Atalhos de Campo


24.4.16

ontem, roubaram-me um livro

Ontem não comprei nenhum livro. Apetecia-me, mas não comprei. Fiquei antes sem um livro, ou sem muitos livros. Os meus livros técnicos, todos, roubados e vendidos, ou dados. Uma biblioteca. Dei-os, disse o homem, ofereci-os a quem ficou com o equipamento. E vendeu tudo, o recheio de uma clínica. Não o conheço, nunca o vi. Deram-lhe uma chave, venda tudo, solicitaram. É assim que fazem os homens grandes, fiquei a saber ontem, homens enormes, com tanto poder que vendem o que não lhes pertence, à socapa. A pilhagem é o que acontece por vezes, quando acreditamos; e aconteceu. Na Polícia Judiciária ficou uma queixa escrita e assinada, mas, seja qual for o resultado, dentro de mim jamais se apagará esta terrível imagem de devassa, de intrusão, de furto pela calada, de receptação vergonhosa e conivente, de submissão ao dinheiro, de desonra. 

Fiquei, acima de tudo, sem um livro entre todos os livros, para que nunca mais esquecesse que o dia não era um dia qualquer, era o Dia de o Livro. Um livro que salvou vidas e que tinha uma dedicatória do meu pai, que me incentivava ao conhecimento e ao exercício do conhecimento, com dignidade. Recordei-me hoje da sua caligrafia elegante, perfeita. Vi-o com nitidez a escrever a dedicatória, inclinado sobre a folha de rosto; vi-o a colocar a data no fim, com os seus números desenhados de geómetra; vi-o depois a olhar para mim, orgulhoso e emocionado, antes de mo entregar. 

Não valemos nada: nem quem rouba, nem quem é roubado. Ontem, ao saber que fiquei sem aquele meu livro, e do modo ignóbil como o perdi para sempre, fiquei também com a certeza disso, do pouco que valho, em euros.

8 comentários:

  1. Não valemos nada em euros, mas valemos mais do que temos e o que interessa é o que somos. E, por mais que nos doa (e dói, sobretudo pela confiança traída, pelo abuso desse gesto), mais vale ser roubado do que estar na pele daquele que rouba. Esse não é nada.

    Um abraço.

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    1. Sem dúvida Princesa, esta foi mais uma pedra no meu caminho; mas é um consolo fraco, esse, de mais valer ser a vítima do que o criminoso. Vou lutar para que sejam punidos.

      Obrigada, Princesa e um abraço também.

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  2. Assim dói.
    Talvez possa ser recuperado. Não? Assim espero.

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    1. Eu duvido muito, luisa. Ainda me custa a acreditar. Parece um pesadelo.
      Obrigada.

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  3. Ao segundo parágrafo, emocionaste-me. Imaginei o teu pai, o tio Zé nessa postura que relatas. Lembrei-me logo do meu pai e das suas dedicatórias, sempre tão chegadas e carinhosas. Compreendo essa perda, bolas! Essas dedicatórias que trazem aquela aragem boa, aquele código único e verdadeiro; a fonte, onde nos faz tão bem, ir beber de vez em quando...
    Dedicatórias, o corpo da memória que afina os sentidos, e renasce, renasce...

    Concordo. Derradeiramente, valemos o que somos e só.

    Com dedicatória.:)

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    1. Inqualificável atitude. Quando penso nos meus livros... é tão triste.
      E aquele, em particular, é para mim uma perda inestimável. Foi uma espécie de presente de início de carreira, dado pelo meu pai.

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  4. Mas que triste situação Teresa, é como perder uma parte de nós, espero que encontrem quem o ou os responsáveis.
    Beijinho

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    1. Digno de investigação do Poirot...
      É tão estranho e triste GM; por muitas lágrimas que chore nunca chorarei o suficiente.
      Um beijinho

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