Atalhos de Campo


12.4.16

Ao *veterinário*

Há dias recebi um telefonema da minha melhor amiga. Então estás bem? Está tudo bem contigo? Foi a pergunta num leve tom irónico, mas não percebi logo a razão e perguntei porquê. É que fiz anos e não me telefonaste... Ela tinha feito o mesmo número de anos que eu tenho agora, o que para uma mulher é sempre motivo de júbilo(é uma brincadeira que eu tenho sempre com ela, que tem a mania que é mais nova) e desta vez eu nem me tinha lembrado disso. E da outra nossa amiga, a Teresa, meu Deus! Também me esqueci. Mas há mais. Este ano esqueci-me, até agora, do aniversário de toda a gente - exceptuando o do meu filho - nalguns casos com gravidade. Esqueci-me por exemplo do aniversário da minha nora, e o meu filho, a certa altura do dia avançado, telefonou-me e disse-me a N. faz hoje anos, está aqui ao lado e quer dar-te um beijinho( vergonha das vergonhas). Ontem a minha mãe ligou-me e a dado momento disse-me, é que faz hoje dezasseis anos que a tua avó morreu, e eu também não me tinha lembrado. E, no entanto, todas estas pessoas estão bem presentes na minha vida, tal como os animais, a música, a água, as árvores, que não precisam de dia, elas são na verdade todos os dias. Portanto acho que tenho desculpa, esfarrapada, mas merecida. 

Preocupada com estes acontecimentos fui à procura do dia em que parti o cotovelo esquerdo. Estava a jardinar. A meio da tarde fui regar e a seguir preparava-me para plantar uns gladíolos. Distraída bati com o regador cheio de água num banco de jardim em frente ao lago, caí desamparada, apoiando todo o peso do corpo no cotovelo que embateu com violência na calçada, e depois com a cabeça, sem hipótese de defesa alguma, do mesmo lado. Percebi logo que tinha fracturado o cotovelo, apoiei-o com a mão direita em concha e fui imobilizá-lo, usando uma tala para cão e um cinto; depois fui plantar os gladíolos. Faz hoje um ano que plantei aqueles gladíolos, que já voltaram a nascer. Era Domingo. Fui operada na terça-feira e tiveram que colocar uma prótese na cabeça do úmero, que estava irrecuperável, em estilhaços. Eu sabia que tinha uma fractura muito grave e fiquei preocupada. Se fosse um animal dificilmente recuperaria. Na primeira consulta de pós-operatório o médico disse-me, sabe, invejo a sua profissão, o que eu queria mesmo era ser veterinário, mas depois, pelas notas e uma série de condicionalismos optei pela medicina humana. Adoro cães, gatos, pássaros, cavalos, adoro animais, estou bem é no meio deles. E um sorriso franco, bom, simples, iluminou-lhe o olhar, completado por um gesto com ambas as mãos, um gesto triste. Reparei que eram longas, brancas, limpas, de dedos magros e hábeis. Ainda está a tempo, disse-lhe, a medicina veterinária precisa muito de bons ortopedistas. 

Mas era tarde para ele. São raros os casos que que os médicos confessam querer ser veterinários; o contrário é bem mais frequente. No entanto o problema reside em ambos os casos apenas nas notas: uns por impedimento, outros porque já agora.

Fiquei a cem por cento com apenas três sessões de fisioterapia. Acho que a verdadeira fisioterapia fui eu mesma que fiz, seguindo os seus conselhos, e, por ironia, um dos exercícios que fiz foi exactamente transportar quantidades crescentes de água para rega, com o mesmo regador. Agora nem me lembro que parti o braço, mas espero que isso não seja a prova conclusiva de que estou mesmo com falta de memória. Na última consulta disse-me sorrindo, visivelmente agradado ao mostrar a imagem  num Rx perfeito(daqueles dos livros), está recuperada, foi um sucesso. Mas o que ele não sabe é que aquilo que ele considerava óptimo ainda melhorou. É novo mas vai acabar como eu, a esquecer-se de quase tudo.  

11 comentários:

  1. Também preciso muito de procurar os dias. Esqueço-me deles cada vez com maior frequência. Dos dias de de outras coisas mais.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É verdade, mas depois há aquele filtro para as coisas verdadeiramente importantes; uma memória selectiva mas talvez também algo cansada. Eu vivo bem assim, mas não gostava de decepcionar os outros.

      Eliminar
  2. Recorda-se de, há tempos, andar toda a gente a postar "a melhor coisa que fiz por mim"? Na altura pareceu-me demasiado revelador e passei ao lado. Hoje, este post, recordou-me da melhor coisa que fiz por mim.
    Noite feliz,
    Outro Ente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não me lembro dessa onda, e sou pouco de ondas. Mas se aconteceu isso consigo, já valeu a pena o post: quer dizer que esta foi uma boa coisa que fiz por si, sem saber.
      Tenha uma boa noite, Outro Ente.

      Eliminar
  3. Olha, só te digo que terminar o meu dia no teu blogue é bom, tão bom ler-te.

    (achei de heroína, "entalar" o cotovelo e ir a seguir plantar flores... eu no mínimo desmaiava...)

    (e não te vou dizer o dia do meu aniversário, pronto) :-)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Logo a seguir não doeu muito, mas depois confesso que chorei de dor, sobretudo quando tive que fazer a TAC e esticar o braço; foi a pior dor que tive na vida.
      Agora já mereço que me digas o dia do teu aniversário, vá lá... o mês ainda consigo descobrir, já o disseste, mas o dia...

      Eliminar
  4. Eu costumo dizer que só tem mal, o que é feito por mal. Um telefonema sentido e apetecido, num outro qualquer momento, terá afinal cumprido o efeito desejado, tanto em si próprio como no destinatário. Um momento investido de sentimento e prazer que serve ambas as partes.
    Eu registo fácilmente datas de aniversário, números de telemóvel, etc. Por exemplo, julgo saber o teu, o da Ana, o da tua mãe, por correlações anteriores. Mas, não é importante. O dia do aniversário, é o dia em que nos lembramos das pessoas e as contactamos com o coração.

    Com amizade:)
    Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Este ano esqueci-me dos meses, dos dias; acho que me mudei para o passado, e venho jardinar ao presente...
      A verdade é que eu só tenho as datas memorizadas, não estão escritas em parte nenhuma, o que é mau, quando decidimos mudar-nos como eu, para uma época que já foi vivida. Espero que seja só por uns tempos.:)
      Penso que também memorizei o teu dia de aniversário, e por uma razão cómica: se não estou em erro fazes anos no mesmo dia que o meu ex-marido. Vou só adiantar o mês, depois me dirás se errei: *August*... after the wild Leo.

      Com bom astral:)
      Beijinho

      Eliminar
  5. Eu e minha irmã estamos sempre a brincar com essa situação pois os esquecimentos têm vindo a aumentar. Uma diz á outra. "Memofante!" E a outra responde "para quê? Esqueço-me de tomar" :))))

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ahahahah!...
      Estou a rir-me de quê? :)))

      Tenho que ir já à farmácia, mas não sei se quero lembrar-me de tudo... devia haver um selectivo, para os dias difíceis, género "Memofindo". :)

      Eliminar
  6. Ahahah, gosto, quando me fazem rir. Memofindo seria o ideal, se apagasse igualmente as sequelas. Programa desinstalado! Mas não, faz parte. Tal como na natureza, não podemos anular, mas sim, compreender, aprender e transformar, substituindo.

    Yes, You're right. And you - October:)*

    ResponderEliminar