Atalhos de Campo


29.4.16

vai crescendo

Saio do hospital com um saco térmico equilibrado na palma da mão. Encontro uma ex-cliente minha, que vai a entrar. Fazemos uma festa. Fazemos perguntas seguidas uma à outra, com a urgência do momento. Ela quer saber se me dei bem com a decisão de mudar de vida. O que faz, pergunta-me. Eu abro o saco e mostro-lhe um filhote de rola. Digo que o salvei, que acabei de lhe dar uma refeição na casa de banho do hospital. Ela diz-me que no ano passado se salvou de um cancro da mama. Eu digo-lhe que fui fazer uma ressonância magnética aos pulmões e uma prova de função respiratória. Ela diz-me que não rejeita a experiência que teve, que lhe fez bem, que encontrou pessoas maravilhosas, que todos deveríamos passar por isso. Ela pergunta-me, com os olhos bem dentro dos meus, se estou bem. Eu respondo-lhe que aparentemente está tudo bem, pergunto-lhe pelos bichos, pelo filho. Dos quatro animais já morreram dois, mas eu vejo-os nitidamente, vivos. Depois digo-lhe que a planta que me ofereceu no dia da despedida se fez arbusto, que está agora em flor. Ela diz-me que ainda tem guardada a minha última mensagem, de há três anos. Eu lembro-me que a mensagem terminava dizendo que a minha vida profissional me tinha feito encontrar pessoas excepcionais, que ela era uma pessoa excepcional. Ela pergunta-me se ainda tenho o mesmo número de telefone. Eu respondo-lhe que sim. Ela entra, vai falar com os médicos, salvou-se, está feliz, repete, nada será como antes. E a última coisa que vejo é a Primavera inteira naquele corpo, como no de uma velha árvore, que sem saber morrerá a florir. 

18 comentários:

  1. Floresce-se com mais força depois de quase se ter morrido.
    (repetir que se está bem, no fundo dos olhos, também faz parte da cura)

    Beijos, Teresa, e um bom dia :)

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    1. Aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes, dizia Nietzsche.
      No fundo dos olhos acredito que sim. :)

      Beijos, Maria; tem um dia feliz.

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  2. tem um dia bom, Teresa.
    arrepiei-me com o que contaste. nem sei porquê...

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    1. Compreendo que tenhas sentido isso, ana; de repente, percebe-se que há tantas coisas para trás, e depois parece que tudo tem lógica...

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  3. Viver-se reconciliado, olhando a vida no fundo dos olhos, talvez seja apenas aceitar aquilo que ela nos dá. Somos o que a vida nos faz ser. Mas há pessoas que conseguem ser muito, muito mais...

    O teu filhote de rola do coração é adorável!
    [será que também posso ser madrinha deste? Já tem nome?]

    Um abraço apertado, querida Teresa

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    1. Somos também nós que fazemos a vida; acho isso todos os dias.

      O meu filhote está rol(iço)... pensei chamar-lhe Margot, em homenagem a Margot Fonteyn, mas é difícil determinar-lhes o sexo, mesmo em adultos.

      Um abraço apertado, Smilenska.

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  4. ... há tanta humanidade dentro deste ecrã, (soa estranho, bem sei, mas não sei escrevê-lo melhor), que, muitas vezes, quando aqui venho, sinto-me num lugar sagrado.

    gosto tanto da pessoa que está desse lado.

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    1. É curioso que eu também sinta tanto isso, do lugar onde vivo, que por vezes tenha necessidade de o mostrar.

      e eu gosto tanto que me obrigue a repetir que gosto de si.


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  5. Até nestas situações as pessoas 'especiais' têm comportamentos diferentes e também eles primam pela diferença. Faz-me confusão que certas pessoas depois de passarem por momentos tão dramáticos, como algumas que conheço e observo, nem isso as torna mais bonitas e humanas.

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    1. Esta é uma mulher extraordinária e muito inteligente. Nunca a vi tão bonita. Irradiava felicidade. Acho que se sentiu renascer. Podia já ter morrido sem eu saber, assim vi-a como sempre, ou melhor do que nunca. Uma vencedora, como aliás dela seria de esperar. Para mim, um exemplo colocado ali, no meu caminho.

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  6. És uma Tagik muito bonita. Cinco euros psicológicos para ti.
    :)

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    1. Vá lá, por momentos temi que me viesses roubar alguma coisa. :)
      تشکر!

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  7. Tudo toma um novo sentido depois de ver perto o fim. É como um renascer, uma nova vida.

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    1. A alegria com que me deu a novidade: salvei-me, desvalorizando o mal. Quando ela me disse que todos deveríamos passar por isso, achei que estava a ser generosa pelos parâmetros do que lhe tinha acontecido pessoalmente, por essa nova oportunidade.

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  8. Felizes os que se salvam!
    Saudações minhas!

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  9. Quando se adoece, grave e inesperadamente, e depois se recupera, aprende-se a relativizar muito mais. Acorda-se de e para a vida, da qual pensávamos estar seguros, erróneamente.
    De facto, o que não nos mata, torna-nos mais fortes. É uma espécie de iniciação, pela qual temos de passar. Vamos conquistando terreno, conquistando vida, muitas vezes dolorosamente, porque sucumbir, seria perder, perder-nos; seria comprometer o que nos cumpre.
    Pelas palavras da ex-cliente, percebi: Agora é que ela está viva.

    Beijinhos:)

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    1. Esta foi uma mulher que sempre viveu intensamente. O que ela pode é ter abrandado o ritmo para poder olhar para o que vale a pena, já que sempre me deu a ideia de que era sobre ela que tudo assentava, sempre. Há pessoas que não conseguem nunca dizer "não, agora é a minha vez". Talvez agora ela tenha conseguido, finalmente, dizer isso, para si própria.

      Beijinhos :)

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