Atalhos de Campo


3.6.16

uma pequena flor azul

Florinha não gostava de dar explicações a ninguém. Sei que também não queria que eu as desse. Talvez por querer proteger a sua vida privada, por ser tímida, ou por ser azul e vulnerável, escondera-se entre o Hordeum murinum, aproveitando a protecção das agulhas finas da chamada Cevada-das-lebres. Quando discutiam (quase sempre porque a cevada era demasiado invasiva, mesmo sufocante) Florinha gemia em azul claro, seu gato por lebre, sua cevada falsa, uma espigada, é o que tu és, para logo ouvir, como resposta pronta, sua chicória duma figa, com que então sangue azul e aqui, à beira do caminho, a sobreviver à minha sombra, sua baldia, sua azeda, sua empertigada, e então eu via que ela murchava, baixava a cabeça, vexada, sim porque um insulto de um hordeum é como uma agulha, pica, infiltra-se e magoa. Mas Florinha era muito antiga nas bordaduras e muito ciosa do lugar há muitos anos ocupado com destaque pela angelical família dos Chichorium intybus, por isso se esmerava e mantinha as pétalas sempre impecáveis e a postura digna, nunca deixando amachucar a sua enorme singeleza. Eu acreditava que ela sabia dos riscos que corria com aquele azul sempre a tentar exibir-se, não era raro que sofresse a visita inoportuna e sempre pronta da tesoura de pontas curvas da bicha-cadela, ou de alguma lagarta que por ali nascesse de borboleta distraída pelos seus encantos, esquecida da tenrura das jovens couves da courela. Tinham-lhe chegado aos ouvidos algumas histórias de situações que por pouco não dizimaram a numerosa família, histórias que ela recordava e que me contava, corando como uma papoila por ter que assumir por várias vezes o quase extermínio do longo reinado dos intybus, considerada uma de entre as mais belas ervas daninhas do reino vegetal. Esmagadas aos pés dos soldados na Primeira Guerra Mundial, em sucessivas Primaveras por essa Europa fora, queimadas em vastos incêndios criminosos, espezinhadas por animais em fuga, e, para cúmulo, servindo-lhes de repasto, ou ceifadas com violência, derramando a seiva às mãos de um qualquer cortador. 

Florinha já morreu. Contaram-me que um dia destes surgiu no caminho um homem todo equipado, munido de um pulverizador. A princípio Florinha sentiu uma chuva a cair-lhe pesada sobre as folhas e até agradeceu, porque começava já a sofrer de muita sede. Depois deixou de poder respirar ou de fazer a fotossíntese. Apercebeu-se de um ardor intenso como uma forte queimadura, que subia pelo caule como fogo e lhe abrasava as folhas que enrolavam como mãos fechadas para sempre, mas ainda conseguiu, com enorme esforço, ao arregalar muito as pétalas azuis pela última vez, ver do alto do seu espanto que tinha secado, antes de voltar a cabeça sem vida para o chão ainda húmido. A quezilenta murinum jazia também ao seu lado, tombada sobre o solo, bem como todas as ervas que, sem excepção, haviam morrido num espectáculo desolador, à beira do caminho.

Confesso que nunca mais me dirigi para aqueles lados. A ausência da pequena flor azul faz-me uma tremenda falta. Por isso me tenho concentrado a tratar das roseiras.

Para Miss Smile

7 comentários:

  1. às vezes, tantas vezes, ainda sou, também eu, um pequena flor azul.
    fazem-me falta as irmãs.

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  2. Querida Teresa, volto mais tarde. Estou de saída para um "arraial" :)

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  3. É esse o triste destino de muitas pequenas flores azuis e de outras cores, definham e acabam por morrer ás mãos de quem as não quer. Porém, logo outras nascem e mais outras e outras. Beijinhos Teresa. Bom fim de semana

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    1. As herbáceas reconhecem ser esse o seu destino, mas talvez não estejam preparadas(ainda) para o aparecimento terminator turbo. :)

      Bom fim-de-semana, GM, com capacete e pedais.

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  4. Já voltei do saloon. Peço desculpa pelo atraso. Espero que não tenhas marcado falta :)
    A história da florzinha azul está contada de uma forma muito bonita, mas tem um fim triste. Não compreendo a razão por que uma pequena flor tão encantadora, a espreitar entre espigas e a espreguiçar-se em direção ao sol, não pode crescer à vontade. Pensei que fosse uma planta medicinal,sujeita a um destino mais honroso do que o de uma erva daninha.

    Um beijinho, querida Teresa, e obrigada pela lição :)

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    1. Ser ou não ser depende do contexto, minha querida Smile. Aqui não se valoriza a morte honrosa, a bem da saúde humana. É o triste destino das flores, uma pobre rosa também é ceifada para atingir o podium, mesmo assim a diferença é considerável.
      Eu chamava-lhe Florinha e não Florzinha, por ser mais terno, e... ah! esquece lá isso da lição. :)

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