Atalhos de Campo


31.5.16

chinoiserie

as nêsperas são as lichias do ocidente

crítica dos homens*

nenhum animal é capaz de ser tão desumano como o homem

*(inspirado em a Crítica dos animais/ Nietzsche) 

à maneira de Fantin-Latour

Anónimo Séc. XXI
















versus

Temo que os animais considerem o homem como um ser 
da sua espécie que perdeu o senso comum animal de 
forma extremamente perigosa, como o animal alucinado, 
animal que ri, o animal que chora, o animal desditoso.

Nietzsche/ Crítica dos Animais
A Gaia Ciência 

30.5.16

memória. curta # 23

Uma vez, quando era adolescente, assisti a uma cena que me deixou impressionada. Ao atravessar de carro a estrada sinuosa da Serra do Buçaco(o que fazia o meu avô redobrar os cuidados na condução, e eu duplicar o enjoo), apareceu subitamente um carro parado na berma, atraindo a nossa atenção. Como o ultrapassámos vagarosamente percebi que a causa da paragem tinha a ver com a presença de um cão. O cão, que parecia em perfeito estado de saúde, estava sentado sobre uma manta em cima do capot, - Avó, veja aquele cão a comer!, e todos os quatro netos nos voltámos numa gargalhada, para assistirmos à cena circense de ver uma senhora a dar o almoço a um cão com babete, que abria a boca de cada vez que ela lhe estendia uma colher de sopa em direcção ao focinho. 

Sempre adorei animais, exactamente por não serem pessoas. Sabemos que em todos, sem excepção, e por muito ensinados que estejam, continuará a haver instinto, agressividade contida ou dominada, comportamentos imprevisíveis. Tentar antropomorfizar um animal é desrespeitar a sua condição diferente da nossa, é adulterar a sua natureza. Não se pode obrigar um animal a ser humano, visto que ele nada tem de humano, embora o homem reconhecidamente tenha de animal. Aceitando essa premissa talvez consigamos ser nós a aproximar-nos com êxito dos animais, e ao compreendê-los com inteligência, educá-los para que consigam manter connosco uma relação equilibrada e benéfica para ambos.

A Heidi era uma cadelita sem raça definida, malhada, de tamanho médio. Quando a consultei já tinha bastante idade, suponho que mais de quinze anos. Nos dois últimos anos de vida foi-lhe diagnosticada uma insuficiência renal grave. Muito perto do fim, a dona quis conversar connosco ponderando a eutanásia, por sentir a cadela em sofrimento. A função renal bastante diminuída foi minando o organismo da Heidi, que deixou de comer e de andar, na última semana de vida. Marcou-se então um dia e uma hora no fim do expediente das consultas para se proceder à administração intravenosa de pentobarbital sódico, a droga de escolha para o efeito, evitando assim que se prolongasse o sofrimento desnecessário daquele cão, que ao longo de dezassete anos tinha sido um amigo dedicado e uma excelente companhia.

Quando há estes procedimentos, a tristeza que se abate sobre o pessoal de uma clínica é enorme. Não é raro que toda a gente chore. Há sempre memórias que ficam, boas memórias, histórias engraçadas, empenhamentos e cuidados anteriores, operações bem sucedidas, urgências, salvamentos, partos, e tudo isso pode referir-se ao mesmo animal, ao longo de uma vida inteira. Enfermeiros e auxiliares dedicam-se tanto ou mais ainda do que o médico, a relação com o dono é muitas vezes mais próxima, mais simples e prática. Quantas vezes são eles que recebem um telefonema e transmitem um recado, que dão a resposta e mantêm o contacto. Portanto a Heidi era conhecida de todos e tinha conquistado o coração de cada um em particular, fazendo jus ao desenho animado de onde viera a inspiração para o seu nome.

Os proprietários não quiseram assistir. Entregaram a cadela muito enroladinha num cobertor, fizeram-lhe uma festinha e saíram, deixando tudo de lágrima no olho, e a Heidi morreu como um passarinho, que já era, e foi directa para o céu dos cães, porque tinha sido um bom cão na terra dos homens. Começámos lentamente a prepará-la para ser levada para enterrar, assunto que já tinha sido conversado anteriormente.

A surpresa veio de seguida, quando entrou pela porta das consultas um pequeno caixão de criança, em mogno, com um crucifixo na tampa, e a dona pediu que a colocássemos lá dentro. Mal refeita da surpresa e já me entregava uma chave para fechar de seguida o caixão. Confesso que fiz tudo isso contrariada. O caixão saiu da clínica com a Heidi dentro, num forro de cetim. Passados alguns minutos a senhora voltou atrás para pedir a chave, que tinha ficado esquecida sobre a bancada. É que antes de a enterrar quero abrir a tampa, para lhe dar um beijinho.  

tinteiros



29.5.16

natureza-morta com rosas e borboleta

Anónimo Séc. XXI 

consulta de mesa

há uma certa forma muito branda de nos esquecerem
o guardanapo deixado como um lenço
a sair do bolso da chávena fria  
uma frase intacta no pacote de açúcar
o último golo de água no copo de vidro
algumas migalhas imprecisas sobre um pires
a conta igual sob o cinzeiro vazio 
uma sombra muito breve na parede
a única cadeira livre à mesa da esplanada.  

27.5.16

vestígios



ele deixou-me
um certo jeito para o desenho
a única maneira que conheço de gostar de música
o silêncio sobre a resposta mais correcta
um corrector sobre o vernáculo
um ponto exacto no hemisfério sul
os sonhos trocados no hospital
a insegurança dos dias felizes
um medo exagerado da febre
umas chaves sem porta alguma
uma caderneta de cálculo completa
um mapa inacabado
um gesto firme e perdido 
um esboço de partida consumada
um telefone desligado no silêncio
uma certa forma de amar a benevolência
um lenço trazido ao pescoço da rota das sedas
uma silhueta conhecida e inatingível  
um sorriso antigo e confiante 
uma desconfiança notável perante conhecidos
uma dúvida melancólica sobre Deus
o trabalho como o único património garantido
um castigo de avanço na memória 
uma gaveta arrumada sobre nada 
uma falta imensa.

(27/5/1928 * 18/6/2013) 

prova de vida

estava morta, não teve dúvidas;
para que não houvesse provas apagou rapidamente a fotografia.

25.5.16

instrução primária

no campo aprendi a gerir os fardos, não as farpas.

encruzilhada

estive sempre numa encruzilhada,
mas nunca esperei.

O celeiro

O tractor continua o périplo entre a última cerca e o armazém, anunciando a passagem num rouquejar de esforço, com dois enormes fardos erguidos de cada vez, suportados pelos braços da pá. Sempre que passa pelo canil, os cães ladram, nervosos. As voltas são curtas e o caminho vai ficando sulcado pelos rodados sob o peso da aveia compactada; a volta do regresso é ligeira, o tractor segue veloz ao longo da sebe. Ao entrar na cerca, o tractorista escolhe o fardo melhor colocado para a manobra, apanha-o, depois dirige-se ao segundo fardo, coloca o primeiro sobre ele, recua, volta para apanhar os dois de uma vez, levanta a pá paralelamente ao caminho e segue, equilibrando o peso até ao armazém. Os fardos vão ocupando todo o espaço, do chão ao tecto, encaixados como tijolos de uma muralha de feno. É um ano de abundância, ouço dizer, enquanto reparo nos terrenos que foram ficando rapados em volta da casa, antecipando o pousio desértico do Verão. Há apenas um curto arco de silêncio entre as duas viagens. A partir de agora já pode chover.



homenagem aos pássaros

De manhã há um afluxo intenso de pássaros no céu.
Há até a temível hipótese de choque em cadeia por falta de visibilidade.
Uma pega cruza a janela, de luto velozmente aliviado.
Uma andorinha quase embate no mostrador branco pela afoiteza.
Há um estorninho que fecha as asas exactas sobre o ponteiro negro do cronómetro.
Minutos solenes voam para a meia hora.
Um picanço espera eternamente sobre a mesma linha telefónica.
Acordo com um arrulhar insistente e macio ao ouvido:
O cuco desistiu para sempre das horas certas.
Penas amarelas do peito confundem o céu cinzento. 
Pardais procuram ninho para quatro crias em várias avenidas.
Pintassilgos revezam rouxinóis nas madrugadas quase extintas.
Um corvo solitário sobre a terra consegue namorada para assunto pouco sério.
Há várias nuvens carregadas de bandos em voo. 
Jovens toutinegras esqueceram os barretes no recreio.
Todos cantam em grande algazarra.
Um milhafre, silencioso, observa.   

23.5.16

tal e qual uma omelete

primeiro um ajudante de cozinha, com o auxílio de uma gadanha, corta e reserva, ao sol;
dois ou três dias depois volta o mesmo ajudante munido de um enrolador, vira tudo com arte para deixar o maranho pronto, a aquecer em lume brando;
mais dois ou três dias em repouso e aparece finalmente o chef num grande tractor (com cabine climatizada e a ouvir música pop), arrastando a terceira alfaia, que aspira, inspira, enrola de novo, e, cheia de ares, compacta e divide a mistura em apetitosas porções que vai depositando harmoniosamente sobre a travessa da paisagem. 

Lembro-me de Anthony Bourdain (numa entrevista que deu há alguns anos) dizer mais ou menos isto: não há nada que encante tanto uma mulher como um homem que lhe saiba apresentar uma simples omelete bem confeccionada ao pequeno almoço, enfeitada com um pequeno pormenor... 



maranho


ninhos













































Foi na mesma Primavera, depois de vários dias de vento. Estavam ambos caídos no chão. Obras de arte e arquitectura. Palhas grosseiras como vigas a fazer a sustentação, enroladas e entrelaçadas, tectrizes a debruar a abertura, o interior revestido da mais suave penugem, quente e macia, a manter o centro sempre cálido, isolante, silencioso, na penumbra. Introduzo a mão fechada em concha no interior do maior, um ninho de pardal, suponho, e sinto-a a entrar numa luva, ou melhor, num regalo que me serve como uma luva. Um deles, de pintassilgo ou de um pássaro ainda mais pequeno, é uma miniatura construída com primorosa perfeição (de fundo tão sólido como vários assentos de cadeira de palhinha sobrepostos), parece ter sido rigorosamente adaptado ao espaço entre dois pequenos ramos. Estão limpos, sem vestígios de ocupação, sem fezes nem restos de ovos. Guardo-os como relíquias.




22.5.16

O ninho

























Escolhi vinte rosas brancas e vermelhas com o pé curto, cortei-as e trouxe-as do jardim com cuidado, dentro de um cesto. Dispu-las aleatoriamente numa taça com água fresca. Mas faltava qualquer coisa importante para que ficasse completo, qualquer coisa que simbolizasse esperança, boa hora, alvura, vida. Lembrei-me da pomba em faiança branca. Coloquei-a ao centro e voltei a pôr as rosas em volta. Reparei que tinha feito, sem querer, um berço perfumado de rosas e de paz, de pureza e de amor, e que durante todo o dia pensara na criança que está quase, quase a nascer. Só podia ser para ela. E para a mãe.

sem destino

Coloco o capacete, ajusto bem a presilha ao pescoço e subo para a mota. Em pouco tempo entramos na estrada. Gosto de sentir a velocidade. Fecho os olhos. Apetece-me partir para uma longa viagem. É na velocidade que os nossos corpos melhor se emparelham e se encaixam. São estes os momentos em que te entrego o meu destino.  

21.5.16

celestial



































































































quem me dera a ser a pedra*



o amor só pode ser isto, quem me dera ser (um)a pedra

a estaca

Não sei se sabes, mas as rosas pegam por estaca. Sabias... ? É deixar o pé mergulhado na água da jarra, e quando começam a aparecer umas radículas e os gomos a abrir, plantá-las com a terra bem apertada nas raízes, e esperar que... Ora, já experimentei, até parece que estão a pegar, e secam. Sim, secam, é o que geralmente acontece, pés que esperávamos, que tínhamos fé que pegassem, como aquelas velas que desejamos muito que ardam e a certa altura o pavio se esgota mesmo antes de chegar à parafina, aquelas rosas grandes que apareceram sem mais nem menos à nossa frente, mal abrimos a porta e, rosas, rosas... espera, como estas que tenho aqui guardadas, secas, rosas Kilimanjaro, sim, dessas que tu achas modernas, nunca consegui que pegassem. Mas estas, as da Bulgária, são tão antigas que continuam hoje a ser antigas, pegam assim, parece que foram feitas para esta terra e vêm de tão longe, ele dizia, o cigano por quem ela se apaixonou, quando lhas entregava pelas grades do portão, que eram de uma roseira do Vale das Rosas que crescera a partir de uma rosa roubada, por amor.    

20.5.16

as rosas da Bulgária


























Ela disse-me que aquelas eram rosas muito antigas, eram as rosas que 
havia nas quintas, há já muito tempo. Notei-lhe um certo tom depreciativo. 
Achei que para ela eram rosas que já não se usavam, rosas fora de moda. 

pente zero


































































































19.5.16

(o discurso) de o método* - de a arma biológica

1. Ao constatar a quantidade de cereais que come um borracho de rola turca (o meu filho adoptivo); 2. Ao recordar que são relativamente recentes (só existem em Portugal nos últimos vinte anos); 3. Ao verificar que agora são dominantes e se distribuem de Norte a Sul do país - sou obrigada a concluir, 4. que esta espécie pode bem ser usada como arma biológica. 

Desfecho: A mim atingiu-me irremediavelmente no coração.

(apupos/ arrulhos)

como papoilas no gramado



























































































































papoila


18.5.16

Deus

Acordo muito cedo e procuro uma das meias grossas com que durmo. Com ambas as meias calçadas deslizo devagar para fora da cama e enfio nos pés as chinelas marroquinas. Já no corredor acelero o passo, com esperança de ainda o encontrar vivo. A partir do meio da escada ponho-me à escuta. À medida que me vou aproximando do piso térreo, sinto cada vez com mais urgência a necessidade de distinguir a mesma respiração ruidosa que tomou ontem conta, a partir de certa hora, do lugar volumoso ocupado pelas Valquírias, em vez do silêncio premonitório da manhã. Deixo-o ficar como o encontro agora, com o antibiótico da última refeição e a gaiola coberta, impotente para fazer mais por ele. Com a luz já apagada reparo que o luar trespassa o estore de canas e a luminosidade fria que toca em tudo, toca também em mim. Não posso fazer mais nada. Volto-me e subo a escada devagar, com o assobio estertoroso a diminuir nas minhas costas, degrau a degrau. Procuro o pijama no escuro, e adormeço. Agora aproximo-me da gaiola, colocada sobre a conversadeira junto à janela, envolta no cortinado de seda bege. Verifico que a cortina, como a deixei ontem, parece um dossel. Mas não lhe consigo ouvir a respiração e preparo-me para o encontrar morto. Até o canto dos pássaros que chega do jardim me parece uma doce e melancólica elegia. Com excessiva cautela afasto a cortina para o lado da parede e espreito por baixo do pano de flanela com que cobri a cúpula, temendo que me apareça o pior cenário, que o veja esticado de patas para o ar e dedos crispados, as penas do pescoço eriçadas, o bico aberto fixando um último esgar de apneia, as pálpebras cinzentas descidas, a cobrir os olhos enevoados com o pudor da vida. Verifico que o fundo da gaiola está vazio tal como ficou, apenas coberto por guardanapos de papel. Voo com o olhar e as minhas olheiras aterram no poleiro, incrédulas. Mal me vê abana ambas as asas, ao mesmo tempo que me saúda com um piar bastante rouco. Sei que quer comer. O dia parece continuar ainda a ser iluminado pela lua. Apoiado sobre a janela, de vigília, um anjo pintado com as asas semi-abertas, olha-me para dentro dos olhos cansados, com ar trocista.