Atalhos de Campo


11.4.16

memória. curta # 20

Esta é uma história verídica, e uma história só possível por causa da colaboração concertada entre pessoas que gostam de animais. Sabemos pouco, sempre pouco, mas quando queremos viramos o mundo ao contrário, para tentar salvar. Esta é também uma história de coincidências. Lembrei-me dela porque estou a tomar ao mesmo tempo um medicamento que salvou a vida a um gato e outro que o ia matando. O primeiro é a N-acetilcisteína, o segundo o paracetamol. Ao longo da minha vida clínica aprendi com a prática e com os livros; aprendi errando e acertando e experimentando. Aprendi com tenacidade, usando a intuição, investigando pela noite fora, sozinha, mas também com amor, com dedicação. Amar o que se faz é fundamental, é o que nos leva sempre mais adiante. Aprendi também observando, usando os sentidos. E quando aquele gato me entrou pela primeira vez no consultório percebi, de imediato, que ele estava a morrer; mas não morreu. 

Era um gato Siamês, ou pelo menos bastante Siamês. Fora acabado de adoptar, já adulto, numa campanha da União Zoófila. Os olhos muito azuis tinham perdido o brilho, salivava, o pêlo estava baço e por lavar, a apatia era visível na postura encolhida, indiferente, deprimida. Tivera uma infecção a seguir à castração, febre, salivação, vómito. No entanto as feridas cirúrgicas estavam bem. Ele estava cheio de febre, disse a dona, como era fim-de-semana dei-lhe o que tinha em casa, Ben-u-ron. Mas não melhorou nada, doutora, acho que até piorou. Agora vomita e recusa-se a comer. Hoje tentei dar-lhe outra dose, mas ele vomitou logo, por isso decidi trazê-lo cá. Coitadinho, estou tão preocupada! E os seus belos olhos, também azuis, tentaram esconder o engrossar de uma lágrima, que teimosa saltou para a marquesa, depositando-se mesmo ao lado do Soneca. Pus-lhe este nome porque só dormia, se calhar já vinha a incubar qualquer coisa. O Soneca estava visivelmente nauseado. Dois fiapos de saliva viscosa pendiam-lhe dos cantos da boca, acentuando-lhe o ar de infelicidade. Abanava a cabeça de quando em vez, sem grande convicção, para tentar libertar-se deles, que ficavam exactamente na mesma. O termómetro comprovava que agora já não tinha febre, que pelo contrário estava ligeiramente hipotérmico. Ao exame da boca detectei várias úlceras, que justificavam a dificuldade em se alimentar e a sialorreia. Ninguém tinha vacinado o Soneca e a sua vida de vadiagem em liberdade e má alimentação trouxera-lhe também uma virose, a causadora da febre. Mas mesmo sendo uma calicivirose, que era o caso, o Soneca era adulto, e não deveria estar tão prostrado. 

Sugeri tirar-lhe sangue para análises ao que a dona aquiesceu prontamente. O Soneca não ofereceu resistência quando lhe introduzi a agulha, nem tão pouco quando precisei de algum tempo para deixar que o sangue muito espesso e escuro fosse passando para fora da veia. Fiquei alarmada com a cor que ia colorindo o canhão da seringa, porque parecia que em vez de sangue lhe tirava chocolate derretido, intravenoso. Sugeri que ficasse a soro até ao fim da tarde e fui pesquisar o que poderia ter dado aquela cor ao sangue, que me pareceu ser o resultado de uma alteração da hemoglobina. Não havia a preciosa ajuda da internet, mas havia a minha bíblia em inglês, um livro chamado Ettinger que custara um mês inteiro de salário. E lá estava no índice remissivo, a associação do paracetamol com a alteração (reversível, felizmente) da hemoglobina, que pela acção tóxica do medicamento ficava impossibilitada de transportar oxigénio aos tecidos. Dizia também que os gatos eram altamente alérgicos ao paracetamol, e que 250 mg eram suficientes para matar um gato. 

Não havia na altura laboratórios especializados em medicina veterinária. Havia sim, gente ligada a análises de medicina humana cuja carolice levava a apoiar este sector. Falando com a analista pedi-lhe uma determinada pesquisa, ligada a esta alteração do sangue. Percebendo a urgência disponibilizou-se prontamente a ajudar. Ao fim dessa tarde já sabia que se confirmava a pesquisa que pedira; dizia-me, ao telefone, que encontrara dezenas de corpos de Heinz no esfregaço de sangue, confirmando o diagnóstico de envenenamento pelo paracetamol.

Apesar da alegria de chegar a um diagnóstico, ficava ainda o melhor lugar vago. O de salvar. Salvar faz toda a diferença, salvar é sorrir com o corpo todo e juntar-lhe a alma. A análise era só qualitativa e havia um pormenor importante: a dose ingerida em miligramas e o que isso poderia ter já lesado irreversivelmente os órgãos internos, nomeadamente os rins. Felizmente o segundo comprimido tinha sido vomitado, mas que dose fora de facto ingerida? Teria rejeitado algumas? As outras análises efectuadas tinham ligeiras alterações, que me pareceram de bom prognóstico e comecei a acalentar esperanças de salvar o Soneca. Agora era preciso tentar reverter a situação, administrando um antídoto. Na hora de almoço a marquesa onde tinha observado o meu doente era agora palco de consultas de outro género - vários manuais: medicina interna, urgências em envenenamentos, toxicologia, simposium terapêutico. Saltitava de livro em livro, aferindo doses, tentando escolher o melhor tratamento dos propostos, adaptando-o ao caso clínico em questão. Como já referi a N-acetilcisteína é o antídoto (de eleição) para este envenenamento, e curiosamente é um dos medicamentos que agora estou a tomar, não para evitar qualquer contra-indicação do paracetamol, mas como adjuvante ao tratamento de uma pneumonia. 

O Soneca esteve vários dias internado a soro, entre a vida e a morte. Era preciso dar-lhe a comida à boca, e o antídoto dissolvido em água. Três dias depois começou a melhorar e ao retirar de novo sangue para análises, verifiquei que voltara a circular vermelho e lépido, distribuindo o oxigénio porta a porta, com a anterior eficácia. As úlceras na boca foram cicatrizando e duas semanas depois o Soneca visitou-nos com uma coleira de flores ao pescoço e um guizo. Sentado na marquesa enquanto conversávamos, pegou na pata direita e passo-a pela orelha e pela cabeça até à ponta do focinho. Dando-lhe uma lambidela de seguida, voltou para nós os olhos muito azuis e eléctricos e fitou-nos longamente enquanto esperava, para mostrar que já estava curado.

Nota: A contra-indicação do uso do paracetamol em gatos está hoje amplamente divulgada. Mas a partir dessa altura passou a fazer parte dos conselhos aos donos, durante a primeira consulta.     

24 comentários:

  1. e agora apetecia-me abraça-la, querida Teresa.

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    1. um abraço apertado, querida Mammina de Corto Gatês.

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  2. http://afacanaocortaofogo.blogspot.pt/2016/04/blog-post_11.html

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    1. é lindo o Corto Gatês, flor, e tão querido! não se ouve aqui mas acho que está ronronar-me... Um gatinho adoptado, por certo, com aquele corte na orelha. Bem haja, Mammina boa.

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  3. Até se me parte o coração quando começo a ler estas histórias porque penso logo nos meus gatos. Mas tudo fica bem quando acaba bem.

    ( e a tua pneumonia?)

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    1. Na verdade não estou nada bem, agora que perguntas. Acho que vou ter que ir ao hospital.
      Sinto-me muito cansada porque não durmo há vários dias, com tosse.
      Obrigada pelo teu cuidado.
      Beijinhos, Ava.

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  4. Numa escadaria de parágrafos bem ordenados, reza, aqui, uma história de bem querer e de bem fazer. Teresa, essas memórias só nos trazem a certeza de que, nem sempre, a vida nos dá que pensar na negativa. Soneca, ou outro qualquer, em boas mãos teria sido sempre um privilegiado.
    Soube agora da tosse e da eventual necessidade de ir ao hospital. Avise por lá que precisa de mergulhar no descanso e nas boas memórias.
    Um beijinho e boa semana.
    As melhoras,
    Mia

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    1. Que sábias palavras Mia, todas. Só lhe posso agradecer. Por vezes seguimos atalhos sombrios e isso não é bom, mas é a vida. Gosto de escrever estas memórias, fazem-me reviver uma profissão que adorei ter.
      E é verdade que tenho que cuidar de mim. Tenho sido desleixada com esta situação.

      Muito obrigada, Mia.

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  5. Felizmente que o Soneca encontrou alguém que se interessou por ele e o salvou. Bem hajas Teresa, quem salva animais tem cem anos de perdão :) As melhoras. Beijinho

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    1. Muito obrigada pelas tuas palavras tão carinhosas GM; vou aproveitar bem o perdão. :)
      Um beijinho para ti.

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  6. Querida Teresa Borges do Canto,
    Precisei de tempo para ler esta sua história. Guardei-a para o serão. Agora, ao saber que se sente pior, lamento o atraso. Espero que encontre quem se preocupe consigo e a trate com os desvelos que usa para os demais.
    Um abraço,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,
      Aprendi há muito tempo que a vida se divide naqueles que tratam, nos que são tratados, e nos que relatam. Às vezes acumulo funções... hoje/ontem foi uma delas. O resto é ficção. Já cumpri a minha parte.
      Um abraço e uma noite tranquila.

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  7. Menina Teresa, está melhor? Chegou a ir "ser tratada"? (Se puder responder sem subterfúgios, agradeço. Gostava mesmo de saber das suas melhoras.)
    Bom dia,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,

      O meu pulmão parece um céu muito nublado.
      Obrigada pela sua preocupação.
      Quando estiver recuperada, não me vou esquecer de o avisar.
      Bom dia.

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  8. "Houvesse um sinal a conduzir-nos
    E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores
    A incomparável paciência de procurar o alto
    A verde bondade de permanecer
    E orientar os pássaros"

    Daniel Faria

    Tu aprendeste com as árvores.
    As melhoras, querida Teresa

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    1. "Carrega a água amotinada
      Nos olhos de Narciso, pequeno Sísifo,
      Pequeno pirilampo dentro do rochedo
      Pequena luz dentro do prodígio.
      Rola a semente, sossega nos socalcos
      A viagem sempre repetida

      De enrolares a pedra é redonda
      A vida"

      Daniel Faria/ Pedra de Sísifo I

      Querida Smile, eu vou melhorar.

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  9. 'Amar o que se faz é fundamental, é o que nos leva sempre mais adiante. ', sente-se em cada palavra tua.

    Põe-te boa, Teresa!´beijo

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    1. "Vejo o pedreiro à chuva a abrir aquedutos para o coração
      Vejo o pastor a alinhar orifícios na cana do junco
      Vejo os gestos do mudo dispondo o silêncio"

      Daniel Faria/ Do sangue

      Obrigada, ana. Beijo para ti.

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  10. Querida Teresa, fico contente. Vejo pelo trabalho dos posts, que o teu estado não deve inspirar cuidados de maior. No entanto, não facilites. O tempo está perigoso, furioso, embravecido! E as pequenas coisas arrastadas, mal curadas, podem transformam-se em algo mais sério. Se puderes, pára e deixa-te dormir, sem te expores. É meio caminho andado.

    Um grande beijinho com mantinha e cházinho de anis-estrelado.
    Pronto, já estás tratada. Até amanhã!:)

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    1. Já acabei o tratamento e não me sinto nada melhor, mas também fiz a minha vida praticamente normal. Até chuva apanhei... Vamos ver, tenho que ser mais cuidadosa; isto está a arrastar-se para além do que seria expectável, de facto.

      Gostei do anis-estrelado, é lindo , só de olhar cura. :)

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  11. Preciosa memória, feliz história. :)
    Eu que não percebo de gatos não vou deixar de passar essa informação do paracetamol a uma colega minha que tem três. Ela provavelmente sabe...

    As melhoras, Teresa. :)

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    1. É provável que sim, luisa, e ainda bem que assim é hoje. Na altura não se estudava essa afecção na faculdade, nem se falava nisso, mas já passaram mais de vinte anos. No entanto é sempre bom lembrar.

      Obrigada, luisa.:)

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  12. Digo como disse a flor, que tem sempre palavras certeiras: agora apetecia-me abraçar-te, querida Teresa.
    Adorei ler a tua história (tenho na família dois siameses - pertencem à minha mãe).
    E espero que a pneumonia passe depressa.
    Um beijinho, Teresa.

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    1. Obrigada, Susana querida. Para mim, qualquer elogio teu em relação ao blogue, é tão bom! Prezo muito as tuas palavras, como sabes.
      Lembro-me de teres comentado que a tua mãe tinha dois gatos, a propósito de uma orquídea que lhe ofereceste. Os gatos são terríveis para desencantarem coisas que lhes façam mal; todo o cuidado é pouco.

      Eu também espero ficar melhor em breve. Sinto-me tão cansada.
      Um beijinho, Susana, e uma boa noite para ti.

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