Atalhos de Campo


13.5.16

memória. curta # 22

Tinha pensado escrever sobre uma família de gatos que vivia numa casa luminosa com jardim. Porém, a memória que hoje me assaltou é como uma nódoa negra que tivesse ficado sempre negra, recusando-se a passar pelas cores do costume até ao seu desaparecimento; ficou assim para sempre, negra e a doer, para que nunca me esquecesse. Por isso precisei de a escrever, quando um partido propõe no parlamento alterações à legislação sobre a conduta com animais, que inclui, quanto a mim bem, a criminalização para o animalicídio, ou seja, a morte violenta infligida a um animal considerado de companhia. Não me esqueço de que Gandhi afirmava que a grandeza de um povo se avalia pela forma como os seus animais são tratados. 

A senhora vive num sanatório, aqui no alto, isto é que são bons ares... dizia-me o taxista ao descrever a curva larga sombreada por tílias que os faróis iluminavam, mesmo antes de chegar ao observatório onde eu morava, a minha primeira casa. Bons ares, lembro-me bem que foram estas as palavras do taxista, e, no entanto, eu precisei de mudar de ares, assunto que agora não vem ao caso, não fosse o local fazer parte da história onde eu fiz esta nódoa negra que nunca mais desapareceu. 

- Mãe, preciso do material de desenho para amanhã, é urgente. O material ficara em casa do pai, e eu fui buscá-lo numa corrida, durante a hora do almoço. Ao descrever a tal curva, abri a janela do jipe para inspirar profundamente o perfume das flores do campo. Começava a aproximar-me devagar da colunata da urbanização, erguida à minha frente como se aas torres fossem alfinetes coloridos espetados ao longo da colina, e que assinalavam, também em mim, um mapa de não tréguas. Reparei no perfume insistente das tílias quando o tablier aquecido me devolveu o sol com empenho naquele início de Junho quente, mantendo em repeat a melodia dos Madredeus. Contrariada saí do carro em expiração forçada, mas, quando ia a entrar no prédio, vi algo que me encantou de tal maneira que achei que estava a ter uma visão. Ali mesmo, dentro do canteiro, estava uma ninhada irresistível de gatinhos tigrados a brincar, num jogo de emboscadas e saltos que os fazia aparecer e desaparecer por entre a folhagem dos agapantos. Maravilhada peguei num deles ao colo e fui tocar à campainha da porteira, que, aparecendo de imediato, como se vivesse atrás da porta, me olhou com curiosa fixidez. Como tem passado, a sua filha, o seu marido, estão todos bem? - perguntei à dona Júlia enquanto segurava no gatinho, e lhe fazia festas para não o assustar. Há tanto tempo que aqui não venho, está tudo tão bonito, estes gatos mansinhos, têm dono, não... E no rosto atento da dona Júlia aclararam-se de imediato os pregas de alguma sombra inoportuna, para deixar passar um sorriso bondoso que lhe iluminou a tez morena, dizendo-me que não, que tinha sido uma gata que tinha ido ali parir no canteiro -deve estar lá por baixo a dormir à sombra, ela nunca se afasta muito- e que ela, dona Júlia, e mais umas senhoras do prédio, lhe davam de comer. Aparentam ter mais de um mês, devem estar a fazer o desmame, já comem com certeza, afirmei. Têm dono? Não, ainda não tinham. Havia uma senhora indecisa pelo das riscas mais larguitas, aquele ali, está a vê-lo, o maior de todos, são seis, mas os outros, que soubesse, não tinham dono. Eu talvez consiga arranjar dono para dois deles, retorqui, mas hoje não venho prevenida com caixa de transporte e amanhã tenho o dia muito preenchido. Quinta-feira, por esta hora, volto para levar dois, pode ser? Agora estou cheia de pressa, venho só buscar umas coisas do meu filho, disse-lhe, enquanto devolvia o gatinho à companhia dos irmãos. Quinta-feira toco-lhe à porta quando os vier buscar, continuei, antes de desaparecer no elevador.

E assim foi. Passados dois dias voltei a subir a alameda de tílias perfumadas, quem sabe ainda a ouvir Madredeus, talvez o pomar das laranjeiras (eu gostava muito, e ainda gosto, dessa música). Suponho que ia a cantarolar sobre a voz da Teresa Salgueiro, invadida pela ideia de resgatar os dois gatos do abandono quase certo. Mas depois de estacionar, quando passei pelo canteiro carregando a transportadora, já não vi a ninhada. Estranhando, preparava-me para tocar à campainha da dona Júlia para lhe perguntar o que tinha acontecido, quando o meu gesto ficou suspenso no ar, sem préstimo. A porta abriu-se e apareceu à minha frente o rosto vincado da porteira. Desta vez, apercebendo-se da minha expressão interrogativa e algo ansiosa, adiantou-se a qualquer pergunta supérflua, acentuando o semblante carregado ao comunicar que já não havia nenhum gatinho. Como não havia, se ainda anteontem eram seis e não tinham dono? Foi então que me explicou, com um soluço encravado na garganta, vieram ontem uns rapazes ao fim da tarde com um carro, andaram por aí às voltas como loucos, depois pararam aqui em frente com uma derrapagem e começaram à caça dos gatos, levaram-nos todos no carro, doutora, não pude fazer nada, a certa altura ameaçaram-me, tive medo, e nem sei como dizer-lhe isto, mataram-nos um a um, se quiser ver estão à beira da estrada, atiravam-nos pela janela e mataram-nos um a um, - repetiu, para que ambas acreditássemos - passando-lhes as rodas por cima, se for com atenção vai reparar, ainda lá estão, à beira da estrada. E a gata fugiu porque se assustou com o barulho, mas quando voltou e não os viu, ficou desvairada, procurou-os por todo o lado, dava dó, doutora, até pela minha casa entrou a miar e agora chama-os aos gritos, é uma dor de alma. Tenho-a ali dentro, com medo que eles voltem para lhe fazer mal, mas é só até ao meu marido chegar, ele já me avisou que não podemos ficar com ela. 

A caixa não voltou vazia. Peguei na Riscadina (era assim que lhe chamavam no prédio), e levei-a comigo. Ao longo do caminho, quando as tílias deram lugar a campo aberto, verifiquei, sufocada pelo choro, que era como a dona Júlia me tinha dito: de cem em cem metros estava um gato morto, atropelado à beira do caminho. Foi há vinte anos, mas os animais são ainda hoje, estranhamente, considerados coisas. 

A Riscadinha foi operada para não voltar a ter cios e depois adoptada por uma senhora de meia-idade que perdera uma gata tigrada, que afirmava ser igualzinha a ela. Nunca chegou a saber a verdadeira história daquele animal tão dócil que ronronou, mal a viu pela primeira vez.

7 comentários:

  1. Nada do que diga conseguirá exprimir toda a tristeza e toda a raiva que sinto por saber que existem pessoas assim. Chamar-lhes animais é um eufemismo ofensivo para os bichos.

    Já uma vez falei deste assunto, por um prisma estritamente legalista (http://lindaporcaoucheirodeestrume.blogspot.pt/2014/07/pessoas-animais-coisas.html). Acho que continuaremos como estamos, e como estávamos há 20 anos. E há 40...

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    1. Já li e gostei, com toda a razão o imperioso é não considerar animais como "coisas", facto aberrante, e punir devidamente quem atente contra a vida, esteja ela onde estiver. Mas também acho possível que tudo continue como está, uma vez que não são penas leves que desmotivam as pessoas, é sobretudo preciso ensiná-las a respeitar a vida e isso já vem muito de trás, é toda a cultura de um povo. E, a meu ver, não vale a pena amedrontá-las com a lei, como se esse espectro fosse fazer com que elas se desfaçam dos animais. Quem gosta do seu animal já cumpre a lei, quem não gosta, se quiser desfizer-se dele está a dar-lhe uma oportunidade de dignidade que ele, com ela, não tem. Mais abandono? Pois, é possível. Mas o abandono também é punível.

      Obrigada, Linda. Aproveito para dizer que esta hoje foi a segunda fotografia que vi da sua gata tão especial.

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  2. Teresa, que nó que esta tua memória me provocou. Pergunto-me como pode haver gente tão cruel! (nem consigo dizer mais nada)

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    1. Esta nódoa negra estava tão presente que a situação actual a fez reaparecer. Eu sei que preferias uma história diferente, mas não podemos contar só as histórias com final feliz... desgraçadamente aconteceu-me, para que tirasse ilações sobre os limites da crueldade humana.

      Um abraço, querida Ava.

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  3. errata: onde se lê desfizer-se, deve ler-se desfazer-se. :)

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  4. já me recriminei várias vezes por isto que vou dizer, mas a crueldade para com os animais incomoda-me mais do que a crueldade entre seres humanos.

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    1. Estás no sítio certo para dizer isso, Manel, eu sinto o mesmo. Mas quem é cruel com um animal é cruel com uma pessoa, não tenho dúvidas disso, é só uma questão de oportunidade. Há também uma hierarquia do mal, e é mais fácil ser-se violento com um animal, porque ele é, à partida, indefeso. Esta parecia ser uma cena saída de A Laranja Mecânica, tal foi o grau de violência. É um problema social muito mais grave do que parece. Para estes casos deveria haver leis que punissem severamente os culpados.

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