Atalhos de Campo


10.5.16

a estética dos dias ensolarados

Ao fim de vários dias sucumbo ao peso da chuva como uma rosa ensopada. Procuro nos outros rostos algum fiapo de luz, mas em vão. Todo o jardim começa a dar mostras de tristeza e cansaço. As flores tal como os homens, não foram feitas para viver à chuva, ao vento, à sombra de nuvens carregadas. Percorro os canteiros um por um: lírios tardios são velhos raquíticos, a descompasso do tempo; anémonas arrepiadas (umas nem abrem), as outras colam as pétalas pegajosas numa ressaca despudorada, confessando gineceus envelhecidos; rosas, às dezenas, resistem estoicamente em metonímias de catálogo; malmequeres disfarçam decisões precoces com explosões perifrásticas; elipses de cravos crescem para o céu acreditando na matemática; velhos narcisos fitam ironicamente o umbigo pela última vez.  

14 comentários:

  1. Sabe, Teresa, às vezes venho aqui para descansar.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Foi para isso mesmo que fiz o jardim, Outro Ente.
      Obrigada e um beijo.

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  2. sabes, Teresa, eu também, venho aqui para descansar. e descanso.
    beijo

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  3. "Eu quero uma licença de dormir,
    perdão pra descansar horas a fio,
    sem ao menos sonhar
    a leve palha de um pequeno sonho.
    Quero o que antes da vida
    foi o profundo sono das espécies,
    a graça de um estado.
    Semente.
    Muito mais que raízes. "

    Adélia Prado/Exausto

    Depois de um dia de azáfama, junto-me ao grupo e, em excelente companhia, descanso...

    Beijinhos :)

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    1. Miss Smilenska, tem um banco climatizado à sua disposição para tirar as suas notas(não essas) de chá. :)

      Beijinhos; eu seguro no guarda-chuva. :)
      [Adoro Adélia Prado pela parte do prado].

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  4. venho aqui porque a paisagem é de cortar a respiração :)
    pronto, vou ver se vou embora e mando o bom tempo!

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  5. Ainda que triste, este jardim continua lindo e mais bonito ficará com uns raior de sol. É ele e nós :)

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  6. Contudo, e apesar da copiosa e persistente chuva, a temperatura diurna é suportável, o concerto do chilreio matinal é doce e convidativo. Há um pano de fundo primaveril que não engana. Há esperança, há vida por todo o lado, e o que não desponta agora, está morto para sempre. A Primavera continua a cumprir-se, desabrochando, exibindo-se, como nunca antes, ao sabor da têmpera. Corre o mês da graça de Maio, o mês da grande deusa mãe, o mês de Maria que antes de o ser, já o era.

    Um bom Maio para todos, e para ti que o honras a valer, no próprio e no figurado!:)

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    1. Apesar da chuva a temperatura faz a diferença, como referes, e continua tudo em compasso, à espera das boas abertas. Sejamos optimistas. Depois da chuva vai ser uma explosão de cor como nunca.

      Um bom Maio para ti, querida Madalena. :)

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