Atalhos de Campo


16.6.16

Ostra

Chegados à fazenda, era impossível não reparar no lixo que se acumulava pela extensa área até às cavalariças, que pouco mais eram que casebres. Foi ainda ao portão que me apeteceu desistir pela primeira vez de montar a cavalo naquela manhã nublada, na ilha de Santa Catarina. Ao avançarmos devagar no trilho, para não levantar poeira, ladeados por sacos de plástico presos aqui e ali nalguma erva mais alta, começámos a aproximar-nos do grupo de animais já aparelhados e presos, à nossa espera. Eu tinha algumas noções de equitação (mas era a que sabia menos do grupo) e fora-me destinada uma égua esquelética, mas muito mansa, nas palavras da proprietária. Comecei a fazer-lhe festas e reparei que tinha várias carraças, enquanto ela aguardava, indiferente e apática, abanando a cauda e a cabeça de vez em quando, para afastar as moscas. Está muito magra, comentei apreensiva, mas ela está bem, ela está um pouco magra mas é igual aos outros, é mansa, pode montá-la, não tem problema, respondeu-me na pronúncia típica do Nordeste, enrolando os erres. Não tem outra, uma também mansa, é que eu não gostava de montar esta, parece-me tão fraca... disse eu, quase a desistir pela segunda vez. Deram-me então a outra égua do grupo, e mandaram aparelhar um terceiro cavalo, de raça Crioula, um cavalo nervoso que eu nunca conseguiria dominar. Foi assim que conheci a Osta, esta sim, está em boa condição física e é tão bonita, disse, fazendo-lhe uma festa na fronte, é Mangalarga Marchador pura, tem um filho que ganhou prémio e tudo... Eu nunca tinha ouvido falar daquela raça brasileira de cavalos, mas gostei logo da Ostra e comecei a dizer-lhe baixinho ao ouvido que íamos as duas passear, que ia ser muito bom. E a Ostra escutava-me de orelha fita, enquanto recebia mais festas no pescoço e eu reparava nas cicatrizes em vários pontos do corpo, foi um relâmpago que caiu sobre os cavalos, ela ficou queimada e recuperou, mas o outro que estava perto morreu, e eu ainda mais me afeiçoei à Ostra, uma égua com uma bela cabeça, os cavalos são como as mulheres, começou a dizer o tratador, primeiro é preciso que tenham um rosto bonito, depois que tenham também bom feitio, e rimo-nos todos, nós agora mais descontraídos ao iniciarmos o passeio acompanhados pelos dois guias, ainda adolescentes, cada um montado no seu irrequieto cavalo, um Árabe e um Crioulo, cavalos jovens que não eram da fazenda, mas que estavam ali alojados e que eles aproveitaram para levar a fazer exercício.  

A Ostra claro que tinha manhas, muito mais do que eu, cavaleira inexperiente e que só queria que ela me obedecesse com o mínimo de sinais possível. Atravessámos a fazenda e continuámos até à estrada por caminhos entre várias quintas, todas elas com cavalos no meio de pastagens verdejantes. Ostra ia comigo a passo, na cauda do grupo, com o segundo guia por escolta, e fazia de conta que eu não estava ali, seguindo junto à copa das árvores e das cercas. Comecei a perceber que era eu que tinha que comandar isso, e não esperar que ela amavelmente contasse comigo. A certa altura virámos e seguimos por uma vereda em direcção a uma maravilhosa floresta de pinheiros seculares - que como longas colunas estreitas e altíssimas se dispunham milimetricamente na paisagem - atravessando uma ribeira. Fui-me pacificando ao inspirar profundamente a beleza da floresta, com as vozes do grupo misturadas no som dos cascos a penetrarem compassadamente a água, do alto do assento confortável que era o cavalo, em consonância perfeita (e única possível), com aquele horizonte. E todo o tempo falei com a Ostra que se foi habituando ao som da minha voz. As crinas claras na pelagem tordilho começaram a certa altura a confundir-se com as dunas de areia branca e macia, habitadas por vegetação rasteira, que tivemos que atravessar para conseguirmos chegar ao mar. Ostra desobedeceu-me e pôs-se a galope para se ver livre depressa das dunas, ou, quem sabe, ansiosa por me mostrar o oceano, e durante algum tempo galopei com ela, pela primeira vez na minha vida. Um areal imenso e estreito apareceu diante dos nossos olhos. Como a Ostra, as ondas cavalgavam sobre a areia, deixando as crinas ao vento. Tínhamos chegado à praia de Moçambique, ali banhada pelo Atlântico, na costa do Brasil. Era dia dez de Novembro de dois mil e quinze.  

6 comentários:

  1. Que bonito passeio Teresa. A Ostra sabia bem onde levar e o que mostrar á sua cavaleira :)

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    1. E que animal eu conheci naquele dia, no meio do deserto :)

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  2. se nã fosse polvo, era certamente um cavalo :)

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  3. Ufa, quando ela começou a galopar, tive medo que caísses, Teresa. :-)
    Que momento belo.

    Um beijinho e bom domingo.

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    1. Desobedecer-me foi a melhor coisa que ela fez, e foi tão bom! A Ostra deu-me uma pérola naquela manhã.

      Um beijinho, Susana. Boa semana para ti.

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