Atalhos de Campo


25.5.16

homenagem aos pássaros

De manhã há um afluxo intenso de pássaros no céu.
Há até a temível hipótese de choque em cadeia por falta de visibilidade.
Uma pega cruza a janela, de luto velozmente aliviado.
Uma andorinha quase embate no mostrador branco pela afoiteza.
Há um estorninho que fecha as asas exactas sobre o ponteiro negro do cronómetro.
Minutos solenes voam para a meia hora.
Um picanço espera eternamente sobre a mesma linha telefónica.
Acordo com um arrulhar insistente e macio ao ouvido:
O cuco desistiu para sempre das horas certas.
Penas amarelas do peito confundem o céu cinzento. 
Pardais procuram ninho para quatro crias em várias avenidas.
Pintassilgos revezam rouxinóis nas madrugadas quase extintas.
Um corvo solitário sobre a terra consegue namorada para assunto pouco sério.
Há várias nuvens carregadas de bandos em voo. 
Jovens toutinegras esqueceram os barretes no recreio.
Todos cantam em grande algazarra.
Um milhafre, silencioso, observa.   

4 comentários:

  1. só faltou a melra apaixonada :)
    muito bom...

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    1. teria que a roubar à ana... aqui as melras estão todas desinteressadas :)

      (agora a sério, nunca vi aqui um único melro, talvez haja concorrência com os estorninhos, um pássaro parecido; diz Kundera que de há uns séculos para cá se têm vindo a mudar para as cidades...)

      Obrigada, Manel.

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  2. É mesmo. É cá uma algazarra desde que amanhece, depois vão sossegando e dormem cedo. À noite, são raros os que se ouvem.:)

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    1. Piam os mochos, aqui e ali, e cantam os rouxinóis...

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