Atalhos de Campo


16.3.16

O Pagode Chinês

Era tão frequente jantar no restaurante chinês perto de si que costumava até brincar com isso, afirmando que um dia acabaria por se tornar cidadã honorária da China. O proprietário, respeitável senhor de sessenta e muitos anos, passava habitualmente pela sua mesa, onde jantava na maioria das vezes sozinha, fazendo-lhe um aceno de cabeça que ela retribuía entre a sopa de ninho de andorinha e o pato em prato de ferro. Certa tarde de Primavera adiantada, ao chegar ao trabalho, tinha o Sr. Chang à sua espera. Cumprimentara-o, achando estranha a cerimoniosa visita, e o senhor Chang estendera-lhe sem demora um convite, pendurado num sorriso e num aceno de cortesia, e, justificando a sua presença enquanto ela abria o envelope, foi dizendo que ia abrir um restaurante japonês e queria convidá-la para a inauguração. Não lhe apetecendo ir sozinha perguntou com algum constrangimento se poderia levar o filho. O senhor Chang ficou a pensar um pouco, e depois, muito concentrado, perguntou-lhe que tamanho tinha o filho. Achando a pergunta exótica (tinha sorrido à ideia de que seria porque ele poderia comer muito), quando respondeu que era grande fez um gesto com a mão direita colocando-a muito acima deles os dois, ao que o senhor Chang anuiu imediatamente, parecendo ter ficado contente. 

Mas não lhe apetecia ir, evitava o mais possível acontecimentos sociais, e até ao dia da inauguração teve que lutar consigo mesma para não pôr em causa a diplomacia do convite. Talvez por isso, e também porque imaginava um enorme buffet, acabaram por chegar atrasados. Mas afinal o jantar era formal, e enquanto ficavam à espera que os viessem sentar, reparou que o espaço tinha sido todo preenchido por mesas redondas, ocupadas, entre outros, por alguns ilustres portugueses e também pelos embaixadores da China. Foi porém com algum espanto seu que eles foram conduzidos para um palanque situado ao fundo, ao longo de toda a parede, cuja escada levava à mesa de honra, comprida e estreita, ocupada apenas por chineses e presidida pelo Sr. Chang, que com um sorriso os sentou nos lugares vagos a seu lado. Rodeados de atenções saborearam verdadeiras iguarias que não paravam de chegar em tabuleiros magnificamente decorados. E o Sr. Chang fez questão de ali ter o mesmo vinho que ela costumava escolher no outro restaurante, presenteando-a com essa surpresa.

No final da refeição apareceu o fotógrafo que tinha feito a cobertura do evento. Vai sair no jornal chinês, garantiu ao pedir que posassem ambos ao lado do Sr. Chang, perante os protestos dela, que acabou a sorrir para os flashes, acrescentando no fim, que assim sendo, exigia ver o jornal, ao que disseram que sim, que lhe fariam chegar um exemplar.

A verdade é que uns dias depois o Sr. Chang estava de novo à sua espera, desta vez com um jornal. E qual não foi o seu espanto ao verificar que ao virar da página lá estava a fotografia deles os três, sorrindo para a câmara. Divertida, pediu para ficar com o jornal para mostrar ao filho. O Sr. Chang, visivelmente embaraçado, desculpara-se dizendo que já só tinha aquele, tentando não lho dar, mas perante a sua insistência acabou por deixá-lo ficar. A legenda era em chinês, mas ela suspeitava que deveria ser algo como isto: «Empresário chinês de grande sucesso, estabelecido em Portugal, abre restaurante japonês; e em cima à direita, *O empresário, fotografado ao lado da actual esposa e do filho desta.»

Nunca se preocupou em averiguar se era mesmo o que parecia. O Sr. Chang desistiu de lhe fazer convites após duas recusas seguidas. Ela continuou a frequentar o restaurante chinês perto de si, mas não mais voltou ao japonês. E guardou o jornal.    

6 comentários:

  1. Querida Teresa Borges do Canto,
    É caso para dizer que ela ficou sem saber se corresponde, enquanto nós sabemos que não foi correspondido.
    Boa noite,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,
      É essa a vantagem da literatura sobre a vida.
      Boa noite.
      Ela.

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  2. A gabarolice não conhece nacionalidade, mas reconhece género. Desconfio.

    Muitas vezes, costuma ser assim. Digo-lhe a ela, com um beijinho amigo.

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    1. É verdade, às vezes escreve-se em mandarim, mas lê-se em qualquer língua.

      Eu dou-lhe, e tenho a certeza que ela retribui.

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  3. Post tão mas tão brilhante.
    Ainda estou a sorrir.

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    1. E eu agora fiquei com uma bacidez aguda, mas partilho o sorriso brilhante.
      Boa noite, Pirata.

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