Atalhos de Campo


17.4.16

portanto, não te espantes,

onde era o Belvedere, está agora uma chaminé de fumeiro com um pavão pousado; o gato amarelo veio sorrateiramente empoleirar-se no muro quente ao fim da tarde, mal viu que estava vago o lugar no colo de Klimt; na Karlskirche, onde ouvimos Vivaldi, canta agora descalça a Cesária Évora; aos Arcos de Henri Moore sobrepuseram-se as folhas das palmeiras do caminho; Vasco da Gama já não aparece gravado na fachada do Naturhistorisches Museum de Viena, e em vez dele está o muro da tapada dos rouxinóis caiado de branco com a primeira papoila deste ano; cresceram lírios azuis no lugar das pequenas flores roxas da jarra do bar do Leopold Museum, de que eu tanto gostei; o abraço de Klimt foi substituído pelo abraço que não demos ontem; Kokoschka e Egon Schiele, são agora as pinturas nas paredes desta casa, e o goulash à luz da vela é um bezerro cruzado de Holstein Red and White com um mês, a correr pelo campo; as ruas de Viena e Nova Iorque são os caminhos da quinta; Das Rheingold não é a fachada do Metropolitan Opera House: ouve-se aqui quando anoitece e o sol se desfaz no horizonte; Gutai, deixou de ser um movimento de arte gestual de Osaka, no helicoidal Guggenheim, e passou a ser o andar ondulante do gato preto, por entre a aveia; no Central Park crescem agora as túlipas que semeei e as cerejeiras que plantaste: em vez de um esquilo espreita-nos uma rola turca; já não há Ground Zero em Manhattan, mudou-se para o céu alentejano, reconhece-se  pelo alinhamento das estrelas, e na primeira rosa vermelha em botão;  no Blue Note toca logo à noite o Chet Baker, podemos ir a pé; Milà ensinou-me que as chaminés são os pericópios das casas, vê-se daqui, do sítio de onde saem as andorinhas de peito ardente; foi Gaudí que esculpiu aquele dragão no horizonte e depois chamou-lhe Batlló; no Parque Güell está uma colunata sombria de pinheiros mansos, e na bilheteira do Palácio da Música de Barcelona compraste bilhetes para um Nocturno de Rouxinóis ao fim da tarde, sob o imenso lustre dos freixos seculares; a escadaria do Museu Nacional de Arte da Catalunha é uma escada para o céu(ouve-se ainda a guitarra de Gaby Sellanes, quando um monte é Montjuïc); e a Sagrada Família é a palmeira morta crivada de esculturas, um plateresco de ninhos de pássaros... 

não te espantes, portanto: hoje fiquei com a certeza de que os jacarandás dão cachos de glicínias, quando percebi que há coisas que não se apagam.

14 comentários:

  1. em boa verdade, nada se apaga, algumas coisas apenas se transformam... :)

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    1. admitir essa transformação é dar espaço ao presente... :)
      (é uma lei; Lavoisier é que sabia)

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  2. Não sei como ainda me espanto com a beleza das palavras. Como estas. Mas espanto.

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    1. Que nunca percas essa capacidade, Cuca.
      É ela que te permite escreveres como escreves. :)

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  3. gosto muito mais do que é, agora.

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    1. ao apagar as imagens antigas apeteceu-me fazer uma viagem; e fiz.

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  4. Podem não se apagar mas olha, Teresa, pressinto que estão bem assim.

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    1. Embora estejam guardadas, custa-me apagá-las fisicamente, para ganhar espaço.
      A nossa cabeça é complicada, e não é só para usar chapéu :)

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  5. De facto, nada se apaga. Tudo o que somos e transportamos em nós, projectamos. O mundo é uma projecção nossa, de todos e de cada um, e para cada um, uma projecção diferente e única. Tudo o que vivemos e experienciamos se reflecte como um espelho, nas coisas, nos outros. Não tenho dúvidas que a diversificação das experiências, poder-nos-á ajudar a interpretar e a descodificar melhor, o que percepcionamos.

    Gostei deste texto, muito bem engendrado. Mas, também já não me espanto!:)

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    1. Eu também não paro de me espantar contigo, miúda gira.
      Sinto aí muita felicidade, e isso é bom. Um bom caminho esse teu.
      Os meus "projécteis" por vezes não são os melhores; há muitas feridas que eu não deixo em paz.
      Haja paciência. :)

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  6. Dizem que os posts são efémeros e os de ontem passaram à história. Seja. Sempre gostei de regressos. (E só agora tive oportunidade de ler com olhos de ser este post.) Há atalhos onde vale sempre a pena voltar. (Conhece a D. Tomasina-Cousa-Pouca?)

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    1. Não conheço de todo, Outro Ente, espero que não considere isso uma Hulkrrível falha minha.
      Não é a senhora Abóbora que antes era Cenoura, pois não?

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  7. Não é. (Quase tenho vergonha em dizer-lhe: é de um dos livros preferidos do meu petiz, da coleção do Pedrito Coelho. E... acho melhor ficar por aqui.)

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    1. Agora vai fazer-me comprar um livro infantil... para ler às escondidas.

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