Atalhos de Campo


4.6.16

O touro enraivecido * # repost 1


Lembrei-me de ti, foi ontem por causa do Picasso, da Guernica, não sei bem precisar, talvez por causa daquela toureira do Almódovar com quem ninguém sabia falar, ou do touro que não queria lutar, que só queria que lhe contemplassem a beleza de pedras do rio, e de flores que pediam paz. Lembrei-me que um dia também eu te vi a lutar com um homem, que fui lá ver-te para ter a certeza de que nunca mais lá iria, com tanto sol e tanta sombra, mas para mim foi demasiada sombra, uma sombra que foi crescendo até me engolir, até me deixar de rastos. A praça era linda, Olivença, aqueles arcos, a arena, só a praça ter-me-ia chegado, vê-la vazia e em silêncio teria sido perfeito. Eu sabia que não ia assistir a uma dança com toiros, que o Pedrito de Portugal não era só um bailarino que ia dançar contigo, nem mesmo quando começou, com quinze anos. Mas tu és a força bruta, e quando a lide  que é faena começa, há uma técnica para te quadrar e é preciso que isso aconteça depressaao ritmo da festa, das palmas, do objectivo, engalanar-te com ferros, sangue e arte. Tu não percebes nada, investes para matar, que é assim que te exigem, é um jogo de matar ou morrer, um jogo perigoso, inventado pelo homem. Por isso morreste seis vezes, de vinte em vinte minutos, porque donde vens o jogo não é assim, pode ser de morte, mas com um sentido para a vida.

Publicado em 28/8/2014   

4 comentários:

  1. fico feliz pela ideia de "repostar" (ripostar é que não :) e este texto é de uma extrema beleza.

    a propósito do tema e vindo a calhar, recordo a conversa sobre touradas que tive com um colega, na semana passada. tínhamos passado e repassado pelos mesmos argumentos e contra-acusações, quando ele se deixa dizer: tu nunca entenderás. é a beleza... deixei-me rir, então eu não sabia quão belo pode ser o espectáculo da morte, como num teatro grego, a besta sendo vencida. como não? reconheço na tauromaquia uma arte bela, nunca lhe neguei a verdade. apenas, por tudo o que implica, nao a posso aceitar.

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    1. Cresci entre dois homens com atitudes opostas em relação aos toiros. O meu avô materno que era de tal maneira aficionado que ia todas as semanas ao Campo Pequeno, durante o período das touradas, mas curiosamente nunca nos levou com ele. O meu pai, que rejeitava as touradas, dizia que a pior coisa nem é o espectáculo em si, mas o que se passa a seguir, enquanto o animal não é abatido, porque tinha presenciado isso uma vez. E podiam passar vários dias. A dor, as infecções, as pústulas, a febre, o abandono. Hoje não sei como é, mas deveria estar um veterinário à saída das praças portuguesas para abater os animais acabados de lidar.

      Quanto ao espectáculo em si, as imagens do vídeo são de facto de muita beleza, há posições impossíveis dos bandarilheiros e dos toureiros, de uma elegância e de uma coragem extrema. E tudo o que envolve o espectáculo, o contrate das cores, da luz e da sombra, que tanto fascinou Picasso, as mulheres de chapéu, as luvas brancas, os aplausos, o suspense, a adrenalina. Mas os toiros estão feridos, exaustos, escorregam, babam-se. É uma luta apenas treinada pelo homem, para vencer rapidamente um animal bravio e surpreendido, espicaçado e maltratado à vista de todos. É desigual e desumano. Que cada um decida o que quer ver, eu prefiro vê-los no campo. Chegou-me uma vez ver matar seis toiros em duas horas.

      Obrigada, flor. Um abraço.

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  2. Respostas
    1. Muito obrigada, Francis. Bem-vindo aos Atalhos.
      Um bom fim-de-semana para si também.

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