Atalhos de Campo


19.4.16

O triunfo da banalidade (1)



Eu pareço-me com toda a gente. Creio que nunca
ninguém se virou, na rua, para me ver. Sou a
banalidade. O triunfo da banalidade. Como essa
velha senhora do livro: O Camião.

Marguerite Duras/ Escrever



É velha. Todas os dias espera à beira da estrada, até apanhar uma boleia. Não é propriamente o destino que lhe interessa, mas sim falar. Mal entra nos veículos, começa a contar a sua história (sempre a mesma), mas nenhum dos condutores lhe presta atenção. Um camião de cor azul percorre a estrada, enquanto ela fala. Nunca é filmada, é como se não existisse, fisicamente. Não consegue dizer quem é, e não quer pensar nisso. Em sua vez, há uma voz-off sobreposta à imagem do camião que rola monotonamente na estrada, também ele um monólogo. Algures numa sala, à luz artificial, um homem uma mulher dialogam sobre essa outra mulher, dissertam para encontrar as razões que a levam a procurar uma cabine fechada, onde está um hipotético ouvinte, alguém, não importa quem, que aleatoriamente, ela obriga a que a escute. Conversam durante mais de uma hora sobre essa mulher, e o filme acaba sem nada concluírem. 

A mulher está só, como nós que apanhamos este camião azul todos os dias, à espera de podermos continuar a contar a nossa história, acreditando, por uma vez, que iremos encontrar alguém que a queira ouvir, que talvez nos entenda e se volte para nós, para finalmente nos ver.

8 comentários:

  1. o nosso camião azul é este, onde as palavras aproveitam para viajar, sem pagar bilhete :)
    tem um dia bom, Teresa.
    (eu entendo.Te)

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    1. É isso mesmo, ana. Não há cobrador, ou não deveria haver.
      Encontrar alguém que nos entende é uma maravilha, e é recíproco, neste caso.
      A mulher de O Camião, hoje seria uma internauta... :)
      Um bom dia também para ti(que começou bem, pelo que percebi).

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  2. Nao é facil Teresa, encontrar quem nos ouça. Todos querem é falar, não ouvir e atendendo a facto de que temos duas orelhas e apenas uma boca, temis de nos contentar. Também por isso existam tantas cabines por esta bloga fora... bom dia :)

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    1. Acho o mesmo, tal e qual, por isso Deus nos deu também dez dedos, neste caso para teclar. Ele lá sabia. :)
      Quem nos vai procurando é porque gosta de nos "ouvir", e o inverso também é verdade. Assim é mais justo.
      Olha, GM, eu gosto de pedalar contigo, aqui e na tua cabine.
      Tem um dia feliz. :)

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  3. Ou talvez a mulher precise do espaço fechado e estático da cabine para não deixar de ser. A sua voz ecoa perante uma paisagem sempre em movimento, que pode servir de metáfora para a passagem do tempo. Talvez a sua voz seja uma resistência contra a voracidade do tempo que tudo dilui e aniquila. A mulher não aparece, como se já não tivesse corpo. Só lhe resta a voz, o único elo de ligação da memória com o presente. Mas enquanto tiver voz e alguém que a ouça, sente-se viva, porque é a voz que materializa o ser.

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    1. Acontece muitas vezes que a ilusão vale como a verdade. Talvez que a metáfora da passagem do tempo tenha mais a ver com quem esmiúça a história do que com a mulher. A voz ficou, de facto, gravada sobre o tempo. A mulher não aparece porque não já não está no passado, é uma narradora de si própria. A voz pode ser como a música gravada sobre uma pauta, pode cantar-se sempre. A última frase que escreveste é muito verdadeira, ela precisa de contar para achar que viveu, mais para se ouvir do que para ser ouvida, mas para isso precisa da testemunha de alguém, que seja passivo, desinteressado.

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  4. Felizmente que temos os poetas, homens e mulheres como nós, a humanidade inteira, exprimindo o inexprimível, dando corpo e voz, existência, realidade, a todo um universo invisível, secreto e solitário. A cabine pode ser isso, o nosso pensamento, a nossa vivência interior, tão íntima e enclausurada, sepultada, à espera de encontrar um eco seguro, alguém que se reconheça.

    ...e aquele que o descobre, lê ou escuta, reflecte a imagem de um outro que existe em si mesmo, embora o desconheça.

    Renata Cordeiro

    Cada um de nós é uma cabine. Aqui viajamos todos na tua.:)

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    1. Feliz súmula encontrada para apresentar como briefing nesta viagem. :)
      Obrigada.

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