Atalhos de Campo


13.4.16

oferecer tempo & dar tempo

Oferecer tempo é subtil, pode vir dentro de um envelope, pode ser um presente. Oferecer tempo pode querer dizer, em vez de ficar no sofá, vou arrumar a cozinha; em vez de ficar mais tempo na cama, vou passear o cão; se estiver a chover, e não te apetecer ir, levo eu o lixo à rua; durante esta semana faço eu a cama, ou passo a ferro, ou aspiro a casa, ou limpo o pó; estás atrasada, vais chegar cansada, então estou preparado para fazer eu o jantar mesmo que esteja igualmente cansado, se me apresentares o comprovativo da minha intenção, porque percebo que o teu tempo também é precioso, e quero oferecer-te o meu. Pego num voucher de tempo e ofereço-to como presente de aniversário, em vez de um perfume. Selecciono uma lista de coisas que habitualmente não costumo fazer, ou que faço com dificuldade, ou que não gosto de fazer - tantas vezes disto, tantas daquilo, tantas daqueloutro - preparo-a com esmero e dedicação, com intenção de experimentar e cumprir, com empenho em me pôr no teu lugar, com vontade que me apareças com o cheque do meu tempo para que o descontes na minha vida (para quando não te apetecer fazer isto, ou aquilo, ou aqueloutro), e ofereço, é isso mesmo, levanto-me e faço, para que se cumpra a oferta, com penalizações pelo incumprimento, com multas em tempo, claro, e período de validade, porque o tempo também tem um tempo.

Isto é uma espécie de jogo que alguém inventou e comercializou, baseado na noção de um tempo que é precioso; foi um presente trocado entre um casal que eu conheço que copiou a ideia e a adaptou à sua realidade. Não sei qual foi o seu verdadeiro conteúdo, se funcionou em pleno, se foi cumprido à risca, como seria suposto para se consumar a oferta, ou se foi um bluff para ficar bem na fotografia e ganhar tempo. Não conheço a ideia original, só a cópia. A mim deixou-me a pensar na altura, e, confesso, bastantes mais vezes agora, nesse trabalho que se pode partilhar mas é oferecido em excepção, como um presente, porque é constantemente desvalorizado, menosprezado, maltratado. Basta pensar no ordenado de uma mulher-a-dias: paga-se-lhe o mínimo que se pode, porque se sabe da sua triste realidade: é um trabalho feito para logo se anular, por vezes sem cuidado nem respeito, porque ela volta para pôr novamente tudo em ordem. Mas são horas e horas nisto, e nós sabemos quando fazemos as contas e pensamos, ena, tantas! E são muitas mesmo, de facto; são tantas as horas passadas a colocar o mundo em ordem que nem damos conta do nosso próprio envelhecimento ao fazê-lo pela vida fora, dessas horas queimadas, irreversíveis, de trabalho silencioso que ninguém gosta de fazer, demasiadas horas gastas a organizar o mundo e o seu bem-estar, à conta da nossa própria entropia. 

De uma vida inteira que nos é dada para viver, sobra, afinal, muito pouco tempo, para comprovadamente viver. E é nisso que eu penso hoje ao dobrar o teu pijama, na minha perspectiva absolutamente feminina.  

12 comentários:

  1. todos os dias à noite eu tento rever o dia que passou, é uma espécie de meditação. há dias em que tenho dificuldade em lembrar como ocupei o tempo que me foi dado para viver.
    não é desperdiçado o tempo que passo a ler-te. Obrigada, Teresa.
    (a minha empregada ganha mais do que eu...)

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    1. ana, não me admiro nada que a tua empregada ganhe mais do que tu; não é uma casa cheia de rapazes? :)

      Escrevia Luís Pedro Nunes na revista do Expresso:"Então o que se passa? O problema não está na quantidade de trabalho que fazemos (nós homens, em casa), mas sim na incapacidade de imaginar a quantidade que os outros fazem. Neste sentido não só acabamos a desvalorizar o trabalho dos outros, mas, claro a hipersobrevalorizar cada vez que levantamos a bunda do sofá."

      Eu também valorizo o teu tempo *de dentro para fora*, ana.
      Obrigada.

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  2. Oferecer o nosso tempo a alguém é um sinal de compromisso. Oferecer o nosso tempo a alguém sem esperar nada em troca é um sinal de amor. Receber o que a vida inventou para nós e poder dá-lo a outros – e não me refiro apenas à família e aos amigos – é um privilégio e o verdadeiro sentido da nossa condição humana. Afinal, é isso que nos resta realmente depois de tantas horas, dias, meses e anos passados. A certeza de que o nosso tempo não foi em vão e que, na verdade, tudo o que oferecemos aos outros e à natureza oferecemo-lo também a nós mesmos. Porque os ponteiros do relógio dão a volta, mas regressam sempre a nós.

    Se eu estivesse aí contigo, teria todo o gosto em te preparar um chá aromático e em colocar-te sobre as pernas uma manta quentinha e, nas mãos, um livro de poesia. Ambas sabemos que a poesia cura todas as doenças, não só as da alma. Se preciso fosse, ralharia contigo e obrigar-te-ia a ficar sossegada e a descansar. Mas como não estou, espero que te rias um pouco a imaginar a nossa primeira "discussão": eu, a fazer “cara de má”, de mão na anca, a dar-te os raspanetes que, às vezes, dou aos meus filhos e, tu, agarrada às ferramentas de jardinagem a tentares escapulir-te pela janela :)
    Adorei o teu texto, como sempre :)

    Um beijinho, querida Teresa, e cuida-(me) de ti

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    1. O comentário de Miss Smile é tão ternurento e certeiro que nada tenho a acrescentar. Um beijo,
      Outro Ente.

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    2. Tens razão, Smile, é uma bela troca, essa do amor, e também a outra, a do trabalho. Mas deve haver uma maior consciencialização e respeito por essa dádiva, tanto num caso como no outro. O dinheiro não pode ser uma moeda de troca, se eu ganho mais, então faço menos em casa, ou não sei fazer, ou não tenho jeito, etc. etc. Cuidar é tido como muito feminino, nasce-se com o dom de cuidar, toda a gente sabe como as coisas aparecem feitas, as coisas delicadas, os pormenores, e isso são dezenas de horas de trabalho voluntário, mas que com o tempo se torna obrigatório. Posso dizer-te que nunca ninguém até hoje me "dobrou o pijama" e isso podes entendê-lo como uma metáfora. Esta nova geração tem talvez mais consciência disso, de um tempo que é precioso para os dois, para que cada um possa usar melhor o tempo que sobra como uma mais-valia da colaboração de ambos. Não gosto da palavra ajuda, já que pressupõe que é a um que cabe fazer e ao outro a disposição ou não para ajudar. Infelizmente, é muitas vezes a perda que traz o discernimento do colosso que está nos bastidores da organização de uma casa, por exemplo.

      E agora vou tomar o teu chazinho, para que não me ralhes mais, e pegar num destes livros de poesia que estão aqui à volta, sem os quais já não consigo viver. Se entretanto desaparecer é porque fugi para assistir ao pôr-do-sol. Um beijinho, querida Miss Smile, eu cuido-(te) de mim.

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    3. Querido Outro Ente,

      Aqui está em minoria... visto o assunto ser melindroso, os homens já fugiram todos. Mas como é valente (que eu já percebi), aguente esta, sem se encostar a Miss Smile:
      «A questão é que os homens estão realmente convencidos de que estão a ajudar mais do que na realidade estão. Ou seja: sobrevalorizam - e de que forma - o pouco que fazem. Lavar a loiça é - tendo em conta anos de inação total- um esforço muito maior"do que para alguém que está habituado a fazer essas coisas. Não estou a brincar.»
      Luís Pedro Nunes/Não se nota mas sou moderno
      Expresso, revista, 28/11/2015

      Estarão a fazer melhor e a tentar ser mais colaborantes em 2016?
      Duvido.

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  3. Penso que se aprende a valorizar o tempo, o "nosso" tempo. Acho que é uma questão que surge com a idade, com a maturidade. Passa-se a não prescindir de estar com que amámos face a muitas outras coisas.Primeiro os nossos, sempre :)

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    1. Valorizando o nosso tempo, como bem dizes, podemos dar tempo ao outro (e de alta qualidade).
      O jogo em questão aplica-se apenas a jovens adultos, que acham graça ao lado lúdico; espero que aprendam qualquer coisa, que joguem até ao fim.
      Boa-noite, Quarto Andar, e as melhoras:)

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  4. Em primeiro lugar espero que estejas melhor, Teresa. Mas com todos aqueles cuidados sábios da Miss Smile, deves é estar já a plantar mais gladíolos. :-)
    Conheço um bairro onde existe um banco de tempo. As pessoas oferecem tempo, por exemplo para acompanhar um idoso ao médico, e ficam com crédito de tempo, se um dia precisarem elas do tempo de alguém.
    O nosso tempo é o que de mais valioso podemos dar a alguém.
    Que belo post, querida Teresa.
    Obrigada.

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    1. [Vou a uma consulta de pneumologia; finalmente decidi-me...]
      Esse bairro deve ser maravilhoso, e a ideia da troca de tempo por tempo é excelente. Voltámos finalmente a valorizar a troca, atitude sábia quanto a mim, sobretudo se adaptada ao século XXI, o nosso tempo.
      Também acho isso, que o tempo é um bem valioso, mas por vezes as pessoas que andam distraídas não notam. Quantas pessoas anseiam, apenas, por tempo... e está ali um gesto a seguir ao outro que é tempo "desse", um pérola, como aqui, com o que deixamos uns aos outros.
      Obrigada, querida Susana, pela tua boa companhia, pelo teu tempo.

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  5. O último parágrafo do texto resume quase tudo. Mas também já cheguei à conclusão de que independentemente das circunstâncias, devemos estabelecer prioridades, no que ao factor tempo diz respeito. Acabamos por perder demasiado tempo em tarefas rotineiras, rígidas, em detrimento do investimento nas nossas competências lúdicas, que tanto podem fazer por nós. Cada vez mais, eu vou tentando inverter a tendência.

    Um beijinho e as melhoras:)

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    1. Foi bem divertida esta caixa de comentários.
      Todos temos tarefas obrigatórias e aborrecidas.
      Tenho-as deixado para o fim, mas cumpro-as. No entanto esse esforço é sempre pouco valorizado.
      O jogo chama a atenção para esse tempo que se dá, e que é sobretudo uma pessoa que dá; que passa despercebido, mas que é o suporte da qualidade de vida do casal. Ao longo dos anos são muitos anos também.

      Beijinhos, Madalena(estou um bocadinho melhor, obrigada).

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