Atalhos de Campo


16.5.16

o choro dos inocentes

Primeiro foram escolhidos um a um, processo que levou tempo de observação. Esta manhã, ainda muito cedo, foram separados das mães. Dentro do ovil ficaram os seis escolhidos. Os outros foram juntos para a cerca oposta àquela em que estavam antes. Fiquei a podar um arbusto e a sebe. Estes dias entristecem-me e enervam-me, de um lado as ovelhas lamentam os filhos, do outro eles, concentrados o mais perto possível no ponto de onde lhes chega a voz das mães, respondem num coro triste e aflitivo. É um ciclo que se acaba, os amigos das cabriolices foram separados, a vida é uma coisa séria. O tractor seguiu com os machos escolhidos, para renovar o sangue do rebanho, de vez em quando é preciso, disse o comprador. Iam em silêncio num enorme atrelado aberto. Os outros, os que ficaram, pressentindo o seu destino e as mães por perto, entregaram-se a um queixume de mau pressentimento. Hoje vai ser assim, amanhã também; depois atenua-se. Talvez haja uma ou outra ovelha persistente que volte mais uns dias ao local onde viu o borrego desaparecer, e continue a chamá-lo. Quando era pequena, em África, quis ficar a tomar conta de um cabrito que os meus pais tinham comprado para a Páscoa. Estava preso por uma corda a um tijolo, e eu ficava sentada em cima do tijolo, e ia mudando o tijolo de sítio, para que ele tivesse sempre erva fresca para pastar. Fiz isto só por dois ou três dias de manhã à noite, ficava a vê-lo, a admirar-lhe a pelagem muito branca e brilhante onde sobressaíam três ou quatro malhas castanhas, uma delas bem ao meio da cabeça, onde eu lhe fazia festas. Pedi para ele não morrer, mas, ao quarto dia, vi o homem do talho a caminhar rapidamente na minha direcção. O avental estava salpicado com papoilas de sangue, ele era forte e tinha os braços muito brancos cobertos de pêlos, o que aos meus olhos o tornava ainda mais ameaçador. Pegou-lhe sem demora, é possível que tivesse dado qualquer desculpa, não me lembro. Mas sei que continuei sentada no tijolo a vê-lo afastar-se com o cabrito aos berros e a espernear-lhe no colo, enquanto chorava de impotência e pena ao ficar sozinha, com a corda vazia entre mãos.            

6 comentários:

  1. assim nã há condições... nã tenho envergadura para ser vegetariano!

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    1. na cidade é mais fácil, um bife é um objecto...
      bons bifes, Manel (eu também gosto, mas cada vez menos).

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  2. Óhhh! O mesmo com os coelhos, as galinhas e os patos. Fui habituada a comê-los desde pequena, diziam-me sempre que não eram aqueles com quem eu brincara, que aqueles vinham do talho, depois fui percebendo que afinal de contas eram, mas nunca consegui matar nem um...

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    1. E eles parece que adivinham, mesmo quando são agarrados para qualquer coisa banal ficam em pânico e gritam. Eu era assim como tu, tinha que ser muito bem enganada. Acho que vou acabar vegetariana, é mais coerente.

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  3. Bolas, o Manel leu-me os pensamentos, é que por este andar viro mesmo vegetariana. :))

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    1. Ava, hoje matei seis cenouras, oito cebolas, dois alhos franceses, uma cabeça de alhos... sou uma "cereal Killer"... :))

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