Atalhos de Campo


18.6.16

o meu pai, o bife tártaro e o ovo cru

Contava que estava a morrer de fome naquele dia em que entrou de rompante pelo Galeto dentro, e se sentou ao balcão. Com a ementa à frente procurou a secção dos bifes. O que lhe estava mesmo a apetecer era um bife suculento com um ovo a cavalo, que viesse rápido, só de pensar nas batatas às rodelas finas acabadas de fritar lhe crescia água na boca, e depois um esparregado macio, um copo de vinho tinto frutado a acompanhar, ou mesmo água, mas a ideia do bife, enquanto escolhia entre as várias hipóteses, agradava-lhe sobremaneira. Estacou o olhar naquele bife, sugeria-lhe algum exotismo, um outro molho, alguma pimenta especial, também não precisava de escolher sempre a mesma coisa, hoje iria variar, e ao entregar a carta ao empregado pediu um bife tártaro com um por favor sorridente(o meu pai tinha um sorriso sedutor). Foi lavar as mãos e voltou ao seu lugar esfregando-as, ansioso por degustar uma boa carne que cedesse ao corte da faca, que se rendesse ao primeiro toque do garfo, que se entranhasse na boca com volúpia. Foi petiscando o couvert, deu um golo na água que lhe fora entretanto servida, e à medida que o tempo passava reparou que tinham chegado outras pessoas, algumas delas sentadas mesmo ao lado e já a comer, enquanto o seu prato parecia estar em sérias dificuldades numa cruzada pelo Médio Oriente, sem oásis à vista. A certa altura, impaciente, - o meu pai usaria definitivamente este adjectivo como primeira opção para o seu estado- perguntou se o bife estava esquecido. O empregado veio dizer que o cozinheiro pedia muita desculpa mas tinha tido um pequeno percalço com o ovo e que estava mesmo a terminar a confecção do bife. O meu pai continuou à espera a vingar-se no couvert, cobiçando tudo o que lhe passava pela frente a fumegar, e já comia qualquer coisa quando finalmente lhe puseram à frente um prato muito bem decorado, onde vinha um ovo cru, gelatinoso, viscoso, a equilibrar-se periclitante (qual Lucky Luke depois de uma visita prolongada ao saloon), num bife também cru - como o célebre vestido da Lady Gaga, mas sem ser em carpaccio. O meu pai olhou desolado para o prato, a seguir para o empregado e depois de novo para o prato, para dizer, por fim, com o seu característico humor: sabe, eu gosto muito de bife tártaro, mas diga por favor ao cozinheiro que gosto do bife tártaro bem passado.

10 comentários:

  1. também tenho saudades do (sentido de humor) meu pai. talvez embebida numa ideia ingénua de que ainda poderíamos construir uma relação de pai e filha.

    um sábado feliz, minha querida irmã emprestada.

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    1. eu nunca perderia essa ideia (é uma ideia boa), conselho de irmã - mais para o lado da mãe :)

      hoje não quero estar triste, minha flor azul, vou ter um sábado com ideias felizes, uma para si, e por si
      [além de tudo já deu pancada que chegasse na pobre vendredi, hoje é samedi, é outro dia :)]

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  2. nada de tristezas, então :) sorrio-lhe daqui. gosto tanto de si.

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    1. se eu agora tivesse a sua idade era capaz de ter dado pancada na semana inteira, mas este fim-de-semana era meu. :)

      tenha um dia feliz, querida flor, com a Taeko e a Yukiko, pelo campo ao sol

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  3. Que bela história. Estou aqui a sorrir... muito. :))))

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    1. Era tão divertido, o meu pai sabia tão bem dar aquela pincelada de "humor próprio" :) que faltava para a gargalhada...
      Obrigada, luisa.

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  4. Gosto de pessoas bem humoradas, é outra "coisa" a vida corre-me melhor
    , talvez porque eu própria o seja :)
    Beijinho

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    1. Saber fazer humor com o que nem sempre nos corre bem... uma delícia.
      É das boas recordações/lições que tenho do meu pai.
      Beijinho, nina.

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  5. Há lembranças doces que nos temperam os dias. Gostei muito de ler este teu texto, muito bem escrito e entremeado por um refinado sentido de humor. Tens a quem sair, querida Teresa :)
    Sem o humor, a vida fica mal passada, qual bife tártaro, ou será mais bife bárbaro? :)

    Um beijinho e um domingo feliz :)

    [não precisavas de ter ido tão longe, dando o exemplo do Lucky Luke à saída do saloon. Podias ter-te referido às nossas, sempre tão periclitantes, de mão dada com a flor e a mimi] :)

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    1. Há tantos bifes bárbaros, querida Smile, mas este sempre foi saboroso, sobretudo depois de voltar da cozinha.:)

      Sabes que ler-te me faz bem à escrita? Por vezes penso - isto está muito seco, parece mesmo um biscoito duro - a Smile fazia isto muito melhor, e deito-me ao trabalho de aprimorar a escrita. :) Quanto ao Lucky Luke, está ali porque o meu pai era fã (tal como eu), mas sem dúvida que ele gostaria de ter conhecido este trio flan, à saída do saloon. :)

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