Atalhos de Campo


23.6.16

sabra

Já era tarde. Fazia demasiado frio e breu para ir verificar a causa do baque que se ouvira como um gemido seco a tombar na terra. Caíra como um muro cansado. Desfizera-se em estilhaços pelo chão ao longo do caminho da horta como se fosse feito de finos tijolos de vidro, que, ao partirem-se, tivessem enterrado as pontas aguçadas nas próprias almofadas esponjosas, auto-mutilando-se para preservar a velha dignidade, para sufocar o grito na noite cava. A água congelada no interior dos cladódios matara uma grande parte dos caules do topo, que desabaram, mas a outra parte mantivera-se intacta; protegida da geada pela copa dos pinheiros continuou de pé. A meio da manhã as plantas mortas não passavam de uma massa informe e desidratada pela descongelação, exibindo o aspecto desolador dos picos amolecidos em rostos mirrados como barba de dois dias. Mas na Primavera seguinte o muro de Opuntia ficus-indica estava restaurado e voltou a florir. No fim desse Verão comi pela primeira vez o figo que brota em volta das palmas disfarçado numa verruga rubra. Resgatei-o dos picos protectores e tive que me libertar da casca coreácea que o envolve para conseguir conquistar a polpa deliciosa daquele coração em fruto. Gosto deste cacto que é indisciplinado por natureza, que ama o cheiro da terra seca e do calor das cigarras, do sol e desses caminhos abandonados ao rés do Verão que me conduzem quase sempre à luz perene das Casas Brancas de Capri. Mas hoje é diferente. Criou-se um cacto domesticado, quase depilado, plantado em linha, baixo, obrigado a dar fruto para caixas de exportação. E um dia ninguém reconhecerá nele o cacto bravio que se acendeu em 1882 nos olhos de Henrique Pousão. Como aquela flor incendiada pelo foco de sol preso ao tecto dos pinheiros, que por breves momentos escureceu tudo em volta. Uma simples flor, que só queria mostrar que era de cacto.    

4 comentários:

  1. Essa flor só queria mostrar que era cacto mas quantas vezes alguns cactos lutam uma vida para mostrar que são flores. Bonito texto :=) Beijinho

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    1. Poucas pessoas vêem isso, GM - que é preciso dar uma oportunidade aos cactos para lhes descobrir as flores - Obrigada por este teu comentário tão certeiro :)
      A flor de cacto agradece. Beijinho

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  2. é aquele que aparece nas casas brancas do pousão?

    (como me aquece o sangue enquanto te escuto...)

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    1. É Manel, igual ao do caminho para As Casas de Capri (aqui tem dois metros e meio de altura). Pousão pintou-o talvez dois anos antes de morrer tuberculoso, aos vinte e cinco. Adoro os seus quadros, alguns eram pinturas sobre madeira de pequenas dimensões, todas maravilhosas.

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