Atalhos de Campo


10.4.16

O meu Viburnum opulus *roseum*

Estendeu-me o livro com um sorriso aberto. Reparei logo na capa invulgar, toda ela a fotografia de um arbusto onde realçavam pequenos novelos de flores muito brancas, como flocos de neve fora do tempo, suspensos em Primavera azul. Ao fundo estava escrito, Selected Diaries. E depois disse-me, tenha uma boa leitura. A capa é linda, deve ser maravilhoso poder ler estes diários; eu também gostava! Nos breves segundos em que ambas segurámos no livro, ela depositando-o nas minhas mãos, eu aceitando-o como uma preciosidade, Woolf deve ter aprovado a cumplicidade entre aquelas duas mulheres desconhecidas, que cem anos depois queriam ambas deleitar-se com a leitura do seu diário, como confidentes, quase amigas. Pelo meu lado deve ter transparecido um enorme contentamento por finalmente poder abri-lo devagar, acariciá-lo, inspirá-lo; era isso que diziam nos meus olhos, o sorriso e as mãos. Tenho-o neste momento aqui ao lado, e este último ano fiz-lhe um desafio: procuro os dias em que me lembro de Virginia e vou ao seu encontro muitos anos atrás, no parque de Richmond, nas noites de insónia da grande casa, nos dias do seu aniversário, no espaço entre as linhas de bela caligrafia no regresso ao silêncio, depois de um dia intenso de vida social londrina, para continuar Mrs Dalloway. Quanto à capa do livro tornou-se de tal forma inspiradora que pesquisei até encontrar o nome do arbusto(o que felizmente foi mais difícil do que encontrar o livro) e plantei um igual no meu jardim. Sei que me sobreviverá por muitos anos, numa epifania exultante de branco e perfume a cada Primavera, com o único e secreto desígnio de me ocultar, de forma perfeita, o sofrimento dos dias. 

2 comentários:

  1. Um desígnio justo. Que se cumpra sempre.

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    1. Havia aqui uma palmeira secular que morreu um ano depois de ter morrido quem a plantou.
      As árvores guardam bem os segredos.
      Obrigada, Cuca.

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