Atalhos de Campo


21.6.16

quase tudo em quase nada

Lorraine Schwartz não teria desperdiçado a oportunidade. À entrada da horta o sol veio abrir-se numa flor de maracujá, e depois reparei numa segunda, nas plantas que estão ainda em vaso encostadas à rede, à espera de oportunidade para passarem para a terra - dariam uma jóia fabulosa, colocada a prender o cabelo, a evidenciar o decote ou a cinzelar o braço de uma mulher - pensei maravilhada. Eu usá-la-ia das três maneiras. Detive-me no detalhe do centro, protuberante e fresco como um gelado de chá verde. Era estranha a forma como exibia os estigmas, rodeados logo abaixo pelos estames de filetes pontilhados a ónix, como se feminino e masculino afinal resultassem de uma peça única esculpida naquele turbilhão de gónadas, exultante na lisura da manhã. Espectacular no seu roxo e branco, exótica no remate que eu já só imaginava em platina, uma coroa filiforme translúcida e vibrante irradiava do conjunto, ondulando as pontas finas aos dedos talentosos da brisa leve; as pétalas brancas finamente esmaltadas, secundárias a tanta beleza, esperavam modestas, na retaguarda.    

6 comentários:

  1. quando as palavras nos entram pelos olhos a dentro...
    :)

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    1. (...)
      "Mundo silencioso que não atinge
      A agitação das ondas.
      Abrem-se rindo conchas redondas,
      Baloiça o cavalo-marinho.
      Um polvo avança
      No desalinho
      Dos seus mil braços,
      Uma flor dança,
      Sem ruído vibram espaços."
      (...)

      Sophia/ Fundo do mar

      :)

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  2. Um prazer de ler. A flor é de facto linda de morrer. :)

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  3. Respostas
    1. acredito, Laura, é a grande vantagem de ser natural :)

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