Atalhos de Campo


4.6.16

O touro vencido

Há um momento nas touradas em que o touro, muito ferido já pelas bandarilhas, o sangue a escorrer, cansado pelos cavalos e as capas, titubeia e parece desistir. Afasta-se para as tábuas. Cheira o céu. Vêm os homens e incitam-no. A multidão agita-se e delira com o sangue. O touro sabe que vai morrer. Só os imbecis podem pensar que os animais não sabem. Os empregados dos matadouros, profissionais da sensibilidade embaciada, conhecem o momento em que os animais «cheiram» a morte iminente. Por desespero, coragem ou raiva(não é o mesmo?), o touro arremete pela última vez. Em Espanha morre. Aqui, neste país de maricas, é levado lá para fora para, como é que se diz? Ah, sim: ser abatido. A multidão retira-se humanamente, portuguesmente, de barriga cheia de cultura portuguesa, na tradição milenar à qual nenhuma piedade chegou.

Paulo Varela Gomes/ Morrer com o Touro 
Ouro e Cinza

10 comentários:

  1. espero que me permita o abuso, mas aproveito o seu post para mandar um grande abraço ao PCP, essa força partidária libertária (onde se inserem/ou não os Verdes (?!?) e que votou contra uma medida tão básica como esta:

    https://www.publico.pt/politica/noticia/parlamento-deixa-que-menores-continuem-a-participar-nas-touradas-1733925

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    1. estranhos tempos estes, em que a assembleia parece uma praça de touros

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  2. estranho, sim. sinto-me tão impotente, hoje. ou deverei dizer, cada vez mais.
    já nem sei se queria saber das coisas...

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    1. flor, eu optei, como aqui me acusam, por viver num covil. Já não quero ter mais decepções. Vivo a minha vida à minha maneira, varro o meu chão, como certos monges. Há coisas que me parecem aberrantes, essa é uma delas, é a política pela vitória política, acima do cidadão. Já não quero saber, é uma tristeza.

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  3. faço isso com tanta coisa (ultimamente), que receio que me anule socialmente por completo.

    entendo-a. a bem de alguma sanidade mental, ou emigro ou hiberno. por enquanto, forço a quietude.

    boa noite. (gosto de si)

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  4. é muito triste...
    lembro-me de uma vez ter passado de comboio junto à lezíria e vi o que pensei ser uma visão... um touro, enorme, negro, desfocado pelo calor, que corria a grande velocidade. os meus olhos seguiram-no até à impossibilidade, maravilhado, acho que nunca tinha visto um touro a correr, livre, pelo campo...

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    1. Que bonito, Manel, faltava aqui isso mesmo, esse lado da beleza do touro em liberdade, a única que vale a pena.
      Obrigada

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  5. gosto dos três aí em cima, e de alguns/umas outros/as que aqui vêm.
    nem aqui, no mundo virtual, acontecem 'coisas' por acaso. seriam muitos acasos tanta empatia :)
    obrigada Teresa, tinha saudades de te ler. os dias têm sido curtos.

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    1. Já somos quatro, ana. É tão verdade o que dizes, o tempo reúne essa espuma da empatia como a espuma do mar... e neste caso o elemento aglutinador são as palavras sempre sábias do Paulo Varela Gomes.
      Obrigada eu, muito, por te ter aqui connosco.

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