Atalhos de Campo


28.6.16

o segredo da flor de batateira

À medida que ia avançando na estrada solitária com o asfalto a ferver sob os pés, envolta por uma onda de calor e de desidratação, mais me lembrava daqueles anúncios inquietantes que apareciam nos jornais todas as semanas, desapareceu há dois dias de sua casa uma mulher... da última vez que foi vista vestia calças de ganga azuis escuras, t-shirt de cor preta, calçava havaianas tigresa, não levava carteira nem relógio, só uns brincos já antigos, com uma pedra rosa ao centro. Chegada à estrada nacional só passaram por mim dois carros, seguidos de um camião TIR e de uma motorizada (com uma criança do sexo feminino no assento traseiro). A motoreta, que virou à esquerda para a vila indicando-o com um gesto feito para ninguém pelo braço da menina vestida de rosa shocking, após breve paragem no cruzamento acelerou e evolou-se em ardência e ruído ao longo da recta ladeada de plátanos, à entrada da povoação. E fez-se de novo silêncio. Um chocalho que entretanto ouvi desviou-me a atenção para as ovelhas que se levantaram à minha passagem, mesmo ao lado do terreno que fica antes do cemitério. Verifiquei que o portão de ferro pintado de negro estava só encostado e vi o horário afixado nas grades. As paredes altas caiadas de branco imaculado protegiam os mortos da vila dos olhares dos intrusos como se fossem as muralhas obsoletas de um castelo medieval. A mulher foi vista na vila por um grupo de velhos amigos sentados num banco de jardim que deitava para a estrada. Um deles, de óculos e bengala, respondera-lhe onde ficava o multibanco, e reparara numa folha de papel dobrada que ela levava na mão direita. Causara-lhe estranheza, assim aparecida como uma forasteira à torreira do sol, a pé, sem sequer usar um chapéu na cabeça. Ela agradecera e seguira a indicação - fica ali, está a ver, ao pé daquele letreiro dos gelados. Ao passar por um grupo de homens velhos reparei que tinham todos o mesmo rosto, óculos e bengala, fitaram-me curiosos e concertados como se tivessem ensaiado, ou talvez estivessem apenas a trocar entre eles algum comentário brejeiro sobre mim. Pareciam estar por ali todos os dias à espera de perguntas, sentados à sombra na entrada da vila, numa espécie de rotunda. O casal que tinha chegado de mota ao posto de gasolina acabara de comentar que não se via vivalma quando ela passou por eles. A rapariga pedira uma água e começava a bebê-la devagar, quando a viu a passar a seu lado. Lembrava-se de lhe ter invejado os pés quase descalços, enfiados numas havaianas tigresa (recordava-se) que ela cobiçara de imediato. Reparei num casal que se sentara à única mesa no café do posto de gasolina. Ela tinha o cabelo castanho e liso atado num rabo-de-cavalo, vestia t-shirt branca e bebia uma água fresca. Invejei-lhe a água fresca e recriminei-me por não ter levantado dinheiro para tomar também uma, antes de prosseguir caminho. Ele era magro e alto. Quando o ultrapassei notei que usava umas belas botas castanhas muito bem engraxadas. Sempre dei muito mais atenção aos sapatos dos homens do que aos das mulheres e me agradou o facto de estarem cuidados e limpos. Não me lembro do rosto de nenhum dos dois, nem da marca da mota. Quando ela voltou a passar por aqui já não trazia o papel na mão, agradeceu de novo e desapareceu pelo mesmo caminho. Os velhos (de um rosto só) continuavam ali, virados para o mesmo lado, com o olhar fixo na entrada da vila. 

Dirigi-me a passo rápido ao que para mim era a saída, e entrei no cemitério. Senti de imediato um bafo abrasador. A ausência de sombras e as paredes altas em volta, o reflexo do sol nas lajes a fustigar-me os olhos e o silêncio, aquele silêncio ordenado, tornavam o recinto sufocante. Tive uma espécie de tontura e pensei vir-me embora, mas senti-me ali em paz, sem estar obrigada a visitar o túmulo de ninguém, sem ter que chorar por ninguém, sem me sentir obrigada a rezar ou a evocar alguém. Eram apenas mortos, os mortos dos outros, inofensivos, arrumados. Comecei a circular por entre as campas. Flores artificiais decoravam as muitas jarras como nas salas kitsch, sempre prontas para receber qualquer visita. As hierarquias sociais estavam bem evidentes, os mortos ilustres da terra enfileiravam-se majestosos, logo à entrada. Havia desde os prédios de vários andares com frontarias de mármore, da família tal, até ao número ferrugento na campa rasa, com a jarra de vidro tombada no chão após a última ida. Tudo ocupado, supus, seria preciso tirar uma senha e esperar por vez para arranjar lugar para estacionar ali

Estava a ter estes pensamentos algo mórbidos quando descobri o Joaquim. Fiquei durante longo tempo a olhar para o seu rosto magro de testa alta e olhos vivos de criança inteligente. Naquele dia é possível que lhe tenham dito, Joaquim, vai lavar as mãos e a cara, e penteia-te, para vires tirar uma fotografia com os teus primos. Despacha-te! E o Joaquim tinha saltado da árvore contrariado, tinha ido lavar a cara com um suspiro e aproveitado para passar água também pelos joelhos (sempre negros e esfolados), para não ouvir mais recriminações. A mãe, vendo-o aparecer a bambolear os ombros com um sorriso provocador, penteou-lhe para o lado o cabelo revolto com um gesto de ternura, enquanto ele se empertigou. O Joaquim tinha um ar atrevido, irrequieto, rebelde, mas havia morrido. Com oito anos. Apeteceu-me saber mais sobre ele. Talvez os velhos de um rosto só soubessem onde morava aquela criança. Bateria à porta da avó, que me diria que depois da morte do Joaquim todos tinham abalado para a cidade, e que ela tinha ficado ali para cuidar dele. Não fui. Mantive-me um bom tempo mais a ver cada detalhe, cada prova de amor, cada frase de saudade, cada fotografia, presa a uma enorme paz. Depois passei de novo pelas roseiras perfumadas da entrada, cujo perfume enjoativo quase me fez desmaiar desta vez, e encostei o portão com cuidado. 

Regressei pelo mesmo caminho. Ao virar para a estrada secundária, rodeada pelo campo, senti intensamente como a terra (a terra portuguesa), cheira tão bem. Quando passei pelo montado e as cigarras subiram o volume a pele ardia-me dentro e fora da roupa. Dei-me conta que rezava. Fui rezando em silêncio pelo Joaquim e pelos mortos do cemitério, meus desconhecidos, enquanto o som das chinelas trauteava na berma o compasso monótono da minha ladainha. Lembro-me que passei pelo mesmo gradeamento e que o Grand Danois malhado de preto me voltou a acompanhar em corrida a ladrar uma boa parte do caminho na canícula sufocante da tarde, ao mesmo tempo que eu desistia da oração, para o tranquilizar. Lembro-me de não ter tido medo dele, de gostar até da sua companhia. Recordo-me das flores de anis secas a ladear a estrada estreita, de pensar voltar para fotografá-las, das papoilas liofilizadas pelo calor que zunia, ao subir da terra. Ia jurar que abri o portão com a dificuldade do costume e que fui saudada pela frescura repentina dos choupos, cujas folhas pareciam aplaudir a minha entrada; que ao chegar a casa me sentei no alpendre, meti à boca e engoli, quase de um trago, uma garrafa inteira de água fresca. Mas não há testemunhas. Na vila consta que desde aquela tarde nunca mais ninguém me viu.   

:C


24.6.16

fragaria

digito-te que é como quem diz toco-te
levo os meus dedos às maçãs do teu rosto morangueiro
a luz da tua pele acusa o toque
onde acordam teus olhos negros como tinta
incrustados a escrever no corpo inteiro.
ao centro do sol posto na planície 
tuas pétalas como velas brancas ardem cal
e navegam sobre brilhos vários no azul violento
dessas casas onde se guarda o cereal.
escarlates teus botões soltam sedas leves 
são beijos que devolvem aves ao desejo aberto
fragrantes são as asas que voam em leitos breves
quando toca na curva do lábio um peito incerto.
é tua a essência trazida pelas ondas do vento  
ao sabor amarrado no cais da boca da partida
teus são os trilhos de espuma que sugam turbilhões a tempo
para a outra garganta que avança já desfalecida.
das fragas regressam ensanguentadas águas
entre as bocas de naufrágios fragmentadas
e dois morangos esperam ainda como espadas.

23.6.16

sabra

Já era tarde. Fazia demasiado frio e breu para ir verificar a causa do baque que se ouvira como um gemido seco a tombar na terra. Caíra como um muro cansado. Desfizera-se em estilhaços pelo chão ao longo do caminho da horta como se fosse feito de finos tijolos de vidro, que, ao partirem-se, tivessem enterrado as pontas aguçadas nas próprias almofadas esponjosas, auto-mutilando-se para preservar a velha dignidade, para sufocar o grito na noite cava. A água congelada no interior dos cladódios matara uma grande parte dos caules do topo, que desabaram, mas a outra parte mantivera-se intacta; protegida da geada pela copa dos pinheiros continuou de pé. A meio da manhã as plantas mortas não passavam de uma massa informe e desidratada pela descongelação, exibindo o aspecto desolador dos picos amolecidos em rostos mirrados como barba de dois dias. Mas na Primavera seguinte o muro de Opuntia ficus-indica estava restaurado e voltou a florir. No fim desse Verão comi pela primeira vez o figo que brota em volta das palmas disfarçado numa verruga rubra. Resgatei-o dos picos protectores e tive que me libertar da casca coreácea que o envolve para conseguir conquistar a polpa deliciosa daquele coração em fruto. Gosto deste cacto que é indisciplinado por natureza, que ama o cheiro da terra seca e do calor das cigarras, do sol e desses caminhos abandonados ao rés do Verão que me conduzem quase sempre à luz perene das Casas Brancas de Capri. Mas hoje é diferente. Criou-se um cacto domesticado, quase depilado, plantado em linha, baixo, obrigado a dar fruto para caixas de exportação. E um dia ninguém reconhecerá nele o cacto bravio que se acendeu em 1882 nos olhos de Henrique Pousão. Como aquela flor incendiada pelo foco de sol preso ao tecto dos pinheiros, que por breves momentos escureceu tudo em volta. Uma simples flor, que só queria mostrar que era de cacto.    

21.6.16

quase tudo em quase nada

Lorraine Schwartz não teria desperdiçado a oportunidade. À entrada da horta o sol veio abrir-se numa flor de maracujá, e depois reparei numa segunda, nas plantas que estão ainda em vaso encostadas à rede, à espera de oportunidade para passarem para a terra - dariam uma jóia fabulosa, colocada a prender o cabelo, a evidenciar o decote ou a cinzelar o braço de uma mulher - pensei maravilhada. Eu usá-la-ia das três maneiras. Detive-me no detalhe do centro, protuberante e fresco como um gelado de chá verde. Era estranha a forma como exibia os estigmas, rodeados logo abaixo pelos estames de filetes pontilhados a ónix, como se feminino e masculino afinal resultassem de uma peça única esculpida naquele turbilhão de gónadas, exultante na lisura da manhã. Espectacular no seu roxo e branco, exótica no remate que eu já só imaginava em platina, uma coroa filiforme translúcida e vibrante irradiava do conjunto, ondulando as pontas finas aos dedos talentosos da brisa leve; as pétalas brancas finamente esmaltadas, secundárias a tanta beleza, esperavam modestas, na retaguarda.    

20.6.16

o solstício da lua


haverá romãs no Natal


o sol e uma courgette


um lugar no silêncio

solstício para lua cheia

ele disse-me, em breve teremos o solstício de Verão, e com ele
o dia maior do ano, depois os dias começam a diminuir;
e foi nesse dia que para mim começou o Inverno.

junto à nora














































a flor do meu segredo*


two strawberries




















































o cacto aceso


a flor da paixão

















































18.6.16

e as flores, ainda



(18/6/2013 * 18/6/2016)

o meu pai, o bife tártaro e o ovo cru

Contava que estava a morrer de fome naquele dia em que entrou de rompante pelo Galeto dentro, e se sentou ao balcão. Com a ementa à frente procurou a secção dos bifes. O que lhe estava mesmo a apetecer era um bife suculento com um ovo a cavalo, que viesse rápido, só de pensar nas batatas às rodelas finas acabadas de fritar lhe crescia água na boca, e depois um esparregado macio, um copo de vinho tinto frutado a acompanhar, ou mesmo água, mas a ideia do bife, enquanto escolhia entre as várias hipóteses, agradava-lhe sobremaneira. Estacou o olhar naquele bife, sugeria-lhe algum exotismo, um outro molho, alguma pimenta especial, também não precisava de escolher sempre a mesma coisa, hoje iria variar, e ao entregar a carta ao empregado pediu um bife tártaro com um por favor sorridente(o meu pai tinha um sorriso sedutor). Foi lavar as mãos e voltou ao seu lugar esfregando-as, ansioso por degustar uma boa carne que cedesse ao corte da faca, que se rendesse ao primeiro toque do garfo, que se entranhasse na boca com volúpia. Foi petiscando o couvert, deu um golo na água que lhe fora entretanto servida, e à medida que o tempo passava reparou que tinham chegado outras pessoas, algumas delas sentadas mesmo ao lado e já a comer, enquanto o seu prato parecia estar em sérias dificuldades numa cruzada pelo Médio Oriente, sem oásis à vista. A certa altura, impaciente, - o meu pai usaria definitivamente este adjectivo como primeira opção para o seu estado- perguntou se o bife estava esquecido. O empregado veio dizer que o cozinheiro pedia muita desculpa mas tinha tido um pequeno percalço com o ovo e que estava mesmo a terminar a confecção do bife. O meu pai continuou à espera a vingar-se no couvert, cobiçando tudo o que lhe passava pela frente a fumegar, e já comia qualquer coisa quando finalmente lhe puseram à frente um prato muito bem decorado, onde vinha um ovo cru, gelatinoso, viscoso, a equilibrar-se periclitante (qual Lucky Luke depois de uma visita prolongada ao saloon), num bife também cru - como o célebre vestido da Lady Gaga, mas sem ser em carpaccio. O meu pai olhou desolado para o prato, a seguir para o empregado e depois de novo para o prato, para dizer, por fim, com o seu característico humor: sabe, eu gosto muito de bife tártaro, mas diga por favor ao cozinheiro que gosto do bife tártaro bem passado.

delaunay # repost 3

a vida resume-se a círculos órficos, bonecas russas, e caixas tupperware

publicado em 30/12/2014

17.6.16

o ovo, o prato, e a mesa

o que mais me fascina já não é o brilho do ovo, ou 
a desigualdade de refrigência entre as suas partes;
aquilo que me prende definitivamente a atenção é
o que a sombra do prato de vidro consegue fazer à
mesa

estudo para um ovo estrelado



















































Um amor feliz*

«Não gosto de grandes palavras. E desejaria que 
 tudo isto fosse o mais simples possível.»

Um Amor Feliz
David Mourão-Ferreira ( 24/2/1927- 16/6/1996)

16.6.16

Ostra

Chegados à fazenda, era impossível não reparar no lixo que se acumulava pela extensa área até às cavalariças, que pouco mais eram que casebres. Foi ainda ao portão que me apeteceu desistir pela primeira vez de montar a cavalo naquela manhã nublada, na ilha de Santa Catarina. Ao avançarmos devagar no trilho, para não levantar poeira, ladeados por sacos de plástico presos aqui e ali nalguma erva mais alta, começámos a aproximar-nos do grupo de animais já aparelhados e presos, à nossa espera. Eu tinha algumas noções de equitação (mas era a que sabia menos do grupo) e fora-me destinada uma égua esquelética, mas muito mansa, nas palavras da proprietária. Comecei a fazer-lhe festas e reparei que tinha várias carraças, enquanto ela aguardava, indiferente e apática, abanando a cauda e a cabeça de vez em quando, para afastar as moscas. Está muito magra, comentei apreensiva, mas ela está bem, ela está um pouco magra mas é igual aos outros, é mansa, pode montá-la, não tem problema, respondeu-me na pronúncia típica do Nordeste, enrolando os erres. Não tem outra, uma também mansa, é que eu não gostava de montar esta, parece-me tão fraca... disse eu, quase a desistir pela segunda vez. Deram-me então a outra égua do grupo, e mandaram aparelhar um terceiro cavalo, de raça Crioula, um cavalo nervoso que eu nunca conseguiria dominar. Foi assim que conheci a Osta, esta sim, está em boa condição física e é tão bonita, disse, fazendo-lhe uma festa na fronte, é Mangalarga Marchador pura, tem um filho que ganhou prémio e tudo... Eu nunca tinha ouvido falar daquela raça brasileira de cavalos, mas gostei logo da Ostra e comecei a dizer-lhe baixinho ao ouvido que íamos as duas passear, que ia ser muito bom. E a Ostra escutava-me de orelha fita, enquanto recebia mais festas no pescoço e eu reparava nas cicatrizes em vários pontos do corpo, foi um relâmpago que caiu sobre os cavalos, ela ficou queimada e recuperou, mas o outro que estava perto morreu, e eu ainda mais me afeiçoei à Ostra, uma égua com uma bela cabeça, os cavalos são como as mulheres, começou a dizer o tratador, primeiro é preciso que tenham um rosto bonito, depois que tenham também bom feitio, e rimo-nos todos, nós agora mais descontraídos ao iniciarmos o passeio acompanhados pelos dois guias, ainda adolescentes, cada um montado no seu irrequieto cavalo, um Árabe e um Crioulo, cavalos jovens que não eram da fazenda, mas que estavam ali alojados e que eles aproveitaram para levar a fazer exercício.  

A Ostra claro que tinha manhas, muito mais do que eu, cavaleira inexperiente e que só queria que ela me obedecesse com o mínimo de sinais possível. Atravessámos a fazenda e continuámos até à estrada por caminhos entre várias quintas, todas elas com cavalos no meio de pastagens verdejantes. Ostra ia comigo a passo, na cauda do grupo, com o segundo guia por escolta, e fazia de conta que eu não estava ali, seguindo junto à copa das árvores e das cercas. Comecei a perceber que era eu que tinha que comandar isso, e não esperar que ela amavelmente contasse comigo. A certa altura virámos e seguimos por uma vereda em direcção a uma maravilhosa floresta de pinheiros seculares - que como longas colunas estreitas e altíssimas se dispunham milimetricamente na paisagem - atravessando uma ribeira. Fui-me pacificando ao inspirar profundamente a beleza da floresta, com as vozes do grupo misturadas no som dos cascos a penetrarem compassadamente a água, do alto do assento confortável que era o cavalo, em consonância perfeita (e única possível), com aquele horizonte. E todo o tempo falei com a Ostra que se foi habituando ao som da minha voz. As crinas claras na pelagem tordilho começaram a certa altura a confundir-se com as dunas de areia branca e macia, habitadas por vegetação rasteira, que tivemos que atravessar para conseguirmos chegar ao mar. Ostra desobedeceu-me e pôs-se a galope para se ver livre depressa das dunas, ou, quem sabe, ansiosa por me mostrar o oceano, e durante algum tempo galopei com ela, pela primeira vez na minha vida. Um areal imenso e estreito apareceu diante dos nossos olhos. Como a Ostra, as ondas cavalgavam sobre a areia, deixando as crinas ao vento. Tínhamos chegado à praia de Moçambique, ali banhada pelo Atlântico, na costa do Brasil. Era dia dez de Novembro de dois mil e quinze.  

Golo



15.6.16

o poder das imagens do século XX



Aniquilar dá um sentimento de poder e lisonjeia qualquer
coisa de obscuro, de original, em nós. Não é erigindo, 
mas sim pulverizando, que nos é permitido adivinhar as 
satisfações secretas de um deus. Daí o atractivo da  
destruição e as ilusões que ela suscita nos frenéticos 
de todas as épocas.

E.M. Cioran/ Do inconveniente de ter nascido

o poder das imagens no século XXI

Perguntou-me quem era o cavaleiro de Domingo; respondi-lhe que não sabia quem era, que não tinha sido eu quem reparara pela primeira vez naquele homem que ao Domingo costumava passar tranquilamente pela estrada em frente da quinta, montado num cavalo branco; que só o vira naquele dia, mas que correra a fotografá-lo porque mantinha no meu imaginário a figura de um cavaleiro solitário como um modelo de liberdade adolescente. Que conseguira fazê-lo in extremis, e que o nomeara o cavaleiro de Domingo. Aquela era finalmente, na imagem conseguida, a prova que me viera salvar a ideia de liberdade.   

13.6.16

mea-culpa

o século XXI poderá bem vir a ser reconhecidamente o século 
da escrita confessional, e em parte devido aos blogues.

capricho ao fim da tarde

uma certa luz ao vento





















































































































































































































































colheitas

«O dia ondula amarelo com todas as suas colheitas.» Uma frase de Woolf, em As Ondas. Esta frase deixa-me estarrecido, em parte porque não consigo explicar porque é que me afecta tanto. Consigo ver, e ouvir, a sua beleza, a sua estranheza. A sua música é simples. As suas palavras são simples. Até o seu significado é simples: Woolf descreve o Sol a nascer e a preencher o dia com o seu fogo amarelo. A frase significa algo como: é este o aspecto de um milheiral num dia de Verão, quando tudo arde com a luz do Sol - um semáforo amarelo, um mar de cor em movimento. Sabemos exacta e instantaneamente o que Woolf quer dizer, e pensamos: não o podia ter dito melhor.

James Wood/ a mecânica da ficção

12.6.16

o cavaleiro de Domingo


a contar crânios como luas

Por causa da lua em Quarto Crescente, a aparecer tão nítida e densa, tão plácida e branca como um enorme crânio de brilho argênteo acabado de sair do revelador, destacado contra a película negra do céu, lembrei-me que durante muitos anos, ainda na câmara escura, ao mudar a película de Rx para o banho fixador, os pulmões já enevoados pela atmosfera tóxica, passava-a a pingar pela luz vermelha colocada acima, incapaz de não dar ali mesmo a primeira vista de olhos. E contava, um, dois, três... crânios, pequenos, nítidos pelos sais de prata, argênteos como pequenas luas em Quarto Crescente, ainda mal equilibradas nos Atlas dos pescoços curvos que, como cavalos-marinhos, se moviam em alegre mistura. Depois aparecia com aquele céu de muitas luas na mão, montado numa esquadria metálica, já seco e pronto para a notícia que superava as expectativas: são seis. E isso bem podia acontecer ao Domingo. 

:D



11.6.16

no meio das papoilas # repost 2

lista

elaboro mentalmente uma longa lista de razões para pôr fim
ao blogue, mas há uma que me parece decisiva, libertadora,
definitiva, mudar-me para a cidade.

10.6.16

se não fosse portuguesa

não teria nascido em Luanda
não teria vivido em Moçambique
não teria frequentado a telescola numa aldeia
não teria lido Graciliano Ramos e Drummond e Leminski
não teria vibrado com a Gabriela Cravo e Canela
não teria falado contigo em cinco continentes
não saberia sentir saudade. 
se não fosse portuguesa
não seria do mundo.