Atalhos de Campo


21.4.16

Lua quase cheia

Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?

Que vale a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?

O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.
E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.

Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas,
sem compromissos de viver.

Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e límpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noções de água e de primavera nas tranquilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.

Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.

Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite,
ao claro dia da humana vassalagem!

Cecília Meireles/ Doze Noturnos da Holanda/ 8

2 comentários:

  1. "Que valem as pálpebras da tímida esperança,
    orvalhadas de trêmulo sal?"

    O que vale a esperança? Talvez não valha tudo, mas vale alguma coisa. Haverá outra forma melhor de (re)construção que a esperança? Eu não conheço.

    [É tão bonito este poema de Cecília Meireles]

    Um beijinho, querida Teresa

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    Respostas
    1. "Aqui estou, junto à tempestade,
      chorando como uma criança
      que viu que não eram verdade
      o seu sonho e a sua esperança.

      A chuva bate-me no rosto
      e em meus cabelos sopra o vento.
      Vão-se desfazendo em desgosto
      as formas do meu pensamento.

      Chorarei toda a noite, enquanto
      perpassa o tumulto nos ares,
      para não me veres em pranto,
      nem saberes, nem perguntares:

      "Que foi feito do teu sorriso,
      que era tão claro e tão perfeito?"
      E o meu pobre olhar indeciso
      não te repetir: "Que foi feito...?"

      Cecília Meireles/Acontecimento

      A poesia da Cecília Meireles é muito nostálgica e pessimista.
      Acho que a beleza da poesia dela reside nisso.
      Muitas vezes a esperança morre mesmo. Está dentro de nós ou não está.
      Não podemos querer mudar o mundo, nem fazê-lo à nossa maneira.
      Há pessoas assim, são como são, há que aceitá-las.
      Se tivessem conseguido mudar o carácter de Cecília Meireles, ela não seria a extraordinária poeta que é.

      Um beijinho, querida Miss Smile.

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