Atalhos de Campo


9.5.16

a canção do tédio



Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e prò fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que foi, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia,
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.

Álvaro de Campos/ Canção à Inglesa(1/12/1928)

4 comentários:

  1. Uns dias vamos com o sol, outros com a sombra.

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    1. É uma canção monocórdica, como o Ferrari à volta na pista. Há quem a faça de outro modo, mas é sempre circular, quanto a mim; e agora fizeste-me lembrar de uma praça de touros, sol e sombra.

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  2. Será que nessa viagem nada houve que o enriquecesse? Todas as viagens nos enriquecem se nós deixarmos :)

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    1. Neste caso, e acreditando que o poema/filme é fiel à história vivida por Sophia Coppola quando era criança, com o do pai, Francis Ford Coppola, a única coisa que se percebe que o enriquecia eram os momentos de ternura que tinha quando estava com a filha, verdadeiras centelhas a quebrar o imenso tédio.
      Quanto a Fernando Pessoa acredito que nunca tenha saído da pista, senão para dar boleia a algum heterónimo. :)

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