Atalhos de Campo


6.6.16

aqui e agora

Quando entrei na penumbra do ovil ia só assistir a um parto. Eram três horas da tarde, a luz coada pelas colunas verticais da parede sul ficava-se por ali mesmo, deixando todo o espaço em semi-obscuridade. Ainda antes de habituar os olhos à nova luminosidade, distingui perfeitamente o pio dos pavões nascidos há uma semana. Eram cinco, mas ontem desapareceu um, supomos que terá escorregado e ficado entalado no espaço entre dois fardos. Quando começam a tentar voar isso acontece muitas vezes, os mais ousados são os primeiros a desaparecer. Tenho sempre pena destas baixas nos recém-nascidos, alimento a esperança de que ainda venha a aparecer, conseguindo escapar ileso de algum apuro. A ovelha estava deitada, mas quando me aproximei tentou fugir. Acabei por ficar a ajudar, sentada junto à cabeça, segurando-lhe uma pata da frente enquanto falava com ela, procurando tranquilizá-la. É espantosa a forma como os animais reagem à voz humana e à ternura. À medida que ia falando e fazendo festas, reparei que fechava os olhos e se descontraía durante as manipulações. O parto durou meia hora. A certa altura achei que ia ser impossível retirar o borrego com vida. Só um conjunto coordenado de forças o fizeram nascer, e quando dei por mim estava deitada de costas no chão do ovil, a puxar a ovelha com toda a energia e concentração de que era capaz, opondo o meu peso à força exercida do lado oposto, para traccionar o feto. Foram momentos bastante sofridos, mas finalmente conseguiu-se retirar uma fêmea enorme e ainda viva. À semelhança do que fazia com os cachorros, estimulei-lhe a respiração pressionando a gengiva sobre o freio labial. Lentamente começou a respirar de boca aberta e língua ainda roxa, deitada de lado a arfar, mas passados uns minutos deu o primeiro balido quando sacudiu desajeitadamente a cabeça a tentar equilibrá-la. Deixámo-la entregue aos cuidados da mãe, que a ficou a limpar do sangue e a massajar enquanto a secava, naquele ambiente de meia-luz e serenidade que têm todos os presépios.

6 comentários:

  1. a Teresa é tão bonita.


    «É espantosa a forma como os animais reagem à voz humana e à ternura.»
    sem dúvida :)

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    1. Minha querida flor, nem os animais escapam ao poder mágico das palavras.

      diz-me essas coisas sem som, e começo a acreditar que também eu sou bonita :)

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    1. Tal e qual, luisa. Se o parto fosse de noite, ou em campo aberto onde não se desse conta, poderiam ter morrido as duas.

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  3. Faço minhas as palavras da flor, que consegue sempre dizer muito com poucas palavras.

    Adorei completamente este post. Querida Teresa.

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    1. Foram momentos felizes, de entreajuda. Depois fica uma sensação boa, de andarmos cá a fazer alguma coisa.

      Obrigada, Querida Susana.

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