Atalhos de Campo


6.5.16

O faisão e as quatro fracas

Na jaula dos quatro faisões dourados há um que tomou a dominância, e um ainda mais dominado do que os outros, a que eu chamei dominado alfa. Este último apareceu há uns dias sem o belo penacho ruivo no alto da cabeça e sem a maior parte das penas do pescoço, devido a forte escaramuça, enquanto o macho líder dava corridas dentro da jaula com o penacho levantado e as penas do pescoço armadas para a frente, de tal modo que pareciam uma viseira a esconder o bico, do qual saiam estranhos guinchos. A cauda está agora mais imponente do que nunca; quando ele salta e voa parece desenhar extravagantes arabescos no ar empunhando um longo aparo, ao mesmo tempo que persegue inimigos imaginários. Nessa dança guerreira as penas brilham marchetadas, revestindo-lhe o corpo como uma cota de malha. Matizes azuis sobrepõem-se recortados no amarelo esmaltado, a cabeça é altaneira, e o peito, entufado ao rubro, enfrenta, numa atitude pomposa, apenas o ar, já que os outros faisões desaparecem rapidamente ante as suas impiedosas investidas. Patas esticadas e movimentos amaneirados, conferem-lhe ainda uma pose empertigada, ridícula e despropositada, suponho, visto não haver fêmeas. Contudo a agressão ao dominado alfa continuou, mesmo após a desonra de ter perdido o chapéu emplumado e de se ter retirado com a auto-estima numa lástima. A partir de certa altura os outros começaram também a bicar-lhe a cabeça já sem penas, de tal maneira que o pobre faisão se refugiou a um canto da gaiola para morrer, impedido por todos de comer, e de se mexer para tentar fugir. Quando o fui ver tinha um olho negro e fechado, e toda a cabeça, sem uma única pena, estava agora coberta por crostas em lugar da bela plumagem que em tempos competira com a do seu rival. Foi recuperar para uma jaula sozinho, em frente do recinto onde vivia. Mas mal se sentiu melhor empoleirou-se no muro junto à rede, passando os dias numa atitude masoquista a olhar para o outro, que continuou no seu vaivém soberbo e atoleimado e na sua exibição provocatória e narcísica. Há dias vieram quatro jovens fracas fazer-lhe companhia. Sabendo-se da agressividade dos faisões, temeu-se que as pintadas fossem por ele agredidas. Mas não. O faisão continua a sentir-se ainda mais fraco do que as fracas.  

2 comentários:

  1. Que magnífica alegoria, Teresa.
    Diz lá ao Almurtão (adoro nomes esquisitos e este tinha de rimar com faisão)que não se intimide com as fingidas falsas e que não se amofine com o alfa, porque a maior parte das vezes acabam a 'pendular' como os outros só que cegos de tanta auto-estima não vislumbram nem as penas. :))
    Bom domingo, Teresa.
    Beijinho

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    1. Belíssimo epílogo, Ava, o alfa-pendular que se cuide, estava tão "centrado" que nem viu passar o TGV...

      O que o teu comentário fez foi muito bem às minhas penas, Ava, até parece que fui ao cabeleireiro. :)
      Um bom Domingo para ti e família Silva.:)
      Beijinho

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