Atalhos de Campo


31.3.16

memória. curta # 19

Chegaram radiantes de Itália. A Ana telefonou-me de imediato: Teresa, não te passa pela cabeça o que trouxe da viagem, disse-me, um casal de Carlinos! Foi enquanto estivemos em Verona que me encantei com um que vi a passear, perto da Piazza Bra. Perguntei ao dono onde o tinha arranjado e ele indicou-nos o canil. Só podiam ser um Romeu e uma Julieta, não achas? São lindos, sobretudo a Julieta, que ainda vem a tomar biberon. Lá consegui convencer o criador a deixá-la vir, só tem três semanas, mas é tão linda, vais adorar! E passada uma semana eu fui conhecer o casal dos pequenos Pugs, uns bonecos, como dizia a minha amiga: duas bolas macias de pêlo abricot, acabadas de acordar, foram-se desenrolando até aparecerem duas máscaras negras e perfeitas lado a lado, com as narinas muito bem desenhadas ao centro. Sobre elas uma prega minuciosa, fatta a mano, mais espessa ao meio e estreitando para os cantos da boca, separava o focinho, enrugado e mínimo, dos olhos redondos e afastados em cada extremo da face, que me fitavam, brilhando de curiosidade. No topo da cabeça, ligeiramente quebradas para a frente, as orelhas escuras e alerta já davam conta dos sons da paixão que lhes atribuíra os nomes. Compreendi, no mesmo momento, como era possível ficar horas perdidas a vê-los nas brincadeiras e incipientes rosnadelas, com o andar ainda titubeante a fazê-los escorregar e cair sobre o pequeno caracol da cauda, de patas da frente em espargata, a cabeça a inclinar-se de espanto. E, ao conseguirem finalmente, sair da cama, a primeira paragem foi para fazerem cada um o seu chichi, limpo prontamente. Sucederam-se as tentativas de equilíbrio e as investidas(previamente inscritas em genes muito antigos)em direcção à manta, que ora era arrastada por uma ponta, capturada entre a pequena serrilha dos dentes, e tratada como um farrapo, uma presa sacudida e atacada num jogo sábio da natureza, numa mímica a que era de se ficar a assistir sem fazer intervalo.


Sete meses depois recebo um telefonema urgente da Ana. Desta vez, em aflição, quase chorou ao dizer-me, estava agora a almoçar aqui em casa com uma amiga, a Julieta ainda está no cio, e vê bem o que aconteceu, o Romeu arrancou-lhe a cueca protectora com os dentes, imagina, e... (e eu completei para lhe abreviar a descrição) agora o que faço, é um espectáculo ali no corredor... Tranquilizei-a. Que fechasse as portas e deixasse o feliz casal sossegado, não havia de momento nada mais a fazer, e finalizasse calmamente o almoço com a amiga, que em breve voltaria tudo ao normal. Mais tarde conversaríamos sobre como poderíamos actuar, perante o que sucedera. Mas ao desligar o telefone pensei que íamos ter bebés, e um sorriso, que ela não viu, iluminou-me o pensamento.


Tinham entretanto passado mais dois meses e desta vez o telefonema da Ana era para me convidar para jantar. Antes de me sentar à mesa quis ir visitar a Julieta à cozinha. Num anexo que dava para o jardim estava uma caminha preparada, à espera que nascessem os cachorros. Deixara-se prosseguir a gravidez porque os métodos abortivos que havia nessa altura eram falíveis e com muitas contra-indicações. A Julieta era maior e mais forte que o Romeu, e aguentou bem a sua nova condição. Quando me viu abanou a cauda sem convicção, que em vez de estar enrolada sobre a garupa, caía como se a ponta lhe pesasse, e, pura e simplesmente, rebolava também um enorme abdómen, circulando agitada, e arfando sem cessar. Achei que estaria para muito breve, talvez desse ainda para comer a sobremesa e tomar o café, comentei a rir. O jantar foi animado, mas no dia seguinte era Sábado, eu estava de serviço e tinha que começar as consultas às dez horas da manhã. Porém, antes de me despedir, resolvi ir ver como estava a Julieta. Naquelas três horas começara a desenrolar-se o parto. Visivelmente incomodada com as contracções não parava de arfar, e agora parecia fugir de si própria e gania, olhando para uma bolsa anmiótica que, já pendurada, indiciava a saída do primeiro feto. Uma contracção mais forte exteriorizou-o, aparecendo uma cabeça com vontade de espreitar para a vida extra-uterina. E foi ali mesmo, quase ao abrir da porta da cozinha, que, arregaçando as mangas para desinfectar as mãos e os braços, a ajudei a parir e reanimei o primeiro cachorro, que era enorme. Pedi uma tesoura, fio de algodão para laquear os cordões, álcool, toalhas, um balde, e durante as quatro horas seguintes continuámos, eu e ela, a pôr mais Carlinos neste mundo. Mas a Julieta, que era mimada e muito jovem, nessa noite parecia rejeitar com veemência o que lhe estava a acontecer. E eram já quatro horas da manhã quando o útero exausto fez uma longa pausa que tive que compensar com medicação, que entretanto fui buscar à clínica. Ao lado, num cesto com uma manta a cobrir uma botija de água quente, chiavam três cachorrinhos perfeitos. Bebíamos um chá quando os filhos da minha amiga começaram a chegar a pouco e pouco, vindos da noite lisboeta. E foi já com toda a gente em casa, rodeando curiosa o acontecimento, que nasceram os dois últimos cachorros (mais um macho, e a única cadelinha da ninhada), ao som de várias exclamações de entusiasmo que à luz do dia despontava.

Quando entrei em casa eram nove horas. Já estás vestida, foi a pergunta do meu filho, e eu respondi-lhe que não, que ainda estava vestida. E fui rapidamente enfiar-me num duche, para voltar a sair. Lembro-me que foi ao descer a rua para me sentar uns minutos na esplanada do café a tomar o pequeno-almoço, com o sol daquela manhã a arder-me nos olhos, sem me ter deitado e prestes a recomeçar de novo a trabalhar, que senti, como poucas vezes, prazer de viver, um prazer entranhado, feito de paz e cansaço.

Para a Ana, em memória dos bons momentos que passámos juntas, por gostarmos de animais.

4 comentários:

  1. Mais uma estória fantástica e com um final feliz.
    Gosto muito destas tuas memórias curtas.

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    1. Ava, tenho tido o teu desejo em consideração...a próxima também vai ser. :)
      Na verdade começaram por ser mais curtas, mas há estórias que por muito que se resumam não conseguem ser mais pequenas. Eram cinco cachorros! :)

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  2. Nem mais. São à medida da sua história e subsequentes peripécias e emoções.
    Continua, por favor. Sou fã delas. :)

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