Atalhos de Campo


10.3.16

memória. curta # 18

Era Verão. Um Verão quente com o lusco-fusco ainda amornado pela brisa da juventude, de uma juventude que se estendeu pelos meus trinta anos fora, como luz que teima em sobreviver à noite. Nesses anos de verão, as consultas também se prolongavam nas tardes até se enfiarem sorrateiras pela hora do jantar. Havia gente que chegava a cheirar a bronzeador, de chinelos nos pés e com os cães ainda húmidos da água do mar porque tinha ficado a assistir ao pôr-do-sol, para não apanhar trânsito. Apareciam assim, sem cerimónia e fora do horário, numa descontracção quase insolente, venho vaciná-lo, já está com a vacina em atraso, diziam ao estender o boletim com as pontas reviradas e areia da praia por entre as folhas. Tudo se prolongava numa bonomia consensual, deixávamos que o dia se cumprisse e se esgotasse, permitíamos que ele nos pesasse nos braços até à exaustão, com a porta aberta até às dez horas da noite, até os gatos começarem a esgueirar-se pelas vielas por entre as sombras, e os talheres pararem de tilintar sobre as mesas das casas de janelas abertas, que há muito iluminavam a cidade. Foi nessa altura do ano que aconteceu algo insólito, que demorou uma semana a ficar resolvido. Primeiro começaram a aparecer coisas fora do lugar, fichas e objectos da bancada que encontrávamos de manhã, caídos pelo chão. Depois deu nas vistas um pacote de batatas fritas que tinha ficado sobre a mesa de trabalho da auxiliar, roído e com as batatas espalhadas sobre facturas e documentos. O mesmo se passou com um queque que tinha ficado embrulhado para o dia seguinte, mas que entretanto desaparecera misteriosamente, pulverizado em pequenas migalhas, e o papel pardo que o envolvia fora encontrado amarfanhado a um canto, parcialmente mastigado. Por fim foi o ataque aos sacos das rações. Fizeram-se buscas, fecharam-se as rações na despensa, e todas as portas. Ao terceiro dia a hipótese de ser um rato foi posta de lado, porque apareceram, finalmente, pegadas de gato sobre o vidro da secretária da sala das consultas, prova coeva que afastou o pouco provável que era que um único rato, sequer, ousasse frequentar um local tão popular entre gatos e cães, embora em involuntariado. Mas afinal onde se escondia o gato, que não miava e não se mexia durante o dia, embora durante a noite se passeasse por todo o lado, dormindo e afiando as unhas na cadeira do médico, demonstrando assim uma total falta de respeito, senão mesmo  de desprezo pelo sítio onde estava? Ao quarto dia patrulhou-se a clínica, sem qualquer êxito. Ao quinto dia optou-se por analisar divisão por divisão, armário por armário, recanto por recanto como se à lupa de detective, ir fechando as salas uma a uma e sempre a seguir a ter sido necessário lá entrar. Ao sexto dia parecia tudo normal, mas depois do almoço lá se encontraram de novo pegadas sobre a mesa. Começava a crescer uma certa irritação entre todo o pessoal, que agora tinha que se manter fechado a sete chaves nos gabinetes e durante as cirurgias, numa clara impotência para resolver o assunto. E na sala de espera, alguém tinha visto? A floreira!, foi a resposta em uníssono. Corremos esperançados para a floreira comprida e estreita que estava ao longo de toda a montra. Aninhado ao canto mais escuro estava um gato preto. Rendeu-se sem oferecer resistência. E foi assim que o Chico Fininho passou da clandestinidade para candidato a adopção. Aborrecido, ficou numa jaula sem precisar mais de roubar comida nem de se esconder. Foi entretanto tratado para uma coriza e castrado. Demorou algum tempo até lhe encontrarmos um dono, porque estava cego de um olho, (e por ser preto, um estigma que carregam injustamente os gatos dessa cor). Mas o fininho tinha uma característica encantadora para além de ter uma história: era muito meigo. E um dia, lá para o fim desse Verão, alguém que se encantou com ele e também com a sua história, pegou-lhe, e quis levar ambos consigo, para casa.  

6 comentários:

  1. Moral da história: Procurar sempre, num pequeno raio de proximidade improvável. No geral, os animais são peritos na procura de locais onde se possam encaixar, sobretudo quando querem descansar, ou dormir. Fá-los sentir mais protegidos. O gato soube escolher.
    Tivemos um cão que se escondia atrás de uma bilha no alpendre para dormitar, aproveitando a sombra fresca, à hora do calor severo do meio-dia. Mas de "Raja" nem vê-lo, foi preciso descobri-lo, e tão perto que estava afinal.:)

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    1. Nem se imagina o transtorno que uma situação destas pode dar. No entanto a condução desta situação foi perfeita, quanto a mim, porque não foi agressiva. É claro que o gato se passou a esconder no sítio que foi seguro da primeira vez (perto da saída) e depois foi explorando, até se tornar, a pouco e pouco, dono do espaço. Assim era difícil encontrá-lo, enganou-nos vários dias porque a "lógica" dele não era igual à nossa, e as pistas apenas coincidiam com os locais do crime.

      Obrigada Miss Marple, the Younger

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  2. E são tão lindos os gatos pretos. Aliás, de qualquer cor.
    O meu Pintas também seria gato para fazer tudo isso e ninguém dar por ele. O bicho não mia. Só emite uns sons quando bem lhe apetece e geralmente a imitar os pássaros.
    Gosto destas histórias com um final feliz, Teresa.

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    1. Querida Ava, nem imaginas o quanto eu também gosto de as recordar. E esta acabou bem. O gato Chico tinha tido hipótese de fugir todos os dias do sítio onde estava, tão perto da rua; mas por alguma razão que nem suspeitamos manteve-se ali. Ou será que afinal suspeitamos?
      Gosto de contar estas histórias. No entanto algumas delas não são, de facto, felizes, e isso por vezes ajuda as pessoas a estarem mais alerta, a terem mais cuidado. Com os animais é essencial. Com os animais é tudo para ontem, como eu costumava dizer, e ainda digo.

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  3. estou rendido às tuas memórias :D muito bom!
    os meus pais tiveram um "ladrão" muito parecido no restaurante, mas o técnico de pragas disse logo que era pouco provável que fossem ratos, porque havia as mais sofisticadas ratoeiras para esses. Ele na altura sugeriu que seriam morcegos, e eram,e saiam sem pagar a conta :D

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    1. Agradeço, Manel. Faz-me bem contá-las. São histórias que continuam a acontecer todos os dias, por esse mundo fora. Estas foram vividas por mim; com algumas sofri bastante, com outras rejubilei. Gosto de partilhá-las. Nunca me passaria pela cabeça que os morcegos fossem assim larápios de garfo e faca. Achei que eram sobretudo insectívoros, mas afinal são omnívoros, e caloteiros. Sempre a aprender. :)

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