Atalhos de Campo


6.4.16

Solidão (2)

(...)
A solidão não é um clima que se possa compensar ou destruir. Livros, imagens, o espírito das criaturas mortas, não dão qualquer conforto, apenas distraem. Estar realmente só não comporta uma distracção; é melhor mergulharmos na paz terrível de estar só, sem um único desejo, nem que ele signifique uma virtude.(...)

Agustina Bessa-Luís/ Natal completamente só

Vivendo assim como vos digo que eu vivia, nessa solidão, correm-se alguns riscos com a continuação. É inevitável. A partir do momento em que o ser humano está só, cai no desatino. Creio-o: acredito que a pessoa entregue a si própria está já atingida pela loucura, porque nada a faz parar, no surgimento de um delírio pessoal.

Marguerite Duras/ escrever

4 comentários:

  1. Sim, a solidão é outra coisa. Não lhe dou confiança. Quando ela me invade, eu não deixo que a tristeza e o medo me dominem, é disso que ela se alimenta. A solidão é uma ilusão. Olho a paisagem, o infinito do céu, a luz do sol, e penso na imensidão da multidão a que pertenço. Somos pertença, temos dono. Perante a minha impermanência, olho mais uma vez a permanência da luz, afinco-me às tarefas, sobretudo às que me dão prazer, e nessa acção, eu encontro-me com a minha verdade e a solidão esquece-se de mim.

    Com um beijinho
    Madalena

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    1. A solidão é estóica, Madalena. Nós é que a alimentamos, entretemo-la, afagamo-la, mas ela não precisa. É nela que reside o que criamos, no seu silêncio, na sua comiseração. Tenho mais medo dos homens do que da solidão. É mais previsível, quase uma amiga. Se calhar a tua verdade é mesmo isso, a solidão. Não a mascares e será perfeita.

      Um beijinho

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  2. Percebo, mas eu faço uma distinção entre solidão e ser-se solitário. O sentimento que assiste à solidão não é muito simpático. Tal como Duras diz, é perigoso quando uma pessoa está entregue a si própria, desligada dos outros, de tudo e qualquer coisa. Eu também sou solitária, tal como os da casa. Aliás como seria possível criar, sem o tão profícuo silêncio? Eu gosto de sossego, saborear o trabalho ao meu ritmo, mas conectada. E o convívio também é essencial, como contraponto. Rir, que é tão bom.
    Quando falo da minha verdade, não falo da arrogância da razão, isso seria uma enormidade, mas sim, do encontro com o que realmente somos e gostamos de fazer, o que é raro acontecer. Marguerite conseguiu encontrar-se com a sua verdade: Ser escritora. Talvez o mundo venha a evoluir por aí...

    Beijinhos

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    1. "Nunca estamos sós. Nunca estamos fisicamente sós. Em parte nenhuma. Ouvimos os ruídos da cozinha, da televisão, da rádio, dos apartamentos vizinhos e de todo o prédio. Sobretudo quando nunca se pediu o silêncio, como eu sempre fiz."
      Marguerite Duras/ escrever

      Beijinhos

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