Atalhos de Campo


2.5.16

memória. curta # 21

Na nossa vida cabem muitos animais, mas poucos de entre eles são verdadeiramente extraordinários. Alguns têm mesmo a rara capacidade de não morrer, de nos esperarem, fieis, nos recantos da memória, de se levantarem quando nos vêem, e de nos seguirem no presente, como fizeram no passado. 

Simão era um Cocker spaniel inglês de pêlo castanho dourado e ondulado, que vivia num prédio muito antigo forrado a azulejo, a poucos metros da clínica. A bela porta de madeira pesada, ornamentada com um postigo em ferro forjado, estava sempre entreaberta. Quem olhasse para o prédio, de portadas fechadas nos dois andares inferiores, poderia ficar com a ideia errada de que estaria devoluto. Porém, no ultimo andar, morava uma família muito alegre, numa casa que deixava entrar pelas janelas altas a luz do Tejo: um casal, três filhas adolescentes e um cão, de nome Simão. Simão não usava coleira. Para quê coleira, se ele vinha à rua sozinho? Quem por ali passasse por uma vez, poderia espantar-se ao ouvir uma porta a ranger e a esbarrar nos batentes queixando-se das articulações, para deixar passar um cão, que a empurrava com o focinho comprido quando queria sair, ou entrar, depois de dar as suas voltas no bairro. E Simão era conhecido de toda a gente na rua, mas passava sem ver ninguém, determinado que estava em atingir o seu objectivo, que era de resto inalcançável, para qualquer um de nós. Terminado o passeio, voltava para casa, aquela de que já falei, situada num bairro plano, no alto de uma grande cidade, de uma capital. Mas Simão não sabia, ou não se interessava por saber, o que estava para além dos limites do bairro onde vivia, e onde gostava de viver; chegava-lhe aquele pequeno núcleo, onde ele se sentia tão feliz.

Eu já tinha conhecido o Simão em cachorro, quando trabalhava numa outra clínica, e foi essa ligação de pediatra que marcou verdadeiramente o começo da nossa amizade: a quase sempre marcante primeira consulta. Fora animada, porque Simão era delicioso como todos os cachorrinhos daquela raça, e porque os donos eram pessoas extremamente afáveis. Temos este cão. Queremos o melhor para ele, que fazemos, como fazemos. E nós deste lado, percorridos que são milhares de quilómetros de cão, percebemos também quem temos à frente, ensinamos não só porque gostamos de ensinar, porque queremos que corra bem, mas porque sabemos que na nossa vida cabem muitos cães (mas não tantos que possamos desperdiçar especialmente este), vamos então ajudar a apostar neste, nesta companhia em potência, com princípio, meio, e fim; talvez melhor que ninguém saibamos também dar valor à importância desse início, a essa cumplicidade forte e admirável que se estabelece e se vai acentuando desde o primeiro momento, e que, comparativamente à nossa capacidade de estabelecer laços, é breve (demasiado breve, por vezes), sabemos nós, deste lado, que não há tempo a perder, e sabemos igualmente como uma perda, essa perda, pode ser brutal e inestimável.

Simão, vamos à doutora! E o Simão punha-se aos saltos, ladrava, sentava-se ansioso à espera que lhe abrissem a porta, contava a dona, e chegava sempre antes de quem o acompanhava, tentando igualmente passar à frente dos seus congéneres. Ele gosta de aqui vir, diziam-me os donos a rir, enquanto eu o pesava e esperava que a balança electrónica fixasse o peso exacto no visor. Suponho que o Simão simpatizava comigo porque nós simpatizávamos uns com os outros, e os cães têm essa percepção, gostam de estar em grupo, o que para eles significa estar alegremente em matilha, e, no centro dessa matilha, era ele o alvo de todas as atenções.

Em onze anos de trabalho, no mesmo local, muitas coisas se alteram. Nós envelhecemos e os cães também. Treze anos começa a ser muita idade para determinadas raças, e o Simão foi envelhecendo muito mais depressa do que nós, do que eu. A certa altura o seu coração estava cansado de tanto amar aquelas raparigas, jovens e irrequietas, que agora por vezes já nem vinham dormir. Era então, quando a casa mergulhava num silêncio ainda desconhecido, que ele se aproximava lentamente da dona, se sentava ao seu lado e, apoiando o focinho sobre a sua saia, olhava interrogativo para cima, à procura dos seus olhos, deixando as pálpebras inferiores ainda mais desconsoladas e descaídas do que era hábito, isto já não é o que era, parecia querer dizer a sua expressão triste, nem sequer há jantar, nem petiscos a escorregarem clandestinos por baixo da mesa, não percebo nada. E fazendo uma ligeira pressão com a cabeça, conseguia que ela abandonasse o livro no regaço para lhe acariciar a cabeça, e, depois, já absorta em pensamentos, fizesse deslizar os dedos ao longo dos caracóis até à ponta das orelhas, entretendo-se a desfazer algum nó. E ali ficavam ambos durante tempos que se afiguravam infindos, sentados perto da janela da sala, até o Tejo se acender lá ao fundo e o coração do Simão, que agora mais parecia um velho fole a arfar de impotência, se começar a apaziguar, enquanto ele, consolado, aproveitava para dormitar.

O electrocardiograma e o Rx revelaram uma insuficiência cardíaca muito grave. O Simão já não dava passeios tão grandes, limitava-se a fazer uma pequena volta higiénica e queria logo regressar, mas subir a longa escada até ao terceiro andar, começou a tornar-se para ele um problema. Em contrapartida as visitas à clínica sucediam-se porque era preciso ajustar as doses dos medicamentos uma vez por semana. Lembro-me que a primeira grande crise cardíaca ocorreu num fim-de-semana, daquele último Verão especialmente quente. A casa está a ferver, disseram os donos, ele tosse e arfa durante todo o dia, e à noite não deixa ninguém dormir. Consultada em urgência, sugeri que ficasse internado pelo menos dois dias com o ar condicionado ligado, até estabilizar. 

Simão passou a visitar-me sozinho, quando se sentia pior, para que eu o ajudasse a respirar e lhe refrescasse os dias. Quando não sabiam dele lembravam-se que talvez pudesse estar na clínica. Sobreviveu a esse longo e tormentoso Verão, mas no fim da Primavera seguinte, antecipando-se sabiamente ao calor, um dia adormeceu serenamente aos pés da dona, antes mesmo de dar tempo a que o Tejo se reacendesse, e não voltou a acordar.

16 comentários:

  1. ... até a Super-Dra. Teresa aparecer com palavras milagrosas e lhe injectar uns quantos posts felizes por agora...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O prometido é devido, Dr. Super-Ente de um metro e noventa. Eu já não dou injecções. Estou devoluta. O próximo é sobre gatos. Assanhados.

      Eliminar
  2. Este texto tocou-me muito, Teresa.
    Perdi a minha gata há cinco meses, e ainda a tenho nos tais recantos da memória. Não me morre, ela.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Custa muito, é um luto. Mas também é bom sinal que ela fique, que não se vá embora.
      Se fica é porque conquistou o seu lugar. Passado o luto essa presença pode ser boa, pode ajudar a equilibrar os afectos.

      Eliminar
  3. Parece um poema a vida deste Simão!
    [Gostava tanto de ter um assim...]

    Um beijinho Teresa :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não há animais por encomenda, também é preciso ter sorte. Como com os filhos.
      Mas vale a pena tentar, desde que se pense, agora quero um cão porque me vou dedicar a ele. Pode valer muito a pena. De contrário é uma enorme sobrecarga.

      Um beijinho, querida Miss Smile :)

      Eliminar
  4. Teve uma vida feliz o Simão, e isso é o que interessa. :)

    ResponderEliminar
  5. Concordo em absoluto. É preciso gostar de cães e estar disposto a dedicar-lhes algum tempo. Senão a fantasia pode virar pesadelo, porque um cão não é um boneco e dá trabalho, sobretudo no primeiro ano de vida. Já conheci casos de insucesso. À excepção disso, penso que um cão de escolha adequada, devolverá a dobrar, toda a atenção que lhe for dispensada, com a garantia que nunca desiludirá o seu dono. Palavra de dona!:)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É bom que se reflicta bastante, antes de tomar uma decisão. Claro que pode haver insucesso, mas se houver empenho a percentagem diminui bastante, e é como dizes, o primeiro ano é o mais difícil, sendo que depois a recompensa é cada ano maior. No final da vida o cão (ou qualquer animal) volta a dar mais trabalho e despesa, há que estar preparado para isso.

      Obrigada pelo teu depoimento de dona. :)

      Eliminar
  6. gostei, pra lá de tanto... pena nã se respeitar da mesma forma os polvos... quem sabe um dia

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. os polvos são mais "pernas para que te quero"... mas sei de várias receitas com final feliz :)

      Eliminar
  7. :)

    Tão lindo Teresa. Vou no meu quarto cão :), os três anteriores todos morreram devido a doença, um deles do coração, tinha um sopro. Um outro com uma doença algo prolongada, lembro-me sempre que nessas fases são iguais a nós, precisam que se tome conta deles :)

    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Este era tão mas tão especial que me lembro dele muitas vezes, dele e da família dele. :)
      Depoimento bom, Quarto Andar, longa vida para esse cão :) e, já agora, fiquei a pensar que a Amélia havia de gostar de conhecer aqueles "peixinhos" ali de cima, pena não ser um vídeo... vamos pensar nisso ;)

      Beijinhos e muito obrigada.

      Eliminar
    2. O meu Gaspar, um boxer lindo e meigo como não tive outro, foi um cão que sofreu muito, desde dos 7 meses era epiléptico e a medicação acabou por danificar fígado e coração. Foi um cão que teve tudo até uma ruptura de ligamentos e de todos penso que é aquele que ainda choro :)
      A minha Amélia devorava os peixes :) é linda linda :)
      Beijinhos Teresa

      Eliminar
    3. Há animais fadados para sofrer (tal como certas pessoas), o que ainda nos liga muito mais a eles.


      A Amélia não conseguia devorar estes peixes, mas lá que ia gostar de fazer "fishing" com eles, isso ia :)
      É linda, dá para ver. :)

      Eliminar