Atalhos de Campo


18.3.16

o livro que ninguém quis

Contou-me que andava a fazer uma limpeza às estantes. Precisava de espaço na nova casa. Estão sempre a oferecer-me livros porque sabem que gosto de ler, mas são muitas as vezes que não acertam... por isso tenho algumas prateleiras repletas de livros que nunca lerei, e tenho ao mesmo tempo imensa falta de espaço, porque estou sempre a comprar mais, disse sorrindo o seu belo sorriso doce, de dentes muito brancos. E o peso dos livros, acrescentei, mudar de casa com caixotes de livros que não se vão ler, é, no mínimo, violento. Mas ela tivera uma ideia, que já estava a pôr em prática. Tinha feito um plano que a faria desembaraçar de todos aqueles livros com suavidade até à mudança, acrescendo a vantagem de sentir que estava a oferecer livros novos, a maioria de autores portugueses, alguns da moda, e a contribuir para a leitura. Acabei de fazer a minha primeira boa acção, recomeçou. Deixei um deles ainda agora na paragem do eléctrico à saída de casa, e trago aqui outro para deixar nesta, disse, retirando um volume do saco de plástico de uma livraria conhecida, para me mostrar o autor. Está novo!, exclamou. E de facto estava novo, mal tinha sido aberto. Despedimo-nos em grande animação, achei a ideia fantástica e fiquei com curiosidade de saber como estava a correr a doação de livros em paragens da Carris. Dois ou três dias depois não me esqueci de lhe perguntar como tinha corrido. Oh! Nem sabe o que aconteceu!, disse a rir. No dia seguinte o primeiro livro ainda lá estava!... Fiquei estupefacta. Como era possível? Tinha-se passado pelo menos uma, de várias hipóteses: ou os portugueses tinham ficado de repente todos muito honestos, ou já tinham todos lido o livro, ou o desinteresse pela leitura era um mal geral, ou era de facto do conhecimento da maioria que o livro era mesmo muito mau. Já não me lembro do título do livro mas sei bem quem era o autor. No entanto a minha amiga prosseguiu com o seu plano falhado, acreditando que um dia a sorte ia mudar. Não faço a mínima ideia de quantos terão sido rejeitados, quantos foram parar aos Perdidos e Achados, ou até se terá sido algum dia admoestada, por abandonar livros nos bancos das paragens dos eléctricos.

10 comentários:

  1. Eu não deixei os meus em paragens de autocarros (com aquele clima, coitadinhos, ficariam com as páginas coladas umas às outras), mas deixei vários caixotes de livros em Göttingen. Ofereci-os a amigos e doei-os a bibliotecas. Comigo, só vieram os muito especiais. Mas, às vezes, penso nos que deixei ficar para trás.

    Uma noite descansada :)

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    1. Como compreendo. Quando a minha avó morreu eu tive que ir desmanchar o quarto que era meu durante a faculdade. E aquilo que eu tinha guardado religiosamente já não cabia em lado nenhum. Por isso respirei fundo, separei só o que me era absolutamente imprescindível e, em sacos de plástico negros e enormes, sepultei o resto. Todo um passado. Fui muito elogiada pela maneira assertiva como resolvi o assunto, no entanto uma parte de mim morria ali. Esta ideia da minha amiga foi engraçada porque ela não estava ligada àqueles livros nem os queria, mas tinha alguma esperança que alguém os quisesse. O que fizeste parece-me o mais lógico quando se está ligado aos livros, mas fica sempre um vazio. Um livro nunca deixa de ser um livro.

      Uma noite a ler. :)

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  2. uma vez encontrei o 1984 numa paragem, já o tinha lido, mas como não o tinha, fiquei com ele... há formas mais simples de encaminhar os livros para quem realmente os vai apreciar...

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    1. Sorte a tua e do Orwell. É claro que há muitas maneiras de encaminhar livros...no entanto esta foi imaginativa, temos que concordar. Conhecendo a pessoa sei que nunca faria nada do que era expectável que se fizesse num caso destes. Suponho que se pôs no lado oposto e se imaginou a encontrar um livro que queria muito ter, mas que ainda não conseguira comprar. E isso é que fez este post, mas a história nunca saberemos. Ou terá sido ela que colocou o 1984 no teu caminho?

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    2. daria um filme do Iñárritu...escreve o guião.

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  3. Também poderia fazer http://www.bookcrossing.com/ :)

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    1. Eu sou uma mãe-galinha dos meus livros, mas é sempre bom saber que existem sites como esse. A pior coisa que há é desperdiçar um livro, quando se pode partilhar.
      Obrigada, luisa. :)

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  4. Tive de viver durante alguns anos separada dos meus livros. Quando finalmente os consegui reunir todos senti um imenso alívio, como se subitamente estivesse tudo em ordem. É estranha essa nossa relação com os livros.

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    1. Não ter os livros por perto é o mesmo que me faltar o chão. Carrego com alguns que nem eram meus, abandonados coitados...porém nunca passei por isso, felizmente. Mas os meus são meus, sou um horror, não gosto de ler livros de ninguém, e prefiro oferecer um livro a emprestá-lo, só para não ter que passar por uma devolução menos própria, ou por perdê-lo definitivamente de vista. Alívio, é isso.

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