Atalhos de Campo


5.5.16

A papoila, o trigo, e a rola
























Um dos meus objectivos quando aqui cheguei - a uma casa tristonha e sem flores no jardim - foi pensar numa maneira de ter tudo integrado, a casa precisava de ter mais luz  e para isso mais vidro (nalguns casos vidro até ao chão) e o jardim ter tantas flores e tão próximas que dessem a sensação de estar a florir dentro de casa. A pouco e pouco foi-se conseguindo isso, e hoje não há só uma casa num jardim, há também um jardim em casa. Persistia no entnto um problema, quando não houvesse flores, quando chegasse o Inverno gelado, quando anoitecesse às cinco horas da tarde, que fazer... para onde olhar? O tempo que tive para pensar nisso foi aquele mesmo em que não pude sair por causa da chuva (e o primeiro Inverno foi especialmente rigoroso), por isso resolvi deitar mãos à obra, pintando nas paredes interiores as flores e os pássaros que observava no campo. Uma das minhas inspirações foi o uso do ramo do Dia da Espiga, de uma espiga desmanchada nos seus elementos, que comecei por pintar no pórtico ao centro da sala.  Viver o Inverno no campo torna-se mais fácil se a casa for alegre e colorida e foi assim que consegui, também, ver papoilas durante todo o ano. Mesmo que algumas tenham já murchado, outras estarão para sempre em embrião, e no recolhimento confortável da lareira, passando tão só o olhar distraído em passeio pelas paredes, podem continuar a apreciar-se todas essas fases extraordinárias, do desamarrotar das pétalas a libertarem-se do seu casulo até à transformação numa das mais belas flores da Primavera. E há ainda o trigo, as loiras e maduras espigas a sugerirem calor e fartura, os ramos de oliveira que abraçam para sempre os malmequeres. Por premonição talvez, ou por vê-las a voar em volta de casa, pintei também uma rola. Mal imaginava eu que hoje mesmo, ao terceiro  Dia da Espiga que aqui passo, pudesse reconstituir o pórtico num quadro vivo.



8 comentários:

  1. Mesmo já de noite, Teresa, desejo que tenha dido um belo dia. recordar um percurso faz-nos sentir que fizemos caminho no encalce de um objetivo. parece-me cumprido, não?
    um beijinho,
    Mia

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    1. Que bonito o que escreveu, Mia. Eu gosto de não me esquecer do percurso que já fiz. Ajuda-me a prosseguir. Ainda há muito para fazer. Todos os dias é o futuro.
      Um beijinho

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  2. E está desvendado (se o não foi antes) o pórtico/cabeçalho destes atalhos. Que bonito e que excelente forma de assinalar o dia. :)

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    1. Olho clínico em alma sã, e sempre tão inteligente, luisa.

      Gostei tanto, e agradeço. :)

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  3. "Pinta primeiro uma gaiola
    com a porta aberta
    pinta a seguir
    qualquer coisa bonita
    qualquer coisa simples
    qualquer coisa bela
    qualquer coisa útil
    para o pássaro.
    Agora encosta a tela a uma árvore
    num jardim
    num bosque
    ou até numa floresta.
    Esconde-te atrás da árvore
    sem dizeres nada
    sem te mexeres…
    Às vezes o pássaro não demora
    mas pode também levar anos
    antes que se decida.
    Não deves desanimar
    espera
    espera anos se for preciso
    a rapidez ou a lentidão da chegada
    do pássaro não tem qualquer relação
    com o acabamento do quadro.
    Quando o pássaro chegar
    se chegar
    mergulha no mais fundo silêncio
    espera que o pássaro entre na gaiola
    e quando tiver entrado
    fecha a porta devagarinho
    com o pincel.
    Depois
    apaga uma a uma todas as grades
    com cuidado não vás tocar nalguma das penas
    Faz a seguir o retrato da árvore
    escolhendo o mais belo dos ramos
    para o pássaro
    pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
    e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
    Se o pássaro não cantar
    é mau sinal
    é sinal que o quadro não presta
    mas se cantar é bom sinal
    sinal de que podes assinar.
    Então arranca com muito cuidado
    uma das penas do pássaro
    e escreve o teu nome num canto do quadro."

    Jacques Prévert/Para fazer o retrato de um pássaro (tradução de Eugénio de Andrade)

    Daqui, consigo ouvir o arrulhar da tua bonita rola :)

    Um beijinho, querida Teresa :)

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    1. Que quadro maravilhoso... toda a delicadeza do acto criativo, esperar pela inspiração, prendê-la para a poder soltar, soltá-la para a segurar de novo.

      Eu já apaguei a gaiola, querida Miss Smile.
      Um beijinho; adorei este poema. :)

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  4. Está mesmo engraçado! Frescos de um fresco do Dia da Espiga. A rola-turca passou de croqui a esboço. Acho que ela já arrulhou, sinal de que podes assinar, assinar tudo.

    Tens razão. No campo, é muito importante trazer-se o meio natural envolvente para dentro de casa, tirando-se o maior partido possível desse diálogo entre o interior e o exterior. Não há separação, mas sim, integração, através das transparências. Aqui, nós optámos por fazer um pátio interior à volta do qual a casa se desenvolve, o que confere muita luminosidade a todos os espaços, mesmo de inverno. Posso dizer que as plantas com flor dão-se melhor dentro, do que fora de casa.

    Um beijinho ilustr(e)adora!

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    1. Foi um atrevimento de todo o tamanho, mas acabou por ficar engraçado. O projecto é pela casa toda, pequenos pormenores aqui e ali, borboletas em vota dos quadros de flores, barras em volta das portas com vários temas, um pintassilgo a voar em direcção a uma janela, enfim... acho que consegui sacudir um pouco a melancolia que havia por aqui. Também se cortaram os ramos baixos das árvores que envolviam a casa para se poder ver o horizonte e isso trouxe mais luz e alegria. É o reino da heterodoxia.

      Deves ter uma bela casa, Madalena. Adoro pátios interiores, dão tanta tranquilidade.

      Assino :)

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