Atalhos de Campo


26.4.16

O predador saciado (1)

Girassol rondava-me as pernas, miava baixo e olhava-me nos olhos enquanto se empinava para as festas. Supus que tinha fome, e que com aquele ritual estava a tentar persuadir-me a ir dar-lhe comida pela segunda vez. Nisto deu uma corrida e subiu ao pinheiro mais próximo. Chamei-o, com medo que atacasse os pardais - onde eu suspeito que estava empoleirado pelo menos um, dos meus protegidos - e virei-lhe costas, tentando ver se ele assim, desistia. Mas ele parecia muito entusiasmado, cravava as unhas no tronco da árvore, e, faiscando como uma flecha, progredia cada vez mais na escalada por entre as folhas, que como agulhas finas lancetavam o sol. Em cada novo patamar fazia uma pausa voltando-se para mim, para me olhar do alto e miar orgulhoso, dando-me conta da sua destreza. Olha, adeus, disse-lhe, virando a cara em direcção ao jardim. Foram segundos, o tempo suficiente para apanhar umas pétalas de túlipa caídas no canteiro, e quando voltei a olhar, já ele tinha saltado para o chão. Descobri-o pela ponta da cauda, que, como uma batuta irreverente no ar, orquestrava as ervas que debruavam a valeta de drenagem, perto do pinheiro. Segui-lhe então a linha do dorso, parcialmente oculta, e detive-me um pouco, aguardando no limite entre o sol e a sombra, atenta a qualquer movimento que viesse do ponto onde a cabeça de súbito desaparecia. Quando o chamei, apareceram uns olhos visivelmente contrariados, mas as patas pareciam incumbidas de tomar conta de qualquer coisa, que muito o interessava. Corri. A princípio não consegui distinguir nada, as pupilas estavam ainda presas na intensidade do sol. Ao curvar-me para o solo apareceram-me no campo de visão dois pequenos corpos, camuflados com a terra. Eram dois borrachos de rola-turca. Pareciam ambos mortos, mas, fixando bem o olhar, apercebi-me que havia um que ainda respirava. Perante aquela cena horrível o gato manteve-se imóvel, deixando-me resgatar o borracho ainda vivo. Suponho que deu uma patada no ninho para atirar as aves para o chão. Depois ficou a comer o cadáver da que já tinha morrido. A outra veio comigo, enrolada entre o meu corpo e a camisola de lã. Está viva, faz hoje 48 horas.

Voltei posteriormente, para fotografar. Reparei numa rola que saltava ansiosa de galho em galho e que de seguida voou para perto e se empoleirou no arame farpado da cerca, a olhar para mim. No mesmo local onde jaziam as duas pequenas rolas, restavam agora somente quatro grãos de milho. O gato estava deitado, de costas para o pinheiro, indiferente ao que se passava à sua volta.

6 comentários:

  1. afinal lá se foi a teoria das latinhas... arroz de rola, uma delicia! :)

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    1. Há quem diga que sim... eu nunca comi, e parece-me que nuca comerei. :)

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  2. Ó valham-me todos os santinhos, ainda se ao menos o Girassol não fosse tão lindo!

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    1. É um lindo predador, isso sim. E aqui é só subir às árvores... para ele é tão fácil.
      Acho que não faz mais vezes porque não lhe apetece...
      Beijinho, Ava, mãe de gato deve estar atenta. :)

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  3. Ohhh! Comecei a ler os posts fo fim para o princípio. Manias! Agora entendo, a caçada do Girassol, o salcamento e a foto do borracho. Espero que se salve coitadinho. Mãe de gato anda sempre em sobressalto :)

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    1. É isso mesmo, GM, filho gato é dotado de grande manha...
      Agora tenho também filho pássaro. Vamos ver como corre (papas de duas em duas horas).
      :)

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