Atalhos de Campo


18.4.16

O peru, os pardais, e o bezerro (ou quatro histórias fatais com final feliz).

O peru morreu no Sábado. Foi degolado. Era um bom peru. Não me refiro ao gosto da carne que era suposto eu ter almoçado ontem. Refiro-me ao carácter. Ao olhar para o prato, o garfo e a faca, ao ver a carne cozinhada à minha frente, regressei ao pesadelo da infância, quando me diziam Come, com a galinha de estimação de fronte. Por mim, o peru morreria de velho. Consegui salvá-lo do Natal, mas desta vez não tive argumentos, a não ser dar-lhe uma injecção de analgésico, o que foi chumbado por ridículo. Teria entre quinze e vinte quilos; o peso era demasiado para os ossos. Há uns tempos começou a claudicar de forma severa. Sofria. Quando o homem inventou estes híbridos para perecerem cedo, sem querer, também lhes mexeu no carácter. Uma das peruas agacha-se para que lhe faça festas quando entro na capoeira, e só no fim é que come. É preciso alimentar a humanidade, dizias-me, há milhares de pessoas com fome. Sim, milhares de pessoas com fome que não comem peru. É preciso alimentar - a humanidade, repeti em silêncio. Não sei a que horas morreu, ou se estava suficientemente etilizado. 

Agora é que é, mais dia menos dia, tem que ser. Talvez inspirada no almoço recusado. Eram seis horas da tarde. Sentei-me a tirar fotografias às flores. Olhei para dentro de casa. Eram horas de soltar os pardais para o seu recreio diário. Fui buscar a gaiola. Abri-lhes a porta, mas desta vez para o céu. O pardal mais novo saiu logo e voou muito alto, desaparecendo por entre a caruma de um pinheiro; o outro, o mais velho, mais gordo, mais ligado a mim, ficou lá dentro, como sempre faz. Depois também voou, para o mesmo pinheiro. Temo que me passem a olhar de alto por me descobrirem por entre as grades de casa, e percebam que os homens, afinal, também vivem numa gaiola. Depois entrei em casa com a gaiola, sem os pássaros. Pousei-a no chão da cozinha para a limpar. De seguida dirigi-me ao relógio de parede, abri a pequena porta de madeira, introduzi-lhe a mão no tórax, fiquei com o pêndulo na mão, e parei-lhe o coração.

Faz hoje um mês que a Flor pariu um bezerro, lindo. A Flor e a Horta escaparam ao lote que dentro de quinze dias marchava para o matadouro. O vaqueiro que as tinha amamentado a biberão, quando soube que éramos potenciais compradores de vacas, pediu que não nos esquecêssemos daquelas duas, que eram mansas. Vieram em bezerras, com seis meses. Foram inseminadas depois dos dois anos. Só a Flor ficou cheia. Nasceu um macho. No reino bovino os machos nascem com azar. Ontem colocaram-lhe um brinco. Foi ontem marcado com o seu destino.

Viver no campo é estar mais perto do princípio e do fim.

12 comentários:

  1. a Flor, deste lado, acena que sim. que viver no campo é estar mais perto do principio e do fim.

    um abraço forte.

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    1. uma flor vale muito mais do que o campo, quando nos cativa; aprendi isto com o meu primeiro livro.

      Um abraço, minha flor.

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  2. :)))

    (neste caso em concreto, está -redondamente - enganada! o Campo vale muito mais do que uma Flor. Muito mais. De coração -- ...céus, estou a ficar tão piegas... :b)

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    1. Eu estou de uma pieguice tremenda. O mundo fica melhor assim, cheio de piegas.:)
      Estou feliz por senti-la feliz, e por tê-la conhecido. É isso que vale a pena, nada mais.
      E digo isto pela parte da cabeça que é irrigada pelo coração.

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  3. Olha, eu viajei para o monte, agora mesmo, com o peru e as bezerras. Choro muito quando viajo para o monte, dá-me uma saudade imensa da minha bizavó que era tão pequenina que era capz de caber na tua gaiola de pardais.
    O monte está em todo o lado, mas hoje encontrei-o aqui. Se usasse rímel à prova de água não estava neste estado. Agora o que faço eu com as lentes de contacto todas pretas?

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    1. Fizeste-me rir, e olha que não apetece muito... há uvas pretas não há?
      És um amor de uva; as primeiras coisas que li tuas fizeram-me chorar, sabias? Estava a ler e a pensar, mas isto sou eu, como é que pode ser? Então deitei as lentes fora, o rímel fora. Só fiquei com os olhos e as lágrimas. E um dia também vou caber na gaiola dos pardais. Nessa altura espero que a minha neta (que vem a caminho) me visite e que diga essas coisas bonitas que tu tão bem sabes dizer.

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  4. Boa noite, Teresa.
    O peru, protagonista deste destino cruel, é o mesmo daquela nossa troca de palavras há um tempinho, não muito longe no calendário? Aquele sujeito emproado que conversava de alto com o dono da capoeira? Não teve vida longa, ao que parece. E o colega do bate-papo? Espera por melhores dias? Uma possível velhice, até ficar sem voz?
    Afinal, qual a razão da existência? É esta mesma: o princípio e o fim que, no relato feito, tem a bênção de trazer anestesia.
    Fiquei agora mais afeiçoada à imponência do falecido. Não havia de valer. O peso traiu-o. A vida campestre. tão cheia de melodias, pelo menos os pardais assim parecem dizer, agora que a gaiola está mais leve!
    Fazia-se um belo livro de histórias com estes parágrafos tão juntinhos, emparelhados com emoções e vidas distintas.
    Saio para ir beber um chá, pois, fiquei a pensar no sentido do texto.
    Um beijinho,
    Mia

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    1. Infelizmente, Mia, é o nosso herói da camisa aberta. Esforço a mais, está visto... na sedução das duas peruas. O galo reina, e é para ficar. É simpático; tive outro, antes deste, que atacava (muito agressivo mesmo).
      Os amiguinhos do ar tiveram mais sorte. Ainda não escreveram a dizer se chegaram bem; o céu deve ser bom.

      A vida é uma fotonovela, Mia. Vou continuando a contá-la. Quem sabe um dia se faz um álbum.
      Um beijinho.

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  5. E talvez a beleza da natureza resida precisamente na ideia que não há princípio sem fim. Pelo menos, é isso que as estações nos ensinam.

    Um beijinho, querida Teresa, e um dia feliz aí nesse teu pedaço de céu

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    1. Digamos que é uma beleza alegre e triste, com o céu por tecto e a terra por chão. É a verdade nua e crua, é o contacto com o nascimento e com a morte. Eu nasci para salvar, no fundo sinto que nasci para contrariar a natureza. Seria melhor que assistisse a tudo sem sofrer, como se fosse uma dádiva. É esse equilíbrio que ainda não consegui.

      Um beijinho, querida Miss Smile, e um dia feliz, com boas abertas. :)

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  6. Todos os fins nos trazem tristeza, mas uma coisa é certa Teresa, aí nesse monte tão bonito, a vida renova-se a cada dia que passa e isso acalma o coração. beijinho

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    1. Travaste mesmo em cima do meu coração, GM. É mais fácil quando estamos de passagem. Eu vejo pelas pessoas que nos visitam, encantadas com o que encontram; é uma arte saber esconder o pior. Mesmo assim vigiamos, para que não haja desgraças. Com animais há que ter o mesmo cuidado que temos com as crianças, ou quase. A vida vai andando, e ganha espaço.

      Obrigada pelas tuas palavras, ajudaram-me a pedalar para a frente, que é como andam as bicicletas.:)
      E muito sol, se possível.

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