Atalhos de Campo


9.5.16

O Viúvo

A certa altura não lhe apeteceu mais viver na casa de família, portanto mudou-se para uma casa mais pequena, com garagem, sem os problemas de estacionamento que tivera antes, de quase chegar ao desespero. Lembrava-se, e até contava aos amigos como exemplo, que um dia tivera que ir dormir a um hotel próximo de casa por ter dado inúmeras voltas ao quarteirão onde vivia, sem conseguir parcar. A seguir costumava gracejar, dizendo enquanto bebia um Bushmills com duas pedras de gelo e fumava a habitual Cohiba reclinado na cadeira semi-cerrando os olhos muito azuis, que nem sempre se tem parking Karma, mas que o seu melhor amigo um dia lhe dissera, tu podes nem sempre ter parking karma,  mas tens sempre parking cama; e rematava a frase expelindo o fumo com o mesmo sorriso trocista em direcção a um ponto muito específico do passado, que até podia ter sido muito recente.

E tinha. Bem-parecido, embora já tivesse ultrapassado os sessenta, mantinha a forma física fazendo duas a três vezes por semana longas caminhadas junto ao rio, que alternava com percursos de corta-mato no parque da cidade; fazia-o habitualmente sozinho, porque mais ninguém da sua idade o conseguira alguma vez acompanhar. Mas era também o que se designa por bom garfo, e para isso já gostava de estar acompanhado, e bem, gerindo as calorias com método, entre perdas e ganhos, mantendo-se magro. A sua cama, modelo Bond, podia ser testemunha de que o James nunca falhara, era outro dos motetes.

Não tinha também qualquer preconceito em relação a pequenas pílulas que fazem grandes milagres. Logo de manhã, ainda meio a dormir, na primeira visita à casa de banho não falhava o Propecia, responsável por manter um belo cabelo, liso mas já grisalho, de que as miúdas, como costumava dizer, tanto gostavam. E as pílulas continuavam ao longo do dia, se bem que ao pequeno-almoço, aliás abundante, é que eram salvaguardadas as principais funções orgânicas, com remédios de muitos tamanhos e cores. Sou um drogado, dizia ironizando, quando um dos convenientes comprimidos era tomado prontamente após uma refeição mais copiosa. Quanto ao resto tiraremos as inevitáveis conclusões. Afinal se a indústria farmacêutica propicia um novo cocoon, somos palermas se não aproveitamos, alinhava ele o pensamento. E era o que fazia: noite dentro punha-se a par das novidades, estudando com minúcia todos os artigos relativos ao assunto que saíam nas revistas semanais, de que era grande consumidor aliás, mantendo-se também actualizado em economia e política, o que lhe permitia sustentar uma conversa socialmente interessante, durante as muitas solicitações que mantinha.

Tinha decidido que já trabalhara o suficiente e que agora chegara a altura de dedicar unicamente duas horas por dia ao escritório, e apenas para resolver alguns problemas. Ficava portanto com a maior parte do tempo livre. Depois do sudoku, de bisbilhotar a meteorologia e de fazer downloads de músicas no computador, continuava a alimentar a sua nuvem de tédio cogitando talvez jogar golf, se o tempo estivesse de feição, talvez convidar uma amiga para almoçar, era só pegar no iPhone e varrer a lista cor-de-rosa, que era enorme, e escolher a dedo, entre os trinta e os quarenta e cinco anos. Não queria envolvimentos nem complicações. O que vinha a ser isso de refazer a vida? Cultivava um estilo cool e disponível. É claro que se apaixonava... no máximo durante seis meses. E seguia sempre o mesmo esquema, eram todas princesas, mimadas com presentes e noites encantadoras em hotéis de luxo e danças ao luar. Culminava tudo com uma grande viagem, seguida de um desinteresse profundo e irreversível que deixava as princesas à toa. Era então, perante a incredulidade das visadas apanhadas de surpresa, que vinha a conversa terminal, sinto-me viúvo, dizia, nunca resolvi este problema.

Mas, na verdade, embora a desculpa fosse perfeita, tinha-se divorciado muito antes de enviuvar.

Boa noite. Agora, se me dão licença, vou apagar a luz. Acabei de tomar o comprimido para dormir, e um analgésico, não percebo porquê, mas estou cheio de dores de cabeça.

E ao dizer isto desligou o telefone, vestiu o casaco, acendeu a luz da entrada como de costume, olhou de relance o espelho, e saiu.      

14 comentários:

  1. Querida Teresa Borges do Canto,
    Este é, de facto, um mundo pequeno. Então, a menina também conhece o V.?! E já lhe topou as manhas, bem vejo.
    Bom dia,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,

      O V(iúvo), é uma réplica do action man; conhece?
      Aliás ele desapareceu da história quando viu que eu era uma detective infiltrada, altamente perspicaz.
      Bom dia.
      Barbie Vanessa, (não vamos nessa).

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  2. Um predador disfarçado de príncipe encantado?
    Ou uma presa refém do próprio ego?

    Um beijinho, Teresa

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    1. Tudo isso, uma libelinha nada inofensiva, como se sabe quando se estuda a vida das libelinhas;
      até as vítimas servem de remédio, para o seu imenso tédio (rima 100% ao natural):)

      Um beijinho, Smilenska.

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  3. A vida é para quem a sabe viver. :))
    Esse sabe-a toda!

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    1. Haverá alguém assim tão perfeito a saber viver, ou andará às voltas sobre si próprio até cair no chão atordoado?
      O pior é o mal que foi fazendo, entretanto. Mas que a sabe, sabe: é muito treino. :))

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  4. No fundo gosta apenas de si próprio e sente-se o rei da selva, gosta de ir á caça :))

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  5. É um faisão dourado, o Beta, mas nem tudo o que reluz é ouro, e elas, as fracas, deixaram-se encandear. Ainda as galinhas da índia, eu compreendo, elas estão cientes do seu papel, não o falham, e a sua submissão é perfeitamente consentida. Aceitam, não se revoltam, cumprem o objectivo. É assim que estão programadas. Agora as outras, que é feito do seu sexto sentido? É muito difícil enganar uma mulher, sobretudo nessa faixa etária, todos o sabemos. E hoje em dia, então...
    Acaba por ser um pouco, gogue contra magogue. E pronto, o Beta anda a queimar a vela pelos dois lados, como se costuma dizer. Ómega, é que ele não é de certeza.

    Ómega
    Beijinhos:)

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    1. A vida amorosa parece-me por vezes resumir-se a uma orbital instável com vagas por preencher, a que electrões livres concorrem, sonhando equilíbrio; ... aquilo que parecia um nível seguro acaba por descarrilar na maior inconstância, mas há sempre candidatos, é um rodopio, as pessoas precisam muito de acreditar, e enquanto acreditam alimentam sonhos e ilusões. Pode acontecer a qualquer um/a.
      Bom diálogo esse teu entre posts, Madalena; a ideia era essa mesmo, tudo encadeado.

      Rolex (de pechisbeque)
      Beijinhos:)

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  6. A desculpa da dor de cabeça da Ava, também dá efeito :)

    O senhor deve andar é a fugir dele próprio :)

    Beijinhos Teresa

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    1. Um mestre em fugas não deixa de ser um mestre. :)

      Beijinhos, Quarto Andar.

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  7. Sim, é verdade. Tem tudo a ver com isso. Somos humanos...:)

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