Atalhos de Campo


24.3.16

monólogo da Páscoa velha

Velhice
é um modo de sentir frio que me assalta
e uma certa acidez.
O modo de um cachorro enrodilhar-se
quando a casa se apaga e as pessoas se deitam.
Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos,
a segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar.
Eu, que fui loura e lírica,
não estou pictural.
Peço a Deus,
em socorro da minha fraqueza,
abrevie estes dias e me conceda um rosto
de velha mãe cansada, de avó boa,
não me importo. Aspiro mesmo
com impaciência e dor.
Porque sempre há quem diga
no meio da minha alegria:
'põe o agasalho'
'tens coragem?'
'por que não vais de óculos?'
Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó,
quero o que desse modo é doce,
o que de mim diga: assim é.
Pra eu parar de temer e posar pra um retrato,
ganhar uma poesia em pergaminho.

Adélia Prado/ Páscoa

6 comentários:

  1. Querida Teresa Borges do Canto,
    Perdoe a intromissão, mas espero mesmo que tenha posto o agasalho. Está melhor? Aliás, estão melhores?
    Noite feliz,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,
      Na verdade pus tudo, o agasalho, os óculos e a coragem.
      Assim sou. Estou pronta para posar para o retrato.
      Vou agora tomar a coramina.
      A minha mãe está melhor, obrigada.
      Tenha uma noite feliz.

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  2. "Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
    Dormitando junto à lareira, toma este livro,
    Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
    Que outrora tiveram teus olhos, e suas sombras profundas;

    Muitos amaram os momentos do teu alegre encanto,
    Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
    Mas apenas um homem amou a tua alma peregrina,
    E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

    Inclinada sobre o ferro incandescente,
    Murmura, com alguma tristeza, como o amor te abandonou
    E em largos passos galgou as montanhas
    Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas."

    W. B. Yeats/Quando fores velha

    Se estivesses aqui comigo, dava-te uma braço muito apertado, daqueles que deixam uma lágrima no ombro. Como não estou, deixo-te na mesma um abraço apertado, daqueles que deixam uma flor de sal na imensidão das estrelas.

    Um Páscoa feliz, querida Teresa

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    1. "As pétalas da flor-seca, a sempre-viva,
      do que mais gosto em flor.
      Do seu grego existir de boniteza,
      sua certa alegria.
      É preciso ter morrido uma vez e desejado
      o que sobre as lápides está escrito
      de repouso e descanso, pra amar seu duro odor
      de retrato longínquo, seu humano conter-se.
      As severas."

      Adélia Prado/ Solo de Clarineta

      Um abraço ao sal, querida Miss Smile.

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  3. Que a luz vos ilumine, Teresa, e que o frio vá embora depressa!

    Beijo embrulhado num abraço

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    1. Querida Maria, com tantos mimos melhora logo tudo!
      Uma Páscoa quente e luminosa para vós também.
      Partilhemos o abraço; um beijo para ti.

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