Atalhos de Campo


21.4.16

O triunfo da banalidade (3)

Em toda a minha vida só entrei em lares de terceira idade por dois curtos e espaçados períodos. Um deles foi há muitos anos, o outro recentemente. O tempo que medeia entre essas duas épocas de visita não me fez mudar de opinião quanto à ideia inicial com que fiquei: um lar é um asilo para velhos (na maior parte das vezes ainda hoje), um local onde uma pessoa velha decairá rapidamente, desenraizada e sem afecto, se não for acompanhada de perto pela família. Knausgard, fala da localização dos mortos nos hospitais, de como escondemos os cadáveres, de como os aproximamos da saída, do solo. Tal como fazemos com os nossos velhos, penso eu. Para mim torna-se óbvio que uma morgue não pode localizar-se num piso superior: porquê gastar energia a transportar um morto para o autopsiar num andar elevado e depois fazê-lo descer de novo, deitado numa maca, com o trabalho concluído? É uma questão de logística, mas também contabilística. Como nos lares; mesmo naqueles casos em que repetimos para nós próprios, agora está num lar, que é muito bom, para que consigamos viver em paz com a ideia. No entanto, esse colégio interno para velhos não é de todo natural. Para eles não há esperança de sair. Natural seria tê-los perto de nós, cuidá-los, amá-los, e podermos fazê-lo com as nossas vidas atribuladas. 

Não quero ir por aí, porque quero falar de um caso a que assisti, e que me comoveu. Aquele primeiro lar onde entrei era no centro de Lisboa, num prédio antigo, talvez pombalino, com vários andares. E o hall de entrada era o local dos moribundos. Um inferno dividido por tabiques, com grande parte do espaço preenchido por macas com velhos a morrer. Perto da saída. Suponho que os andares superiores estariam ocupados com as pessoas que eram ainda auto-suficientes e válidas, mas à medida que se descia, a gravidade dos casos ia aumentando, até ao rés-do-chão. Nesse período de que falei acima, entrei lá várias vezes e a horas diferentes. 

Em todas essas visitas me chamou a atenção a candura de uma velhinha completamente vestida de preto e muito bem arranjada. Esperava sozinha, como uma pluma abandonada num banco corrido. Era pequenina e mirrada, sem músculo nem gordura, pronta a não dar muito trabalho à natureza. Usava na cabeça um pequeno chapéu, também preto, rematado por um tule. A sua compostura era desarmante. As pernas, muito juntas e finas, terminavam nuns tornozelos ossudos que desapareciam nos sapatos baixos pretos e largos (há muito afeiçoados aos joanetes), onde os pés se aprumavam lado a lado, como duas pequenas molas, prontos a levantá-la do lugar. Segurava uma carteira pequena e também preta, enformada e leve, onde ambas as mãos magras nodosas e tortas pelo reumático, se apoiavam, aconchegando-lhe os lados. O peito seco e encovado refugiava-se na curvatura das costas. Mal a porta da rua se abria, o olhar arguto e fino que brilhava entre centenas de pequenas rugas, voltava-se em direcção às silhuetas turvas que entravam, e que ela tentava catalogar na memória. Num assomo de esperança e de equívoco, por vezes delirante, elevava-se ligeiramente, sustentando o peso do pequeno tórax na carteira assente sobre os joelhos, e esboçava um sorriso de expectativa infantil, mas depois voltava à posição de estátua perdida no tempo, alheia à confusão que lhe voava em torno do chapéu. Ela faz sempre isto, comentou uma empregada atarefada, satisfazendo a minha curiosidade sobre a velha senhora que eu nunca mais esqueci:
- Arranja-se todos os dias e senta-se no banco, à espera que a venham buscar. Mas desde que aqui está, nunca ninguém sequer a veio ver. 

14 comentários:

  1. Não gosto de lares (ponto)
    Gostei ainda menos do que li por ser tão real.
    E não me habituo à ideia de haver tanta gente má, indiferente e mal formada (ponto de exclamação)

    Desculpa, Teresa, mas este é um assunto que mexe comigo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nem eu. Felizmente nem num caso nem no outro eram pessoas da minha família.
      Este caso em particular impressionou-me muito. É um problema social tão grave.

      Exclamação aceite.

      Eliminar
  2. Triste e tocante. Isto dos lares é complicado. A mim impressiona-me muito. As pessoas deviam conseguir estar em suas casas. Percebo as situações complicadas e por vezes doenças difíceis de gerir. Continuo a achar que vivemos em um país que não cuida bem nem dos seus velhos nem dos doentes terminais. Acho que a maior parte de nós só o percebe quando é confrontado com as situações em sua própria casa.

    Beijinho Teresa

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Estou completamente de acordo contigo. Mas porquê o abandono?
      Um dia adoptaremos velhos... virá nas revistas e terá descontos no IRS; será que não há gente a precisar de um avô ou de uma bisavó abandonada num lar?

      Beijinho, Quarto Andar, ainda bem que não tens cave...

      Eliminar
  3. Respostas
    1. É Gabi. Passaram mais de trinta anos sobre esta história e continua tudo na mesma. Ou pior.

      Eliminar
  4. Também partilho da mesma opinião que tu, os lares são todos horríveis, sem exceção. Mas não culpo quem os dirige, culpo as famílias que colocam lá os seus idosos.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Penso que talvez haja "lares" que são autênticos hotéis, mas isso é para uma minoria das minorias.
      Sabemos que são raríssimos os casos em que as pessoas voluntariamente se "entregam" num lar. São lá postas à força e muitas vezes esquecidas. E tenho muita pena de o dizer.
      Beijinhos, nina.

      Eliminar
  5. Eu "adotei" alguns. Costumo ir a um lar, que fica perto de minha casa, conversar com eles. Tento ir uma vez por semana, porque mais não consigo. Sei que não é muito, mas sinto que eles gostam da visita e que ficam contentes. Vou ao sábado de manhã, porque as visitas da parte da tarde são reservadas à família. E eu sei que eles me contam coisas que nunca contaram à própria família. Eles não precisam só da família. Precisam de um bocadinho da vida de lá fora, de alguém que os ouça e que lhes faça perguntas que vão para além da medicação, das doenças e das formalidades inerentes à velhice. Eu trato-os com carinho, mas não com paternalismo. Gosto de os fazer rir (nem sempre consigo) e gosto de os fazer habitar os lugares onde já foram felizes. Às vezes, saio de lá com um nó na garganta e o coração apertado; noutras vezes, saio de lá verdadeiramente feliz, porque passámos um bom bocado juntos.

    Um beijinho, Teresa

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Teres essa disponibilidade, física e mental, é maravilhoso. Ainda bem que há abertura em certos lares para que isso aconteça. Acredito que te esperam religiosamente. Penso que já li qualquer coisa a esse respeito escrita por ti. Confesso que não sei se conseguia, mas uma coisa é certa, os mais velhos da minha família foram sempre e sem excepção apoiados por mim. Comecei cedo, e tenho continuado.

      Um beijinho, Miss Smile.

      Eliminar
  6. Que raio de estórias. Não gosto nada quando me conta destas. Um homem lê com agrado até ao último parágrafo e, aí chegado, quase se engasga. Agora, fica a dever-me uma das felizes.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mais de 1,90m é uma fasquia muito alta, Outro Ente; pensei que se aguentasse...
      Combinado, eu arranjo-lhe uma das felizes.

      Eliminar
  7. Apetece-me escrever isto: que pessoa linda és, Teresa. (e escrevi)
    E que história tão triste. Acho que eu também não me vou esquecer dessa velhinha. E vou contá-la às minhas filhas.

    Um abraço apertado, querida Teresa.

    E outro para a Miss Smile (pelo que escreveu no seu comentário). Admirável Miss Smile.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tu é que és linda, mas linda. Por tudo, pronto.
      A velhinha também era linda. Apetecia-me pôr-lhe uma papoila no chapéu.
      Gostei logo dela. As tuas filhas também vão gostar.

      Um abraço apertado, querida Susana, e outro para a Smilenska.

      Eliminar