Atalhos de Campo


14.4.16

Chamam-lhe *doença do beijo*

O habitual espalhafato da minha chegada encontrou silêncio. Então o que se passa, avó? Chegou muito cansado e tem estado a dormir; nem quis lanchar. Tinha-se deitado no sofá da sala à minha espera. Pedro, chamei baixinho, mas ele manteve-se imóvel. Fixei-lhe então o rosto com ternura e fui descendo o olhar pelo desalinho das roupas que denunciavam grande brincadeira, os braços caídos aos lados do corpo tinham abandonado as mãos abertas, apanhadas de surpresa pelo sono. Um carrinho miniatura estava caído junto aos joelhos sujos de terra, e os atacadores, de nós parcialmente desapertados, serpenteavam pelas botas de biqueiras gastas. Comovida com a imagem do meu filho, fiquei ali parada um pouco mais, a vê-lo dormir, mas inquietou-me notar que umas olheiras fundas lhe desciam pelo rosto, retirando-lhe a habitual serenidade. Ao aproximar-me para lhe segredar ao ouvido que tínhamos que ir para casa, reparei que respirava pesadamente. Foi então que lhe pus a mão na testa e percebi que estava a arder em febre. Pedro!- voltei a chamar, mas ele mal abriu os olhos. Segurando-lhe o rosto bem em frente ao meu, pareceu-me notar-lhe o pescoço inchado, e acto contínuo abri-lhe o colarinho da camisa. Sem ele se mexer palpei-lhe os gânglios do pescoço, estavam enormes. Desabotoei-lhe então depressa a camisa, até conseguir ter acesso às axilas. Como duas pequenas batatas os gânglios axilares saltaram-me por entre os dedos; desnorteada puxei-lhe os calções para baixo, e os gânglios inguinais estavam igualmente enormes. E não foi preciso mais nada para ligar imediatamente à pediatra, com medo de já não a encontrar.

O meu filho está com uma leucemia, disse-lhe a chorar, tem os gânglios todos hipertrofiados, respira com dificuldade, e está a arder em febre. Ela tentou tranquilizar-me o que era intranquilizável, porque não havia uma única célula minha que não estivesse em pânico. Percebi que gaguejava e se emocionava também do outro lado, não vale a pena vir agora ao consultório, vá já fazer um hemograma ao centro Dr. Fernando Teixeira, ou vou telefonar para lá a dizer que vai, e quando tiver o resultado ligue-me, para conversarmos.

Nas horas seguintes senti-me enlouquecer. Peguei no meu filho e em minutos estava a fazer-lhe as análises. Apesar de estar muito doente era robusto e debatia-se, o que dificultava a colheita de sangue. Nunca mais me esqueço que amando-o como amava, naquela altura tive que o dominar à força, colocando-o entre as minhas pernas  e amarrando-lhe os braços com os meus, como tenazes, perante os seus gritos e lágrimas, que se ouviam pelos corredores fora.

Às dez horas da noite fora-lhe diagnosticada uma momonucleose infecciosa, provocada pelo vírus Epstein-Barr, um herpesvírus. Mudei-me para casa da minha avó nas três semanas seguintes. Nessa noite deitei-me e adormeci abraçada ao meu filho. Fora avisada de que a doença era altamente contagiosa mas para mim estava fora de questão deixá-lo a dormir sozinho. Tinha três anos.

Não é por ele que choro hoje, que felizmente recuperou, mas pela sua amiguinha de berço, quase da mesma idade, que morreu com uma leucemia. Naqueles dias e horas revi-me no desgosto, na impotência, na desgraça daqueles pais. A criança que nasceu para sofrer e que com apenas dois anos se despediu do pai, agarrada ao seu pescoço, e lhe disse, com a enorme inteligência dos anjos, que gostava muito dele, antes de lhe morrer nos braços.        

18 comentários:

  1. Às vezes a Teresa, com esse seu dom de apresentar os «enredos» por linhas e formas tão simples, tão claras e limpas consegue arrasar-me. Está a ver o impacto das suas fotografias? a nitidez, as cores reais, a limpeza do ambiente, a beleza generalizada. Está ver? O texto acima foi igual, mas com o efeito final contrário. Vim atrás do beijo e levo daqui a alma corroída.

    Um abraço.

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    1. "Nas ondas da praia
      Nas ondas do mar
      Quero ser feliz
      Quero me afogar.

      Nas ondas da praia
      Quem vem me beijar?
      Quero a estrela-d'alva
      Rainha do mar.

      Quero ser feliz
      Nas ondas do mar
      Quero esquecer tudo
      Quero descansar."

      Manuel Bandeira/ Cantiga
      Estrela da manhã

      Um abraço.

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  2. Li e reli o teu texto e não consigo dizer nada.
    Tenho um nó na garganta e o coração rasgado.

    Deixo-te apenas um abraço apertado, querida Teresa

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    1. A pergunta que faço é sempre a mesma: porquê?

      Um abraço apertado, querida Miss Smile.

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  3. Fiquei de coração apertado Teresa e não foi só de agora mas desde há alguns anos em que estive no hospital com meu mais velho, ele só tinha uma perna partida, mas presenciei vários desses horrores de que falas. Há imagens, palavras e lágrimas que nunca mais me sairam da cabeça.... Dói tanto. Abraço Teresa.

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    1. "Gostava de escrever sobre a dor. As diferentes cores da dor. Quando, no Hospital em Nova Iorque, todos os dias, o cancro levava os nossos meninos, eu olhava os olhos da Mary, enfermeira, mulher e anjo, e perguntava-lhe: «e a dor? onde a pomos?», sabendo que já não havia espaço para mais. No nosso coração, afectos, esperança, ilusão, apertavam-se, davam espaço, para que a dor, no meio, se aconchegasse, ombro a ombro, no mesmo plano, com o mesmo valor. Para o chão atirávamos a esperança, de seguida varríamos a poeira da fé. Às vezes estava tão cansado, tão cansado..."

      Nuno Lobo Antunes/ Sinto Muito

      Há dias difíceis, GM. O mal é pegar numa ponta e começar a desenrolar o novelo.
      Um abraço, tão agradecido.

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  4. Imagino a angústia, sai-se da órbita, até por muito menos, quanto mais... Para me apaziguar a mim própria sempre pensei: Bom, vou fazer o melhor que puder, e depois é esperar que corra tudo bem com confiança. Felizmente, há desfechos maravilhosos. Um colega da minha filha, cavaleiro profissional adoeceu em 2012 com uma leucemia mielóide aguda. Completou os seus 30 anos no hospital, onde permaneceu quase 1 ano. Era casado, tinha uma bébé pequena e outra a caminho. Curou-se, apesar de ter entrado em coma durante o segundo ciclo de quimioterapia, sem contudo ter tido necessidade de recorrer a transplante, como era esperado. Em 2015 voltou a ser pai desta vez de um rapaz, contrariando as estatísticas de infertilidade, pós-tratamento, e vive actualmente em Inglaterra com a família, trabalhando a sua paixão. Ele atribuiu a sua cura à força de vontade, crença e fé. Disse:"...nada na vida acontece por acaso..."Eu concordo. Teremos que interpretá-lo com o tempo.

    Querida Teresa, ainda bem que o teu bonito filho cá continua, são e salvo.
    Fica bem, beijinhos

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    1. Obrigada pela tua partilha, querida Madalena; nunca é demais saber de casos como esse que tão bem relatas. Há sempre esperança, mesmo no meio dos escombros. Penso que a vida foi benevolente comigo. Estou-lhe grata, e fico bem.
      Um beijinho.

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  5. Fiquei sem palavras...

    Obrigado por ter partilhado as suas!

    :)

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    1. Obrigada pela sua visita, Gil, e por este testemunho no *livro de presença*.
      Devolvo-lhe as (boas) palavras.
      :)

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  6. Vim pela mão do Xilre, Teresa.
    Não sei o que dizer, de tanto que tenho para dizer.
    Deixo um beijinho. E um agradecimento muito grande.

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    1. A mão do Xilre é uma mão boa. Quando ele diz, ali, eu também vou; hoje por exemplo já fui. Valeu a pena.
      Agradeço tanto as suas palavras, Linda.
      Um beijinho também para si.

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  7. É de todo impossível não nos comovermos com as palavras que traduzem a aflição de uma mãe. Não sou mãe, mas sou tia e fico sempre preocupada quando as minhas sobrinhas estão doentes. Estou longe de imaginar o sofrimento dos pais que perdem um filho.

    Um bom fim-de-semana, Teresa.

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    1. Escrever este texto foi para mim uma tentativa de catarse. Passaram já 30 anos e continua tudo muito presente. Suponho que não deve haver maior sofrimento do que perder um filho.

      Muito obrigada pelas suas palavras, deep, e o melhor para as suas sobrinhas.

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  8. É difícil comentar este post, Teresa. As palavras que poderia escrever ficaram entaladas com as lágrimas na garganta. Nem consigo imaginar o que sentiste. Só de tentar já dói.
    Um abraço apertado, querida Teresa.

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    1. Foram momentos extraordinariamente difíceis, de sofrimento concentrado, incerteza, medo. Depois veio a descompressão porque correu tudo bem; mas ao longo destes anos todos o luto pela outra criança manteve-se sempre. Nunca consigo pensar num caso sem me lembrar do outro. Nós tivemos sorte.
      Um abraço apertado, querida Susana.

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  9. No local onde trabalho há uma mãe que tem a filha de 7 anos com leucemia, internada no IPO.
    Não fazes ideia do turbilhão de sentimentos que tenho em relação a ela.
    É absolutamente doloroso, e triste.

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    1. Quando há assim alguém tão perto, ao nosso lado, tudo se avoluma, é impossível não nos metermos na pele do outro e sofrermos com ele. Seria até absolutamente egoísta que não o fizéssemos. É muito triste, Uva, como dizes.

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