Atalhos de Campo


18.5.16

Deus

Acordo muito cedo e procuro uma das meias grossas com que durmo. Com ambas as meias calçadas deslizo devagar para fora da cama e enfio nos pés as chinelas marroquinas. Já no corredor acelero o passo, com esperança de ainda o encontrar vivo. A partir do meio da escada ponho-me à escuta. À medida que me vou aproximando do piso térreo, sinto cada vez com mais urgência a necessidade de distinguir a mesma respiração ruidosa que tomou ontem conta, a partir de certa hora, do lugar volumoso ocupado pelas Valquírias, em vez do silêncio premonitório da manhã. Deixo-o ficar como o encontro agora, com o antibiótico da última refeição e a gaiola coberta, impotente para fazer mais por ele. Com a luz já apagada reparo que o luar trespassa o estore de canas e a luminosidade fria que toca em tudo, toca também em mim. Não posso fazer mais nada. Volto-me e subo a escada devagar, com o assobio estertoroso a diminuir nas minhas costas, degrau a degrau. Procuro o pijama no escuro, e adormeço. Agora aproximo-me da gaiola, colocada sobre a conversadeira junto à janela, envolta no cortinado de seda bege. Verifico que a cortina, como a deixei ontem, parece um dossel. Mas não lhe consigo ouvir a respiração e preparo-me para o encontrar morto. Até o canto dos pássaros que chega do jardim me parece uma doce e melancólica elegia. Com excessiva cautela afasto a cortina para o lado da parede e espreito por baixo do pano de flanela com que cobri a cúpula, temendo que me apareça o pior cenário, que o veja esticado de patas para o ar e dedos crispados, as penas do pescoço eriçadas, o bico aberto fixando um último esgar de apneia, as pálpebras cinzentas descidas, a cobrir os olhos enevoados com o pudor da vida. Verifico que o fundo da gaiola está vazio tal como ficou, apenas coberto por guardanapos de papel. Voo com o olhar e as minhas olheiras aterram no poleiro, incrédulas. Mal me vê abana ambas as asas, ao mesmo tempo que me saúda com um piar bastante rouco. Sei que quer comer. O dia parece continuar ainda a ser iluminado pela lua. Apoiado sobre a janela, de vigília, um anjo pintado com as asas semi-abertas, olha-me para dentro dos olhos cansados, com ar trocista.

20 comentários:

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    1. É verdade, Laura, foi muito intenso, ele continua vivo...
      Obrigada!

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    1. Querida exclamação convicta e sorridente, um beijo para si. :)

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    1. gosto tanto desse espelho de mar, já te disse, ana... :)

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    1. Maria, ganhei um dia para ver um pássaro voar; foi um pequeno voo que valeu muito, como este teu comentário. :)

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  5. Muito bonito Teresa, a força da vida é incrível e ele quer viver para continuar a saudar-te todas as manhãs, todas as noites :)

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    1. Sim, GM, ele quer muito viver, com a sabedoria que os animais têm de que a vida é uma dádiva sem devolução, nem troca; ou se ganha ou se perde. E eu quero muito que ele viva. Acho que vai viver. :)
      Obrigada

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  6. É tão bom vir aqui, ler estas histórias e ficar de sorriso aberto e embevecido, vendo no meio das letras um passarinho. :)

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  7. Que alívio!
    Também já nos aconteceu na cidade e num quinto andar, um pombo ficar a dormir toda a noite no parapeito da varanda. Era dia 14 de Fevereiro e estava muito frio. De manhã, antes das minhas filhas irem para a escola, ele ainda lá estava coberto de geada e muito estático. Sinceramente, pensei que estivesse morto e fiquei preocupada, porque cairia no passeio como uma pedra, uma bala, em cima de alguém que eventualmente passasse. Sentada aos pés da cama da minha filha mais nova, aguardei, olhando-o fixamente. E qual não foi o meu espanto, que comecei a perceber que a sua cabeça se sacudia em movimentos quase imperceptíveis. Certifiquei-me. Ele tinha acordado. Fui buscar milho para pipocas à cozinha e espalhei-o no chão junto à janela, abrindo-a, e ele entrou, sem medo,...o Roumi.

    Acho que vai correr tudo bem, Teresa.:)

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    1. Vou juntando os teus retalhos. Esse é muito bonito, tem asas para voar e aloja-se num canto só dele, dos dias felizes.
      Obrigada por mais esta partilha, querida Madalena. :)

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  8. Querida Teresa Borges do Canto,
    Ora cá está um post que dá gosto ler.
    https://www.youtube.com/watch?v=q3svW8PM_jc
    Bom dia,
    Outro Ente.

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    1. Dr. Outro Ente, agora até me apeteceu dançar. Devo ter dançado isto pela primeira vez na Primorosa de Alvalade.
      Boa noite, aha, aha...
      aha, aha...

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  9. tens de tratar da pardala da Ana que está manca... a melra está apaixonada, mas pra essa, desconfio que nã haja cura.
    (muito bom:)

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    1. uma pardala manca... hum, uma melra sem hipótese... um polvo à malandro, arranjas-me cada uma
      Esse (muito bom) merece um muito obrigada :)

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  10. :)

    Recompensador, a natureza gosta de nos dar estas surpresas boas

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    1. Tem sido uma luta: um ser não-voador a ensinar um pássaro a voar, com um anjo maroto a divertir-se à custa. :)

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