Atalhos de Campo


30.4.16

anoiteceu



























É assim, creio que será sempre assim, porque é ainda assim, agora que vivo entre vinhas, em terra de nevoeiros matinais, e passeio quase sempre não de manhã mas no pino das tardes de Inverno ou, quando está tempo quente, no momento em que o sol cai para lá da encosta do vale e ilumina o cimo das árvores do outro lado com uma luz que só então, nesse momento derradeiro, parece porvir de um sítio e ter uma origem, o momento em que as árvores, bichos e homens suspiram de alívio com a chegada da noite.

Paulo Varela Gomes/ Moscovo e Hong Kong

juntar imagens

Encontrei um vidente
Que ultrapassava os matizes e os objectos do mundo,
Os campos da arte e da ciência, do prazer, dos sentidos
Para juntar imagens.

Não introduzas nos teus cantos, disse ele,
Nem a hora ou o dia enigmáticos, nem um segmento ou qualquer parte,
Introduz antes, como se fosse a luz para todos ou seu preliminar canto,
As imagens.

Sempre o obscuro começo,
Sempre o crescimento, o arco do círculo,
Sempre o cimo e a submersão final(para com toda a certeza recomeçar),
Imagens! Imagens!

Sempre o instável,
Sempre a matéria que muda, que se desagrega, que se recompõe,
Sempre as oficinas, as fábricas divinas,
Que produzem imagens.
Vede, eu ou vós,
Ou a mulher, o homem, ou o estado, conhecido ou desconhecido,
Nós, que parecemos construir a riqueza sólida, a força, a beleza,
Mas que realmente construímos imagens.

A efémera ostentação,
A substância do talento de um artista ou os longos estudos de um sábio,
O esforço do guerreiro, do mártir, do herói,
Para dar forma à sua imagem.
(...)

Walt Whitman/ Imagens

29.4.16

Passagem para a noite (21)






























Remar

vai crescendo

Saio do hospital com um saco térmico equilibrado na palma da mão. Encontro uma ex-cliente minha, que vai a entrar. Fazemos uma festa. Fazemos perguntas seguidas uma à outra, com a urgência do momento. Ela quer saber se me dei bem com a decisão de mudar de vida. O que faz, pergunta-me. Eu abro o saco e mostro-lhe um filhote de rola. Digo que o salvei, que acabei de lhe dar uma refeição na casa de banho do hospital. Ela diz-me que no ano passado se salvou de um cancro da mama. Eu digo-lhe que fui fazer uma ressonância magnética aos pulmões e uma prova de função respiratória. Ela diz-me que não rejeita a experiência que teve, que lhe fez bem, que encontrou pessoas maravilhosas, que todos deveríamos passar por isso. Ela pergunta-me, com os olhos bem dentro dos meus, se estou bem. Eu respondo-lhe que aparentemente está tudo bem, pergunto-lhe pelos bichos, pelo filho. Dos quatro animais já morreram dois, mas eu vejo-os nitidamente, vivos. Depois digo-lhe que a planta que me ofereceu no dia da despedida se fez arbusto, que está agora em flor. Ela diz-me que ainda tem guardada a minha última mensagem, de há três anos. Eu lembro-me que a mensagem terminava dizendo que a minha vida profissional me tinha feito encontrar pessoas excepcionais, que ela era uma pessoa excepcional. Ela pergunta-me se ainda tenho o mesmo número de telefone. Eu respondo-lhe que sim. Ela entra, vai falar com os médicos, salvou-se, está feliz, repete, nada será como antes. E a última coisa que vejo é a Primavera inteira naquele corpo, como no de uma velha árvore, que sem saber morrerá a florir. 

28.4.16

su(fixação)


























































































































lirismo

O que o lirismo ocidental exalta não é o prazer dos sentidos, 
nem a paz fecunda do casal. Não é o amor satisfeito mas 
sim a paixão do amor. E paixão significa sofrimento.

Denis de Rougemont

o ovo

Porque é que as pessoas gostam de publicar fotografias de comida? Eu detesto ver fotografias de comida. A maioria das vezes parecem vomitado. Só se deve publicar uma fotografia de comida quando ela for (a comida), no mínimo, uma obra de arte. 

No outro dia, numa cervejaria conhecida, trouxeram o meu bife com um ovo a cavalo. O ovo estava demasiado bem passado. Não o comi. No final da refeição disse ao empregado, este ovo não está igual ao da fotografia. Veio um senhor falar comigo, supostamente o gerente, dando a sugestão de estrelarem outro ovo. Recusei, exigindo um ovo inteiro, para levar para casa. Ele olhou-me incrédulo, depois eu expliquei, estou a brincar, é que nós temos sempre ovos muito frescos, não precisamos, deixe ficar assim, mas ele insistiu, vamos descontar o ovo na conta. Quanto vale um ovo? Nada. Mas um ovo bem confeccionado vale tanto como uma boa fotografia de um ovo bem confeccionado.

27.4.16

O arame farpado

*Há quem morra para ser amado, disse Apollinaire*

Um casal não sabe qual dos dois sobreviverá ao outro ou se ambos morrerão juntos. 
Mas o que sobrevive será sempre, não um enlutado, mas um delegado da morte. 
O amor que delega na morte chama-se eros.

Carlos Fuentes/ Aquilo em que acredito

26.4.16

Streptopelia decaocto


















































O predador saciado (2)









































































O predador saciado (1)

Girassol rondava-me as pernas, miava baixo e olhava-me nos olhos enquanto se empinava para as festas. Supus que tinha fome, e que com aquele ritual estava a tentar persuadir-me a ir dar-lhe comida pela segunda vez. Nisto deu uma corrida e subiu ao pinheiro mais próximo. Chamei-o, com medo que atacasse os pardais - onde eu suspeito que estava empoleirado pelo menos um, dos meus protegidos - e virei-lhe costas, tentando ver se ele assim, desistia. Mas ele parecia muito entusiasmado, cravava as unhas no tronco da árvore, e, faiscando como uma flecha, progredia cada vez mais na escalada por entre as folhas, que como agulhas finas lancetavam o sol. Em cada novo patamar fazia uma pausa voltando-se para mim, para me olhar do alto e miar orgulhoso, dando-me conta da sua destreza. Olha, adeus, disse-lhe, virando a cara em direcção ao jardim. Foram segundos, o tempo suficiente para apanhar umas pétalas de túlipa caídas no canteiro, e quando voltei a olhar, já ele tinha saltado para o chão. Descobri-o pela ponta da cauda, que, como uma batuta irreverente no ar, orquestrava as ervas que debruavam a valeta de drenagem, perto do pinheiro. Segui-lhe então a linha do dorso, parcialmente oculta, e detive-me um pouco, aguardando no limite entre o sol e a sombra, atenta a qualquer movimento que viesse do ponto onde a cabeça de súbito desaparecia. Quando o chamei, apareceram uns olhos visivelmente contrariados, mas as patas pareciam incumbidas de tomar conta de qualquer coisa, que muito o interessava. Corri. A princípio não consegui distinguir nada, as pupilas estavam ainda presas na intensidade do sol. Ao curvar-me para o solo apareceram-me no campo de visão dois pequenos corpos, camuflados com a terra. Eram dois borrachos de rola-turca. Pareciam ambos mortos, mas, fixando bem o olhar, apercebi-me que havia um que ainda respirava. Perante aquela cena horrível o gato manteve-se imóvel, deixando-me resgatar o borracho ainda vivo. Suponho que deu uma patada no ninho para atirar as aves para o chão. Depois ficou a comer o cadáver da que já tinha morrido. A outra veio comigo, enrolada entre o meu corpo e a camisola de lã. Está viva, faz hoje 48 horas.

Voltei posteriormente, para fotografar. Reparei numa rola que saltava ansiosa de galho em galho e que de seguida voou para perto e se empoleirou no arame farpado da cerca, a olhar para mim. No mesmo local onde jaziam as duas pequenas rolas, restavam agora somente quatro grãos de milho. O gato estava deitado, de costas para o pinheiro, indiferente ao que se passava à sua volta.

25.4.16

reflorir


Eu estava morto, mas era Abril,
e a glicínia estava aqui, reflorindo.



Maldigo os sentidos desses vivos,
para quem, um dia, nos séculos, voltará a ser Abril:
com as glicínias, com estes grãos lilases,
trémulos em filas carnais,
quase sem cor, quase, diria, lívidos...
E tão doces, contra os muros de argila
ou travertino, misteriosos como camomila,
tão amigos para os corações que com eles nascem.
Malditos corações, que tanto amo,
porque ainda não conhecem, não só
a vida, mas também o nascimento!
Ah, a vida verdadeira é ainda
aquela que será: virgem, a glicínia
deixa só para os nascituros o fascínio!
























Tu que, brutal, regressas,
não rejuvenescida, mas mesmo renascida,
fúria da natureza, dulcíssima,
matas-me, homem já morto
por uma série de dias miseráveis,
debruças-te para os meus abismos reabertos,
dás um perfume virgem ao meu eclipse,
antiga sensualidade, estilhaçada, piedade
apavorada, desejo de morte...
Perdi as forças:
já não sei o que é ser racional;
a minha vida decadente atola-se
na tua religiosa decadência,
desesperada por ver apenas
crueldade neste mundo, e raiva na minha alma.

Pier Paolo Pasolini/ Poemas




trans(lucidez)


























































































































24.4.16

receita biológica

não há nada que faça melhor ao ânimo do que passar
um dia inteiro a arrancar ervas daninhas. 

canção de embalar

ontem, roubaram-me um livro

Ontem não comprei nenhum livro. Apetecia-me, mas não comprei. Fiquei antes sem um livro, ou sem muitos livros. Os meus livros técnicos, todos, roubados e vendidos, ou dados. Uma biblioteca. Dei-os, disse o homem, ofereci-os a quem ficou com o equipamento. E vendeu tudo, o recheio de uma clínica. Não o conheço, nunca o vi. Deram-lhe uma chave, venda tudo, solicitaram. É assim que fazem os homens grandes, fiquei a saber ontem, homens enormes, com tanto poder que vendem o que não lhes pertence, à socapa. A pilhagem é o que acontece por vezes, quando acreditamos; e aconteceu. Na Polícia Judiciária ficou uma queixa escrita e assinada, mas, seja qual for o resultado, dentro de mim jamais se apagará esta terrível imagem de devassa, de intrusão, de furto pela calada, de receptação vergonhosa e conivente, de submissão ao dinheiro, de desonra. 

Fiquei, acima de tudo, sem um livro entre todos os livros, para que nunca mais esquecesse que o dia não era um dia qualquer, era o Dia de o Livro. Um livro que salvou vidas e que tinha uma dedicatória do meu pai, que me incentivava ao conhecimento e ao exercício do conhecimento, com dignidade. Recordei-me hoje da sua caligrafia elegante, perfeita. Vi-o com nitidez a escrever a dedicatória, inclinado sobre a folha de rosto; vi-o a colocar a data no fim, com os seus números desenhados de geómetra; vi-o depois a olhar para mim, orgulhoso e emocionado, antes de mo entregar. 

Não valemos nada: nem quem rouba, nem quem é roubado. Ontem, ao saber que fiquei sem aquele meu livro, e do modo ignóbil como o perdi para sempre, fiquei também com a certeza disso, do pouco que valho, em euros.

23.4.16

sintomas:

Rosalinda
Um rosto chupado, que vós não tendes. Olheiras cavadas,
que vós não tendes. Um espírito inquieto, que vós não 
tendes. Uma barba descuidada, que vós não tendes - mas
isso vos perdoo, porque, em verdade, o que tendes de 
barba é igual ao ganho de um segundo irmão. E depois
vossas meias deveriam ser descaídas, vosso chapéu sem 
fita, vossa manga desabotoada, vosso sapato desapertado,
e tudo mais em vós mostraria um descuido pesaroso. Mas
não sois tal homem. Sois antes todo minucioso no vosso
alinho, como se amoroso de vós mesmo, e não de mais
alguém.

William Shakespeare(23-4-1564, 23-4-1616) 
*À Vossa Vontade*

bavarder

publicar uma música (ou fotografia) pode bem ser um teste 
para percebermos quem nos quer verdadeiramente ver, ou o
atrevimento de nos revelarmos: é assumir publicamente, eu
gosto disto. É uma confissão sem palavras.

21.4.16

meu amor,

é que o coração, por vezes, enterra pioneses no cérebro.

Arabesque



























































































































O triunfo da banalidade (3)

Em toda a minha vida só entrei em lares de terceira idade por dois curtos e espaçados períodos. Um deles foi há muitos anos, o outro recentemente. O tempo que medeia entre essas duas épocas de visita não me fez mudar de opinião quanto à ideia inicial com que fiquei: um lar é um asilo para velhos (na maior parte das vezes ainda hoje), um local onde uma pessoa velha decairá rapidamente, desenraizada e sem afecto, se não for acompanhada de perto pela família. Knausgard, fala da localização dos mortos nos hospitais, de como escondemos os cadáveres, de como os aproximamos da saída, do solo. Tal como fazemos com os nossos velhos, penso eu. Para mim torna-se óbvio que uma morgue não pode localizar-se num piso superior: porquê gastar energia a transportar um morto para o autopsiar num andar elevado e depois fazê-lo descer de novo, deitado numa maca, com o trabalho concluído? É uma questão de logística, mas também contabilística. Como nos lares; mesmo naqueles casos em que repetimos para nós próprios, agora está num lar, que é muito bom, para que consigamos viver em paz com a ideia. No entanto, esse colégio interno para velhos não é de todo natural. Para eles não há esperança de sair. Natural seria tê-los perto de nós, cuidá-los, amá-los, e podermos fazê-lo com as nossas vidas atribuladas. 

Não quero ir por aí, porque quero falar de um caso a que assisti, e que me comoveu. Aquele primeiro lar onde entrei era no centro de Lisboa, num prédio antigo, talvez pombalino, com vários andares. E o hall de entrada era o local dos moribundos. Um inferno dividido por tabiques, com grande parte do espaço preenchido por macas com velhos a morrer. Perto da saída. Suponho que os andares superiores estariam ocupados com as pessoas que eram ainda auto-suficientes e válidas, mas à medida que se descia, a gravidade dos casos ia aumentando, até ao rés-do-chão. Nesse período de que falei acima, entrei lá várias vezes e a horas diferentes. 

Em todas essas visitas me chamou a atenção a candura de uma velhinha completamente vestida de preto e muito bem arranjada. Esperava sozinha, como uma pluma abandonada num banco corrido. Era pequenina e mirrada, sem músculo nem gordura, pronta a não dar muito trabalho à natureza. Usava na cabeça um pequeno chapéu, também preto, rematado por um tule. A sua compostura era desarmante. As pernas, muito juntas e finas, terminavam nuns tornozelos ossudos que desapareciam nos sapatos baixos pretos e largos (há muito afeiçoados aos joanetes), onde os pés se aprumavam lado a lado, como duas pequenas molas, prontos a levantá-la do lugar. Segurava uma carteira pequena e também preta, enformada e leve, onde ambas as mãos magras nodosas e tortas pelo reumático, se apoiavam, aconchegando-lhe os lados. O peito seco e encovado refugiava-se na curvatura das costas. Mal a porta da rua se abria, o olhar arguto e fino que brilhava entre centenas de pequenas rugas, voltava-se em direcção às silhuetas turvas que entravam, e que ela tentava catalogar na memória. Num assomo de esperança e de equívoco, por vezes delirante, elevava-se ligeiramente, sustentando o peso do pequeno tórax na carteira assente sobre os joelhos, e esboçava um sorriso de expectativa infantil, mas depois voltava à posição de estátua perdida no tempo, alheia à confusão que lhe voava em torno do chapéu. Ela faz sempre isto, comentou uma empregada atarefada, satisfazendo a minha curiosidade sobre a velha senhora que eu nunca mais esqueci:
- Arranja-se todos os dias e senta-se no banco, à espera que a venham buscar. Mas desde que aqui está, nunca ninguém sequer a veio ver. 

Lua quase cheia

Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?

Que vale a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?

O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.
E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.

Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas,
sem compromissos de viver.

Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e límpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noções de água e de primavera nas tranquilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.

Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.

Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite,
ao claro dia da humana vassalagem!

Cecília Meireles/ Doze Noturnos da Holanda/ 8

20.4.16

Passagem para a noite (20)


a décima segunda emenda

Este é um blogue de leitura: deverá também tentar 
ler as fotografias.  

O triunfo da banalidade (2)

É cedo. Apanhamos o camião. Observamos a paisagem através da janela. É Primavera. Os campos estão cobertos de um amarelo indistinto, quase uniforme, míope. O campo está lindo, comentamos, todo amarelo, até que o amarelo se torna banal e dormitamos. Numa paragem para esticar as pernas, avizinhamo-nos da berma para ver melhor, e aventuramos até uns passos, por entre as ervas. Pegamos na máquina fotográfica. Fazemos zoom, aproximando vertiginosamente amarelo dos nossos olhos. O que era indistinto atravessa a espessura da córnea, flutua num banho aquoso e morno, e tingindo-o, migra para uma câmara escura através da porta de segurança da pupila (que quase se fecha para se adaptar à penumbra do banho da fotografia); atravessa depois uma parede de cristal que o irradia  em feixes de impressões de amarelo para a retina, penetrando o cérebro. Agora vemos nitidamente. Aquilo que parecia uma pasta amarela a barrar o horizonte, é constituído por milhares de espigas paralelas, heterogéneas, compostas por pequenas flores brilhantes, emergindo da terra para o céu. Espantamo-nos, perguntamos o nome comum, depois investigamos sobre o nome científico.  

19.4.16

O triunfo da banalidade (1)



Eu pareço-me com toda a gente. Creio que nunca
ninguém se virou, na rua, para me ver. Sou a
banalidade. O triunfo da banalidade. Como essa
velha senhora do livro: O Camião.

Marguerite Duras/ Escrever



É velha. Todas os dias espera à beira da estrada, até apanhar uma boleia. Não é propriamente o destino que lhe interessa, mas sim falar. Mal entra nos veículos, começa a contar a sua história (sempre a mesma), mas nenhum dos condutores lhe presta atenção. Um camião de cor azul percorre a estrada, enquanto ela fala. Nunca é filmada, é como se não existisse, fisicamente. Não consegue dizer quem é, e não quer pensar nisso. Em sua vez, há uma voz-off sobreposta à imagem do camião que rola monotonamente na estrada, também ele um monólogo. Algures numa sala, à luz artificial, um homem uma mulher dialogam sobre essa outra mulher, dissertam para encontrar as razões que a levam a procurar uma cabine fechada, onde está um hipotético ouvinte, alguém, não importa quem, que aleatoriamente, ela obriga a que a escute. Conversam durante mais de uma hora sobre essa mulher, e o filme acaba sem nada concluírem. 

A mulher está só, como nós que apanhamos este camião azul todos os dias, à espera de podermos continuar a contar a nossa história, acreditando, por uma vez, que iremos encontrar alguém que a queira ouvir, que talvez nos entenda e se volte para nós, para finalmente nos ver.

As falas de Teresa (10)

João:
O arbusto ou a pedra aparecida em qualquer sonho pode ficar indiferente à vida de que está participando? Pode ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É possível que sintam essa participação, esses fantasmas, essa Teresa, por exemplo, agora distraída e distante? Há algum sinal que a faça compreender termos sido juntos, peixes do mesmo mar?

João Cabral de Melo Neto/Os Três Mal-Amados


Criei intolerância à morte violenta, à agressão gratuita; nauseia-me a ambição, repugna-me a maldade, desprezo a mentira. Isolo-me, fotografo sem cessar, escrevo no diário. Enfio-me dentro das imagens que capto, para que marquem bem as folhas. Estas são flores de ontem, à beira do caminho. Quando passares por aqui vais senti-las como pedras vivas, para sempre, mesmo depois de cortadas. Foram elas que tingiram os atalhos, como aguarelas dos dias, da solidão. Quero que fiquem. São o meu auto-retrato. Fomos peixes do mesmo mar, mas nunca conseguimos nadar juntos. Como poderia eu acompanhar-te, se o meu estilo é mariposa?  

auto-retrato