Atalhos de Campo


5.4.16

comme une blague



Aqui, quando estou só, não toco piano. Não toco mal, mas toco muito pouco porque acredito que não posso tocar quando estou sozinha, quando não há nesta casa mais ninguém para além de mim. É muito difícil de suportar. Porque, de repente, parece ter um sentido. Ora, em certos casos pessoais, só a escrita tem sentido. Uma vez que a manipulo, pratico-a. Enquanto que o piano é um objecto longínquo, ainda 
inacessível e, para mim, sempre, tal. Creio que se tivesse tocado piano profissionalmente, não teria escrito livros. Mas não tenho a certeza. Também acredito que isso seja falso. Creio que teria escrito livros em qualquer caso, mesmo no caso da música paralela. Livros ilegíveis, contudo inteiros. Tão longe de qualquer palavra como o desconhecido de um amor sem objecto. Como o de Cristo ou de J.B.Bach - ambos de uma vertiginosa equivalência.

Marguerite Duras/ escrever

2 comentários:

  1. Tenho uma paixão assumida pela escrita dela :) fascina-me aquela falsa simplicidade :)

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    1. E eu, faz tantos anos; não escreve livros grandes... apenas curtas-metragens depuradas, limpas até ao essencial, ao que verdadeiramente importa. Os livros têm o silêncio das imagens; os filmes a solidão da escrita. :)

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