga bule comigo
há quem diga bule sem mim
há quem tenha raiva de quem bebe chá
há quem tenha raiva de casas de chá
há quem tenha raiva a casas com bules
há quem beba chá devagar
há quem emborque chá
há quem nem um chá tenha para beber
há quem finja que bebe chá
há quem lave o bule sem ter bebido o chá
há quem deteste lavar bules
há quem deixe o chá a apodrecer
há quem se esqueça de o beber
 quem morra por um chá
há quem mate por um bule.

Publicado em 21/1/2015

o camião da História

*Os povos felizes não têm história*. De onde se infere que a supressão da história tornaria os povos mais felizes. O menor olhar sobre os acontecimentos deste mundo reencontra essa mesma conclusão. O esquecimento é o benefício que a história quer corromper. Nada, na história, serve para ensinar aos homens a possibilidade de viverem em paz. É o ensino oposto que dela se destaca - e se faz acreditar.

Paul Valéry 


Sendo o nosso mal o mal da história, do eclipse da história, é forçoso que ultrapassemos a frase de Valéry, que aumentemos o seu alcance: sabemos agora que a civilização é mortal, que galopamos em direcção a horizontes de apoplexia, em direcção aos milagres do pior, em direcção à idade de ouro do terror.

Cioran

15.7.16

Ecce Homo

Imaginemos um observador imparcial de outro planeta, por exemplo Marte, examinando o comportamento social do homem com a ajuda de um telescópio cujo aumento não fosse suficiente para permitir reconhecer os indivíduos e seguir o comportamento de cada um deles, mas chegasse para observar grandes acontecimentos, como batalhas, migrações de povos, etc. Nunca esse observador teria a ideia de que o comportamento humano pudesse ser dirigido pela razão, e ainda menos por uma moral responsável. Se ele fosse, como queremos supô-lo, um ser de pura razão, desprovido de instintos, e ignorando completamente de que modo os instintos em geral, e sobretudo a agressão, podem falhar, seria absolutamente incapaz de encontrar uma explicação para a História. Na verdade, os fenómenos da História, tal como se repetem sempre, não têm causas racionais. Dizer, como geralmente se faz, que são causados pela «natureza humana» equivale a um lugar comum. São a ausência de razão e a natureza humana não-racional que fazem com que duas nações entrem em competição, embora nenhuma necessidade económica a isso as obrigue; são elas que levam dois partidos políticos ou duas religiões de programas espantosamente semelhantes a combaterem-se encarniçadamente, e um Alexandre ou um Napoleão a sacrificarem milhões de vidas humanas ao tentarem unir o mundo sob o seu ceptro. Ensinaram-nos a respeitar certas personagens que agiram de modo tão absurdo, e até a considerá-las «grandes» homens.

Konrad Lorenz/ A Agressão 
               Uma História Natural do Mal
               capítulo Ecce Homo
                

fora do mundo























zapping

faço zapping para fugir do real

13.7.16

alta atenção


Como desenhar um Arco



Tudo o que li sobre ela foi maravilhoso, disse-lhe ao telefone. Alguém que parte mas sabe que vai ficar - que precisa de ficar - e chama a família a si para explicar que vai ser tudo fácil, que sente uma paz a chegar, que é só o futuro a chegar, diz baixinho ao neto, vamos construir juntos o futuro, ajuda-me, pede, mas é ela que ajuda, que ajuda sempre, vamos desenhar um caminho no chão e no ar, propõe, e trabalha com ele, e mobiliza todos, quer todos por perto, é altura de reconciliações, precisa de todos, mesmo dos amigos afastados. Desenha sem parar, e lê. Continua a ler, muito, livros grandes que corta ao meio, para ser mais fácil. Agora sei como é que há pessoas que nos ficam, digo-lhe, que continuam a crescer dentro de nós. Como árvores.  

12.7.16

wonderland

You often imagine poetry, and perhaps all art, to be a series of things (words, marks, noises, customs) some people don't completely get. But then how are you to explain that most call it wonderful, and that they use words such as *foreign* as compliments? Why would anyone call their lack of understanding wonderful? If you don't get a joke, you don't call it wonderful.

Miguel Tamen/ What Art is Like

pintado de fresco

da linha precisa do pincel
foge pela janela
o exacto de branco

9.7.16

o cubo de rubik # repost 6


Comparo a minha relação com a blogosfera com um cubo de Rubik que nunca mais consigo resolver. Ora vejamos: porque é que algumas pessoas se escondem atrás de múltiplas faces e heterónimos (alguns tão cómicos que nenhum de nós quereria usar se lhe fosse imposto), e outras mantêm vários blogues como certas dietas, uma linha premium e mais uma ou duas, de mais baixa qualidade? Porque se fazem seguidores do que não gostam e comentam com deselegância propositada, arranjam intrigas, abrem blogues e fecham blogues para abrirem blogues como se não fossem eles? Porque é que se formam grupos herméticos, embora disfarçados, em que se percebe que há hierarquias? E que pensar dos condomínios fechados, com publicidade abjecta? Fazer um blogue é catártico, ou pode tornar-se exactamente no contrário? E o que fazem os anónimos num mundo de gente que usa várias máscaras, inclusive a de anónimo, para além de desvalorizar a palavra? Porque é que os blogues (supostamente) de mulheres têm muito mais seguidores e comentadores masculinos, e o inverso também é verdadeiro(com o supostamente); haverá género...virtual? Porque é que publicar um livro do blogue é o mais secreto desejo de muitos bloggers, quando a Internet permite a divulgação de um trabalho a nível global muito mais dinâmico e que pode morrer numa edição em livro? Dou a este cubo mais voltas do que ele merece, um quebra-cabeças com pelo menos uma face obscura, que, a ter alguma magia, é bem capaz de ser negra. É possível que a solução esteja na frase lá em cima: aquela sonata pode não ser uma performance de Glenn Gould, mas devo dizer que é tão boa como gold; a homofonia é que interessa, Ah, Ah, Ah!

Assinado: Homer(ic) Simpson, (e se alguém disser que sou eu, nego, N.E.G.O.).

Publicado em 16/3/2015 

7.7.16

má educação

O Amor deveria ser de ensino obrigatório. Quase ninguém sabe nada (ou sabemos todos muito pouco), sobre esse misterioso dom da humanidade. Por isso deveria haver uma escolaridade mínima para o amor, que passaria a ter uma disciplina. Deveríamos todos saber sobre a química do amor, sobre a sua classificação, sobre a sua análise. Vamos impreparados para o amor, cegos, ignorantes. Achamos que o amor se sente, que se dá e se recebe, e que é tudo. Mas não é. E é totalmente diferente perceber o que está a acontecer, em que fase estamos, o que ainda esperamos, sequer se amamos, ou somos amados. Se não fôssemos ignorantes sofreríamos menos e faríamos sofrer menos, dialogaríamos mais, especularíamos menos, manter-nos-íamos actualizados, frequentaríamos cursos, levaríamos o amor a sério. Talvez tudo passasse a ser diferente.       

pavão à chuva


6.7.16

pela selecção:


circum-navegação

Fracassadas que foram as minhas expectativas relativamente à esfera virtual estou em crer que tudo não passa afinal de um pequeno mapa-mundi, de uma decalcomania do real em miniatura. E nem sequer é preciso um grande esférico como amostragem: bastam uns quantos berlindes, uns abafadores, e um círculo.  

3.7.16

pela selecção:




brilho póstumo


Siempre es conmovedor el ocaso
por indigente o charro que sea,
pero más conmovedor todavía
es aquel brillo desesperado y final
que herrumbra la llanura
cuando el sol último se ha hundido.
Nos duele sostener esa luz tirante y distinta.
esa alucinación que impone al espacio
el unánime miedo de la sombra
y que cesa de golpe
cuando notamos su falsía,
como cesan los sueños
cuando sabemos que soñamos.

Jorge Luis Borges/ Afterglow

2.7.16

A Palmeira de Oamock # repost 5



Era sempre de noite quando o meu pai me ia buscar. Eu já tinha arrumado tudo e ficava a brincar com o cachorro. Às vezes era tão tarde que receava que ele se tivesse esquecido. Então sentava-me quieta, à entrada, com a pasta aos pés, muito séria, à espera. Ainda o jipe vinha longe, e já eu me pusera de pé num salto, radiante, a dizer que o meu pai estava a chegar. A minha explicadora, que era também a minha professora, espantava-se por não ter ouvido nada, contudo ele não demorava muito a aparecer. Era tudo tão escuro, só as luzes do jipe se viam ao longe, a balouçar na estrada de terra batida, mas eu pressentia o ruído solitário do motor, que ia aumentando até que parava subitamente junto à casa e os faróis se apagavam. O toque da campainha era urgente e o meu pai aparecia à porta com ar cansado; o corpo moído pelo peso do material às costas nas caminhadas sobre pistas por entre o capim e pelos solavancos do carro o dia inteiro nas picadas mato fora, parando nos pontos escolhidos para marcar as cotas do terreno, por sítios inacessíveis sob o sol abrasador. Perguntava se eu me tinha portado bem, e sim eu portara-me bem, ainda enfraquecida, convalescente de um acesso agudo de paludismo que me fizera faltar um mês inteiro às aulas. Dava-me a mão e ajudava-me a subir para o jipe, com a traseira cheia de material de topografia e os vidros repletos de pó, onde dois óculos eram desenhados a limpo para podermos ver o caminho. Passávamos pela palmeira enorme que emprestava o nome à localidade, e enfiávamos por uma estrada secundária. - Pai, esta é a maior palmeira do mundo? - perguntei-lhe uma vez, e ele respondeu-me que talvez houvesse ainda maiores, mas que aquela era uma Palmeira-africana com mais do que vinte e cinco metros, era mesmo muito alta, e por isso já era também muito velha. Nessa noite mergulhada na escuridão, quando seguíamos tranquilamente para casa com o meu pai a contar-me histórias e a voltar o rosto sorridente para mim, lembro-me de olhar para ele com medo, mas tanto medo, que, um dia, ele morresse.

Publicado em 19/3/2015