Atalhos de Campo


9.4.16

As falas de Teresa (9)

João:

Posso esperar que esse oceano nos seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de sua geografia, sua história, sua poesia?

João Cabral de Melo Neto/ Os Três Mal-Amados



Hoje morreu um pássaro, um pardal, enquanto fotografava as glicínias. O perfume que exalavam e o reflexo da luz, no azul das flores, era quase hipnótico. Os cachos pendiam como estalactites mesmo à porta de casa, ao alcance da mão, podia aproximar a lente de cada flor, do seu centro. Estava concentrada a fotografar, quando ouvi uma pancada seca, do lado da parede de vidro que separa o alpendre do jardim. Quando acontece pelo lado de dentro, os pássaros fazem voos mais curtos e a velocidade é menor, mas quando vêm de fora podem embater no vidro com violência ao não reconhecerem um obstáculo transparente, confundindo-o com o ar. Fui a correr e vi que ele estava caído no chão, do lado de fora. Peguei-lhe. Tinha morrido. 

2 comentários:

  1. Querida Teresa, cá ando eu a passear pelo teu blogue. As ruas glicínias (ali em cima) estão - como dizes - capazes de (me) hipnotizar. São absolutamente lindas e os grandes planos que ofereces fazem quase doer os olhos de tanta beleza que por eles entra.
    Imagino que tenha sido muito triste testemunhar assim a morte do pardal. E que lindo pardal era (mas eles são todos lindos). Uma vez caminhava eu por uma rua de uma cidade holandesa. Por cima da minha cabeça esvoaçavam pombos. De repente, também se ouviu um baque surdo. Um dos pombos tinha voado de encontro à parede de um prédio, embateu com a cabeça e partiu o pescoço, caiu morto no chão. Aquilo impressionou-me e não foi só a mim, as pessoas que iam a passar rodearam o bicho, foi estranho e triste.
    Desejo-te um fim de semana cheio de cores, luz e alegria, se possível. Se chegares perto do Muzinhus diz-lhe que eu muuuundo cuuuuumprimentuuuuns, dizes? :-)

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    1. Que bom teres escolhido as "falas" para me deixares este presente e esta partilha. O perfume das glicínias é inebriante, o azul luminoso, sai-se de casa e leva-se uma fumigação boa para os sentidos.
      Foi um episódio muito triste, Susana. Morreu instantaneamente, mas para ele foi melhor assim, não sofreu. Nunca estarei preparada para lidar com isto, porque os observo aos saltos, com palhas no bico para fazerem os ninhos, em revoadas a levantarem voo, à conversa uns com os outros empoleirados nas árvores, a beberem água no lago, e sei que são muito felizes. Já consegui salvar alguns, inclusive doa boca dos gatos. Este foi um caso infeliz, uma morte estúpida; porém fez-me reflectir sobre a vida. Para um pássaro em pleno voo a distracção é fatal, como aconteceu com esse pombo, e a morte assim, súbita, aos nossos pés, é sempre brutal e inescrutável.
      O teu Muzinho já começou a interessar-se por mascar feno :)
      Bom fim-de-semana, querida Susana.

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