Atalhos de Campo


3.5.16

As falas de Teresa (11)

João:
Donde me veio a idéia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança? Desse mundo que, através da minha fraqueza, compreendi ser o único onde me será possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo, caminhar, beber um copo de água, escrever meu nome? Nada nem mesmo Teresa.

João Cabral de Melo Neto/ Os Três Mal-Amados


Está um dia quente. Levanto-me cedo. Tomo banho, coloco creme hidratante no corpo, escolho a roupa: umas calças com padrão de flores, uma T-shirt branca lavada, reparo numa marca (já tem uma nódoa que não sai), mas a outra, a verdadeira marca também fica, aqui é assim, as plantas deixam marcas para sempre, como certos designers de moda. Enfio umas havaianas nos pés. Verifico que o cabelo está demasiado comprido e a precisar de tesoura (como algumas das plantas do jardim, penso, mas elas estão bem mais actualizadas, garanto) - um dia destes, quando a lua estiver em quarto crescente, seguro no cabelo entre o indicador e o dedo médio bem esticados, e corto-lhe as pontas. Não há alisamento japonês, nem unhas pintadas, nem roupa comprada ontem. Mas quando saio a porta de casa, e enfrento o sol, vem um pássaro pousar-me no ombro. E é por isso mesmo que me sinto em perigo.  

12 comentários:

  1. e voas, e fazes com que voemos contigo :)

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    1. é que os meus pardais (libertados) andam a fazer-me voos rasantes, que me deixam à toa (percebes, sei que percebes).
      :)

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  2. E é assim que o pássaro manifesta a confiança que sente.

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    1. Não têm outro modo, de facto, por isso é que eu sei que são eles, e é comovente.

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  3. Ele saberá, Teresa, por que o faz.

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  4. Percebo. Percebo-te. Estás feita poeta. Apresentas todos os sintomas disso. Ainda não te habituaste à ideia, por isso estranhas e sentes-te em desequilíbrio, em perigo. Está visto! Agora só falta entrares numa repartição pública, com uma flor no cabelo e um pássaro ao ombro. Não sei é se te deixam entrar...:)

    Em todo o caso, não tenhas medo. Pode parecer um paradoxo, mas a realidade está muito para lá, de se ter os dois pés bem assentes na terra. Pelos vistos, não é só o matagal que tens andado a desbravar...

    Fluindo:)
    Descansa bem
    Beijinhos

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    1. Tiveste graça, sou eu a Frida Kahlo, sendo que eu tenho as sobrancelhas bem mais finas e o meu pássaro não é um colibri...

      Sublimando :)
      Beijinhos, Madalena, (aqui para nós, eu sempre tive essas telhas).

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  5. Não serão necessários os alisamentos japoneses nem as unhas pintadas, nem a roupa nova, muito mais importante do que isso serão os voos rasantes, as aproximações e a confiança de um pássaro que pousa no ombro, a vontade com que o faz e o bem estar e alegria que lhe proporcionas. Beijinho Teresa

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    1. Claro que não GM, mudei de vida com convicção. Por vezes assusta um bocadinho, mas passa logo. Já aqui vivi algumas tristezas (a proximidade da terra e da sua verdade implacável traz consigo a rudeza de braço dado, mas as alegrias que tive também já foram muitas, sobretudo por dar e me dar ao sítio onde estou.
      Um beijinho para ti, corredora de fundo (que eu admiro).

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