Atalhos de Campo


17.3.16

Vénus

1
Os ricos são magros
os pobres são gordos
nos hipermercados
o brioche
é mais barato
do que o pão
Maria Antonieta
tinha razão
foi no que deu 
a Revolução Francesa
(se não têm pão
comam brioche)


2
Estou gorda
e quero ser 
gorda
mas não quero
ser pobre
e não preciso
que me cortem 
a cabeça
Maria a psiquiatria e a poesia
deram-me uma cabeça nova


3
Engordei 43 Kg
de 86 para cá
agora
gorda como estou
já caibo
num quadro de Rubens
(segundo o Osório Mateus
no meu caso
era mais fácil
entrar para o quadro
de um pintor
que para o quadro
de uma empresa)




























Adília Lopes/A Mulher-a-Dias
Vénus de Willendorf/ Naturhistorisches Museum, Viena

6 comentários:

  1. "Deliciam-me as palavras
    dos relatórios médicos, os nomes cheios
    de saber oculto e míticos lugares
    como região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.

    Numa mamografia de rastreio,
    a incidência crânio-caudal seria
    um bom título para uma tese teológica.

    Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
    de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
    de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
    de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
    de Cesário.

    Mas nenhum(a) falou (ou fala)
    de mamografia de rastreio. Versos dignos
    só os de mamilo róseo desde o tempo
    de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
    enquanto deusa, só restaram óleos e
    mamografias de mármore."

    Inês Lourenço/Mamografia de mármore

    Há tanta coisa que não cabe num quadro ou numa poesia. E o brioche não explica tudo :)

    Um beijinho, Vénus da Planície :)



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    1. Gostei muito do poema; não conhecia a Inês Lourenço, tenho que procurar!


      "I was on land, but the land didn't belong
      to earth any more, was allowed to rest
      in floating patches here and there.
      The pavement rippled under my shoes.
      Everything I could see belonged to water:
      liquid churches, theatres, monuments, houses,
      liquid sun and sky. My hands wandered
      into water, cupped water. My face turned

      towards rainclouds. I could feel the membranes
      in my body tremble with the fluid
      they contain, and the stately flow of limph,
      the faster pulse blood. A boat's engine
      vibrated through land, through waves, through my feet
      into my torso. Slow- slowly moving, I stepped on."

      Jo Shapcott/ La Serenissima

      O brioche não explica tudo, de facto, mas lembro-me de um engano na conta do supermercado em que tinham cobrado por uma embalagem de brioches 70 contos, no tempo em que não se engordava com eles...

      E o que fizeste ao pobre do Manuel Hilário, que apareceu aqui todo amarrotado e com um passe-vite na mão? :)

      Um beijinho, Vénus de Göttingen

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  2. Como gostaste, deixo-te aqui mais um:

    "Muitas vezes, por outras casas
    e noutros países sonhava
    com o soalho antigo e a varanda
    onde um entardecer de plátanos
    enchia o peito de uma secreta
    ansiedade, sem motivo. O quarto
    da Mãe, esse lugar de mistérios
    fixara-se na sua memória, como
    um quadro de autor irremediavelmente
    perdido. Sempre que regressava
    minguava-lhe a coragem adiada
    para pedir aos ocasionais locatários,
    a permissão provavelmente estranha de
    uma visita. Um dia a velha casa
    debruçada sobre os telhados,
    apareceu-lhe quase demolida e agora
    avultava como um dente postiço, com
    uma loja de lingerie barata no
    rés-do-chão e um par de janelas
    com alumínio e sem mistério
    onde os plátanos, há muito ceifados
    pelo asfalto, recusariam entardecer."

    Inês Lourenço/Primeira casa

    Quanto ao nosso "enfant terrible", o Manuel Hilário, está a aprender a passar a roupa a ferro com o calor do próprio corpo. Eu já não passo mais nada. Essa de andar de passe-vite é, no mínimo, ridícula! Aqui se vê o perigo que representa o Homo Hilarius que não lê poesia - leva tudo à letra!

    Um beijinho, Vé(nus) [desculpa, mas esta foi o Manuel Hilário que escreveu com a sua bic]

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    1. "e ver-te
      verde vênus
      doendo
      no beiracéu
      é ver-nos
      em puro sonho
      onde
      ver-te, vida,
      é alto ver
      através de um véu"

      Paulo Leminski

      Mais um lindíssimo poema da Inês Lourenço (e este diz-me tanto).
      Obrigada, querida Miss Smile.

      Quanto "ao outro assunto", lá aquele que vê nus, está amarfanhado, coitado. Apareceu aqui com o M pingão, o "a" com a bainha por fazer, o "u" a escorregar-lhe pelo rabo, o "l" encolheu, depois dá um passo e o H está de banda, o "i" tem um borrão, e o "o" tão caído que já passou para linha de baixo, uma lástima, pobre homem. Hoje vou mandá-lo para a lavandaria, ainda por cima só repete passe-vite, passe-vite, le pauvre; pauvre homo hilarius, acusado de não ler poesia, ele que não larga a bi(hic)! por herbertus e al bertus, us. :)

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  3. É curioso que de então para cá, as vénus da história tenham afilado bastante, mas ao contrário, as vénus de carne e osso têm vindo a assemelhar-se cada vez mais à de Willendorf. É evidente que o brioche não justifica tudo, embora esse delicado sedutor, manhoso de balofo, seja capaz de armadilhar e induzir em erro qualquer uma. Nestas últimas décadas as vénus entregaram-se de corpo e alma ao prometido el-dourado, onde tudo parecia ser bom e fácil. Não tiveram muito tempo para pensar, só tiveram tempo para comer brioche. Esperemos que no futuro não sejam as Vénus e os David a servirem a economia cega, mas ao invés, seja a economia a honrar as Vénus e os David.

    A uma vénus de verdade:)

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    1. As vénus de carne e osso, agora, têm cada vez mais osso do que carne, não? Acho que as mulheres se cuidam cada vez mais, apesar de haver extremos, e as partidária do brioche serem bastante assumidas também. Mas no geral a elegância predomina sobre a obesidade. Gordura e formosura já não combinam e o arquétipo da Vénus, a deusa da fertilidade em forma obesa está definitivamente acabado, penso. Não deixa no entanto de ser uma bela escultura de apenas 11 cm, arrojada na sua opulência desnuda de há milhares de anos.

      De uma fã (não praticante) da Vénus de Willendorf :)

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