Atalhos de Campo


30.5.16

memória. curta # 23

Uma vez, quando era adolescente, assisti a uma cena que me deixou impressionada. Ao atravessar de carro a estrada sinuosa da Serra do Buçaco(o que fazia o meu avô redobrar os cuidados na condução, e eu duplicar o enjoo), apareceu subitamente um carro parado na berma, atraindo a nossa atenção. Como o ultrapassámos vagarosamente percebi que a causa da paragem tinha a ver com a presença de um cão. O cão, que parecia em perfeito estado de saúde, estava sentado sobre uma manta em cima do capot, - Avó, veja aquele cão a comer!, e todos os quatro netos nos voltámos numa gargalhada, para assistirmos à cena circense de ver uma senhora a dar o almoço a um cão com babete, que abria a boca de cada vez que ela lhe estendia uma colher de sopa em direcção ao focinho. 

Sempre adorei animais, exactamente por não serem pessoas. Sabemos que em todos, sem excepção, e por muito ensinados que estejam, continuará a haver instinto, agressividade contida ou dominada, comportamentos imprevisíveis. Tentar antropomorfizar um animal é desrespeitar a sua condição diferente da nossa, é adulterar a sua natureza. Não se pode obrigar um animal a ser humano, visto que ele nada tem de humano, embora o homem reconhecidamente tenha de animal. Aceitando essa premissa talvez consigamos ser nós a aproximar-nos com êxito dos animais, e ao compreendê-los com inteligência, educá-los para que consigam manter connosco uma relação equilibrada e benéfica para ambos.

A Heidi era uma cadelita sem raça definida, malhada, de tamanho médio. Quando a consultei já tinha bastante idade, suponho que mais de quinze anos. Nos dois últimos anos de vida foi-lhe diagnosticada uma insuficiência renal grave. Muito perto do fim, a dona quis conversar connosco ponderando a eutanásia, por sentir a cadela em sofrimento. A função renal bastante diminuída foi minando o organismo da Heidi, que deixou de comer e de andar, na última semana de vida. Marcou-se então um dia e uma hora no fim do expediente das consultas para se proceder à administração intravenosa de pentobarbital sódico, a droga de escolha para o efeito, evitando assim que se prolongasse o sofrimento desnecessário daquele cão, que ao longo de dezassete anos tinha sido um amigo dedicado e uma excelente companhia.

Quando há estes procedimentos, a tristeza que se abate sobre o pessoal de uma clínica é enorme. Não é raro que toda a gente chore. Há sempre memórias que ficam, boas memórias, histórias engraçadas, empenhamentos e cuidados anteriores, operações bem sucedidas, urgências, salvamentos, partos, e tudo isso pode referir-se ao mesmo animal, ao longo de uma vida inteira. Enfermeiros e auxiliares dedicam-se tanto ou mais ainda do que o médico, a relação com o dono é muitas vezes mais próxima, mais simples e prática. Quantas vezes são eles que recebem um telefonema e transmitem um recado, que dão a resposta e mantêm o contacto. Portanto a Heidi era conhecida de todos e tinha conquistado o coração de cada um em particular, fazendo jus ao desenho animado de onde viera a inspiração para o seu nome.

Os proprietários não quiseram assistir. Entregaram a cadela muito enroladinha num cobertor, fizeram-lhe uma festinha e saíram, deixando tudo de lágrima no olho, e a Heidi morreu como um passarinho, que já era, e foi directa para o céu dos cães, porque tinha sido um bom cão na terra dos homens. Começámos lentamente a prepará-la para ser levada para enterrar, assunto que já tinha sido conversado anteriormente.

A surpresa veio de seguida, quando entrou pela porta das consultas um pequeno caixão de criança, em mogno, com um crucifixo na tampa, e a dona pediu que a colocássemos lá dentro. Mal refeita da surpresa e já me entregava uma chave para fechar de seguida o caixão. Confesso que fiz tudo isso contrariada. O caixão saiu da clínica com a Heidi dentro, num forro de cetim. Passados alguns minutos a senhora voltou atrás para pedir a chave, que tinha ficado esquecida sobre a bancada. É que antes de a enterrar quero abrir a tampa, para lhe dar um beijinho.  

16 comentários:

  1. A verdade é que, desrazoabilidades à parte, eles não são humanos mas nós somos. E nós só temos uma forma de amar. E é a mesma e única quer se trate de um animal ou de um ser humano. Por mais horrível que isto possa soar, suspeito que se o meu cão fosse humano não gostaria menos dele e a sua vida não valeria menos para mim.

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    1. Por isso mesmo somos capazes de amar de muitas maneiras diferentes, basta lembrarmo-nos dos vários tipos de amor que somos capazes de dar a humanos, e que são todos diferentes, fraternal, filial, romântico, platónico... e também de ter amor por um cão, evidentemente. Transformá-lo em "outra coisa" é que me parece grave. E há esse risco, na verdade, pela dedicação e proximidade que temos com eles. É bom que não se perca de vista que um cão é um animal e se o conseguirmos amar como o animal que ele é, é de certeza mais feliz do que se for privado dessa capacidade natural e extraordinária de ser cão. Não se trata de valer mais ou menos, trata-se de encontrar o valor certo, e esse é também muito subjectivo para nós, homens.

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  2. (Não lhe farei um funeral, é claro. Mas isso são outras contas)

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    1. O que me chocou ali, na sala onde todos choravam por um cão que tinha acabado de ser eutanasiado, foi ver aparecer um caixão de criança. E isso, felizmente, nunca mais me aconteceu. Não sou contra cemitérios de animais, nem contra cremações individuais.

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    2. Eu percebi. É de facto chocante.
      Quanto à questão dos animais e ao direito que eles têm a não ser humanizados (com o qual eu concordo em absoluto) penso que o problema, onde as fronteiras se esbatem, é que quando a convivência é muito próxima no espaço, temos de lhes impor tantas regras de comportamento (não ladrar, não roer, não morder, etc) que é muito difícil não os humanizar. Claro que esse processo não é intencional já que a única coisa que se pretende é uma convivência pacífica. Mas o resultado ...

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    3. Proibir não é humanizar... ou é humanizar pela negativa, mas combinando com os nossos hábitos projectados no cão, o cão afeiçoado a eles, a ternura, o comportamento condicionado (pavloviano), os prémios, as brincadeiras, os passeios, a hora de deitar com um boneco, a peça de roupa do dono, o rádio ligado na ausência, isso é humanizar pela positiva, é lúdido e saudável, as fronteiras é que são difíceis. Já vi situações de proprietários reféns dos próprios cães e o contrário também. Ambas as situações são aberrantes e doentias.

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  3. os meus têm sido embrulhados nos meus lençóis e entregues à terra. não faço dos lugares, locais de culto, mas talvez porque para mim todo o espaço é "sagrado".
    e fui eu que lhes segurou o corpo, quando a injecção foi dada. se custou? morri um pouco por dentro, mas não acredito que deva ser de outra forma.

    e obrigada por partilhar estas memórias (e me permitir desaguar as minhas).

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    1. Morre-se sim, flor, cada animal leva com ele uma parte da nossa vida partilhada. Muito belo, isso de levarem juntamente os seus lençóis. Todos os meus animais foram enterrados e é assim que farei sempre que puder. Sobre a terra crescem ciclames ou outras flores da altura em que morreram, colocadas de propósito.

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  4. pois...nem sei muito bem o que diga e o que pense.
    adoro animais, mas...

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  5. São os excessos, Teresa, acho que há quem não consiga nunca encontrar qualquer equilíbrio na mais pequena coisa que faz. E já estou a generalizar e a ultrapassar a temática do texto.

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    1. Há ali uma fronteira tão ténue que pode resvalar rapidamente para a aberração.
      A minha avó dizia muitas vezes, "Deus nos dê juízo até à hora da morte"...

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  6. Também me faz um bocado confusão essa humanização dos animais. Em todo o caso tento pensar em compreensão e respeito por quem não sente como eu.

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    1. Há extremos que só prejudicam os bichos. Gosto da palavra bicho. Acho que também sou um.

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  7. Concordo contigo. Se respeitarmos a natureza dos animais, ambos ganharemos com isso. Por vezes, há aberrações. Os donos perdem a lucidez, sofrem e até fazem sofrer, mas não se dão conta. Também é verdade que os cães se humanizam muito, com a vivência tão próxima e prolongada connosco. Chegam a ficar parecidos no carácter, mas não deixam de ser cães, carnívoros.:)

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    1. Humanizam-se de tal maneira que sofrem bastante quando alguma rotina muda. Deveríamos pensar mais nisso. Dosear.

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