Atalhos de Campo


20.4.16

O triunfo da banalidade (2)

É cedo. Apanhamos o camião. Observamos a paisagem através da janela. É Primavera. Os campos estão cobertos de um amarelo indistinto, quase uniforme, míope. O campo está lindo, comentamos, todo amarelo, até que o amarelo se torna banal e dormitamos. Numa paragem para esticar as pernas, avizinhamo-nos da berma para ver melhor, e aventuramos até uns passos, por entre as ervas. Pegamos na máquina fotográfica. Fazemos zoom, aproximando vertiginosamente amarelo dos nossos olhos. O que era indistinto atravessa a espessura da córnea, flutua num banho aquoso e morno, e tingindo-o, migra para uma câmara escura através da porta de segurança da pupila (que quase se fecha para se adaptar à penumbra do banho da fotografia); atravessa depois uma parede de cristal que o irradia  em feixes de impressões de amarelo para a retina, penetrando o cérebro. Agora vemos nitidamente. Aquilo que parecia uma pasta amarela a barrar o horizonte, é constituído por milhares de espigas paralelas, heterogéneas, compostas por pequenas flores brilhantes, emergindo da terra para o céu. Espantamo-nos, perguntamos o nome comum, depois investigamos sobre o nome científico.  

4 comentários:

  1. Este texto, leva-me a um paralelo, entre o ser humano e uma fotografia de laboratório à antiga, daquelas que se mergulhavam numa solução própria e a imagem ia aparecendo, definindo-se a pouco e pouco. Parece-me que à medida que amadurecemos, essa definição se vai tornando cada vez mais nítida. A nossa consciência alarga-se. Finalmente, começamos a saber o que queremos, e para onde vamos, e já não abdicamos de assumir com determinação a nossa própria natureza, sempre muito mais rica, em todos e cada um, do que o pobre politicamente correcto. Será certamente na descoberta dessa natureza, que os autores e poetas encontrarão o húmus do seu habitat.

    Lapidar a nossa própria natureza, como de um diamante se tratasse.
    Ametista:)

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    1. Enquanto escrevia pensava exactamente nisso, que as câmaras escuras de revelação se assemelham à anatomia do olho, daí ter estabelecido a comparação (embora livre, claro). O paralelo que estabeleces entre a nossa "revelação" à medida que amadurecemos é muito interessante. Também a revelação verdadeira pode ser mais "amadurecida", dependendo do tempo que a película permanece mergulhada no revelador, a tal ponto que pode obscurecer/amadurecer demais... Só tenho experiência de Rx, mas deve ser semelhante à fotografia.
      Da vida tenho mais experiência, a suficiente para me levar a "focar" o que ache potencialmente interessante, ou seja, o que é também aparentemente banal.

      O meu diamante está um bocado delapidado... ainda assim brilha como uma pedra-pomes. :)

      Vulcão.

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  2. Fizeste-me viajar. A natureza é fantástica e o olho que a capta também. Bom dia Teresa

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    1. Sem dúvida, estar atento é um privilégio. Faz-nos descobrir coisas maravilhosas com os olhos e processá-las dentro do cérebro. Um mundo que não acaba mais, que não se esgota. Atalhos e mais atalhos...

      Um dia bom para ti, GM.

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